Como Trump transformou a Venezuela num protetorado americano
Concessões centenárias de petróleo, controle sobre receitas e poder de veto dão a Washington influência inédita sobre a economia e o futuro político do país. Crédito: Coluna: Rodrigo da Silva; Apresentação: João Abel
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se reunirá na próxima terça-feira, 22, com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, à margem da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), anunciou na sexta-feira Mike Waltz, embaixador dos Estados Unidos junto às Nações Unidas.
Trata-se de um encontro informal, e não de uma reunião bilateral propriamente dita, precisou ele.
Desde a captura do presidente Nicolás Maduro por forças americanas em janeiro, Donald Trump tem se concentrado em retomar a exploração dos ricos recursos minerais venezuelanos, garantindo acesso privilegiado aos Estados Unidos.
Delcy Rodríguez, que, de acordo com a Constituição venezuelana, ocupa provisoriamente a presidência até a realização de eleições, adaptou-se rapidamente à pressão de Washington e alinhou-se decididamente aos objetivos econômicos de Trump.

Delcy Rodríguez terá reunião com Donald Trump durante a Assembleia Geral das Organização das Nações Unidas (ONU) Foto: Presidência da Venezuela
Reativar a produção de petróleo, bastante reduzida há décadas devido à crise e às sanções americanas, representa um grande alívio para a economia venezuelana em dificuldades.
Trump elogiou repetidamente a colaboração de Rodríguez, diante da desconfiança de amplos setores da população do país latino-americano e das críticas da oposição.
O governo Trump reconheceu legalmente o governo interino da líder do partido no poder, para facilitar as negociações e eliminar obstáculos legais. Ao mesmo tempo, retirou Rodríguez de sua lista de líderes sancionados.
Esses gestos de apoio econômico não se refletiram com a mesma intensidade na esfera política. Rodríguez libertou presos políticos e o governo iniciou um diálogo com parte da oposição, mas líderes políticos dentro e fora do país exigem uma data para as eleições.
A presidente interina da Venezuela conseguiu uma “trégua” após anos de repressão, mas o país precisa de reformas institucionais urgentes, avaliou na sexta-feira a ONG HRW, que esteve ausente por quase duas décadas neste país.
“Há uma pausa na repressão”, disse à imprensa internacional Federico Borello, vice-diretor executivo da Human Rights Watch, após se reunir na quinta-feira com a presidente em Caracas.
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Trump declarou em várias ocasiões que a Venezuela realizará eleições, mas sem definir uma data, por considerar que “o país ainda não está pronto”.
A cooperação no setor petrolífero se intensificou, e Washington e Caracas anunciaram em agosto que os Estados Unidos assumirão o controle de jazidas cujo potencial de produção é estimado em 65 bilhões de barris, por meio de uma participação em uma empresa concessionária responsável pela extração.
Paralelamente, a Venezuela deu uma guinada na agenda de segurança e facilitou a prisão de chefes do crime organizado, como a recente captura de Aníbal Alexander Canelón, conhecido como “El Ingeniero”, da gangue Tren de Aragua, a pedido de Washington.
Melhorar a imagem
Um encontro com Trump “é mostrar ao resto do mundo que a Venezuela está, digamos, em um novo momento, saindo desse período de forte repressão, tornando mais fácil para os governos do mundo normalizarem as relações com a Venezuela”, explicou à AFP Iván Rojas, diretor do Conselho Venezuelano de Relações Internacionais (COVRI).
“Limpar a imagem para sair do isolamento político em que a Venezuela se encontra é uma estratégia diplomática diferente daquela que existia antes. Mas isso não significa respeito aos direitos humanos”, opinou Juan Carlos Apitz, advogado e decano da Faculdade de Ciências Jurídicas e Políticas da Universidade Central da Venezuela.
Trump tem uma agenda lotada na terça-feira: o presidente dos Estados Unidos deve proferir seu discurso perante a Assembleia Geral da ONU pela manhã e, em seguida, terá uma reunião bilateral com o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham.
Donald Trump também deve manter conversações com a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, e participar de um encontro com os líderes dos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). / AFP
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