Durante a maior parte dos 13 anos de operação do hotel Cayena em Caracas, quartos com diárias a partir de US$ 400 ficaram quase sempre vazios. A taxa de ocupação foi desanimadora: 21% no ano passado.
Cinco meses depois, o hotel se tornou o centro das atenções, com investidores correndo para a Venezuela para lucrar com o que esperam ser uma retomada econômica na era pós-Nicolás Maduro. No coração de uma movimentada área comercial, cercado por altos edifícios envidraçados de escritórios e bulevares ladeados por palmeiras, o Cayena, com 47 quartos, é hoje um polo agitado para pessoas influentes.
Com o novo líder da Venezuela avançando para abrir a economia e o presidente dos EUA, Donald Trump, defendendo um rápido aumento da produção de petróleo, os quartos do hotel estão ocupados por executivos de empresas globais de energia, bilionários em busca de oportunidades de negócios e gestores de hedge funds interessados em entender como poderá ser a reestruturação da dívida do país. Quem não consegue quarto quando o hotel está lotado se reúne para cafés da manhã com “cachapas” recheadas de queijo ou os ovos Benedict, que são a especialidade do restaurante.
A cena seria quase inimaginável poucos meses atrás. Por quase uma década, a Venezuela esteve em desordem após anos de má gestão econômica, estatizações e sanções dos EUA ligadas a acusações de eleições fraudadas, o que levou empresas multinacionais e cidadãos a deixar o país em ritmo sem precedentes. E, claro, boa parte do otimismo atual ainda não melhorou a situação econômica dos venezuelanos comuns, em um país onde o salário mínimo mensal é de apenas US$ 240, a inflação é de 600% e muita gente não consegue arcar com o básico.
Mas desde que Trump depôs Maduro em uma operação noturna em janeiro e a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu, aparentemente disposta a abandonar o passado socialista e abraçar o investimento estrangeiro, o país parece pronto para uma virada. Investidores viram mudanças rápidas: os EUA restabeleceram relações, aliviaram sanções e anunciaram que um país que abriga as maiores reservas de petróleo do mundo estava aberto para negócios.
Há, agora, uma corrida ao ouro como não se via desde os anos 1990, quando a abertura do setor petrolífero provocou uma onda de investimento estrangeiro. Alguns esperam um retorno aos dias de glória dos anos 1970, quando a riqueza da indústria de energia trouxe uma cena gastronômica de nível internacional, voos regulares do Concorde para a França e um dos maiores índices de consumo de uísque escocês per capita do mundo.
“Temos esta oportunidade histórica na Venezuela”, disse o encarregado de negócios dos EUA, John Barrett, a uma sala cheia de executivos do petróleo em uma conferência em Caracas no mês passado. Falando em espanhol apenas quatro dias depois de chegar ao país, ele ofereceu palavras de incentivo aos quase 1.000 participantes recebidos pela câmara privada do petróleo.
Muitos representavam empresas venezuelanas de energia ansiosas para revitalizar campos antigos abandonados à própria sorte. A infraestrutura precisará de bilhões de dólares em investimentos para se recuperar de décadas de corrupção, falta de investimento e fuga de cérebros. Apagões elétricos frequentes tornam tudo ainda mais difícil.
E, nesta semana, autoridades receberam um novo lembrete dos desafios quando o presidente da ConocoPhillips disse que os passos iniciais da Venezuela para atrair petroleiras estrangeiras estão muito aquém do necessário para convencer empresas a investir.
Em outro ponto de Caracas, um grupo de cerca de 20 investidores estrangeiros, incluindo representantes de hedge funds e interesses de mineração, reuniu-se em salas privadas para discutir as perspectivas com empresários e analistas. Eles se encontraram com autoridades de alto escalão do governo, incluindo o vice-presidente de Economia, Calixto Ortega, e o presidente do banco central, Luis Perez, enquanto Rodríguez participou por telefone.
Fora dos quartos de hotel e dos restaurantes sofisticados que atendem executivos do petróleo, os venezuelanos comuns percebem a mudança em ritmo muito mais lento. Muitas partes do país ainda sofrem apagões diários que duram várias horas. Neste mês, a Venezuela anunciou medidas emergenciais para estabilizar a rede elétrica após o consumo de eletricidade atingir o maior nível em nove anos.
O governo também parece estar afrouxando a vigilância que praticou por anos para tentar reprimir a oposição, com menos postos de controle e menos medo de que um agente arranque alguém da rua.
O governo Rodríguez, com ajuda dos EUA, trabalha para combater a inflação ao inundar o mercado de câmbio com dólares para sustentar o bolívar. Isso ajudou a manter a taxa de câmbio paralela sob controle, desacelerando a inflação. Mas especialistas alertam que a intervenção é cara e, em última instância, insustentável.
Enquanto isso, lojas oferecem descontos para tentar estimular o consumo. Instituições do governo continuam distribuindo cestas de alimentos a funcionários, compensando em alguma medida os baixos salários. Estimativas privadas situam o custo mensal de uma cesta básica para uma família de cinco pessoas em cerca de US$ 690, quase três vezes o salário mínimo.
Uma pesquisa da AtlasIntel realizada para a Bloomberg News em abril mostrou que 31% dos entrevistados aprovavam o governo Rodríguez, abaixo dos 35% em março. A agitação social aumentou, com o número de protestos de rua mais que dobrando no primeiro trimestre, segundo o Observatório Venezuelano de Conflito Social.
“Está tudo em suspenso”, disse Maria Mercedes, aposentada de 71 anos. “Estamos esperando uma mudança real. Com a ajuda de Trump, talvez possamos recomeçar.”
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