Uruguai: país produz e exporta mais leite do que nunca em sua história

A pecuária leiteira uruguaia atravessa uma transformação que pode ser resumida em uma aparente contradição: há menos propriedades leiteiras, menos terra dedicada à atividade e menos vacas, mas se produz mais leite do que nunca. Os números dos últimos anos mostram que o setor conseguiu elevar fortemente sua produtividade enquanto avançava um processo de concentração e saída de produtores.

No primeiro semestre de 2026, o envio de leite para plantas industriais alcançou 1,025 bilhão de litros, 10,3% a mais do que um ano antes. Junho, com 196 milhões de litros, marcou, além disso, o maior registro histórico para esse mês, segundo dados do Instituto Nacional do Leite (INALE). O crescimento chega depois de um 2025 recorde: durante esse ano foram remetidos 2,212 bilhões de litros, 8,4% a mais do que em 2024.

Quase mil propriedades leiteiras a menos em oito anos

Por trás dos recordes aparece uma transformação estrutural da produção. Segundo os dados do Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca (MGAP-DIEA), o Uruguai tinha cerca de 3.900 propriedades leiteiras no exercício 2015/16. Em 2023/24, restavam 2.978 estabelecimentos. Em menos de uma década desapareceram, assim, mais de 900 unidades produtivas, uma redução próxima de um quarto do total.

O fenômeno também aparece quando se observa exclusivamente aqueles que enviam leite à indústria. Os remetentes passaram de 2.699 em 2017 para 2.135 em 2024, ou seja, mais de 500 produtores a menos em sete anos.

Menos terra e menos vacas

O ajuste não ocorreu somente na quantidade de estabelecimentos. A área destinada à pecuária leiteira passou de aproximadamente 827.000 para 623.000 hectares, enquanto o rebanho diminuiu de 767.000 para 688.000 cabeças.

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O setor produz, portanto, mais leite utilizando uma quantidade menor de recursos produtivos. A explicação está principalmente no aumento da produtividade. A produção individual passou de 4.768 litros por vaca ao ano para 5.825 litros, uma melhora de 22%. Ao mesmo tempo, o remetente médio passou de entregar cerca de 2.000 litros diários para aproximadamente 2.600 litros.

Mais escala e produtividade

Os dois fenômenos — recorde produtivo e desaparecimento de estabelecimentos — fazem parte de um mesmo processo. Os estabelecimentos que permaneceram em atividade aumentaram sua escala e avançaram em genética, alimentação, manejo, tecnologia e gestão, permitindo produzir mais leite com menos animais e área.

Mas essa melhora ocorre ao mesmo tempo em que os estabelecimentos de menor escala encontram maiores dificuldades para permanecer no negócio. O processo é observado especialmente entre os menores: as propriedades leiteiras de até 50 hectares diminuíram de 966 para 711 em sete exercícios.

A pressão econômica ajuda a explicar parte dessa transformação. Em junho, o preço recebido pelo produtor ficou em 16,9 pesos uruguaios (US$ 0,42) por litro, 5% menos na comparação anual, enquanto o indicador de poder de compra se encontrava 21% abaixo de sua base de referência. Quando os custos avançam mais rapidamente do que as receitas, ganhar eficiência e escala se torna cada vez mais determinante para permanecer na atividade.

As exportações também batem recordes

A maior produção encontrou, além disso, uma importante saída no mercado internacional. Durante 2025, as exportações de lácteos uruguaios alcançaram aproximadamente US$ 965 milhões, um crescimento de 13%. A tendência continuou em 2026.  Somente em julho, as vendas externas chegaram a US$ 95 milhões, 31% a mais do que durante o mesmo mês do ano anterior.

Esse desempenho voltou a colocar os lácteos como o terceiro complexo exportador do Uruguai, atrás da carne bovina e da celulose. Cerca de três quartos da produção do país acabam sendo exportados sob diferentes produtos, entre eles leite em pó, queijos e manteiga.

O desafio de depender de poucos mercados

O forte perfil exportador também expõe uma das vulnerabilidades da cadeia. Argélia e Brasil concentraram mais de 60% das exportações de lácteos uruguaios durante 2025, enquanto em julho de 2026 representaram aproximadamente a metade. A isso se soma uma elevada participação do leite em pó integral, que representa cerca de dois terços da produção industrial.

O Uruguai construiu, assim, uma importante capacidade para colocar sua produção no exterior, mas continua enfrentando o desafio de diversificar produtos e destinos para diminuir a exposição a mudanças em poucos mercados compradores.

A indústria também se concentra

O processo de concentração não termina na produção primária. Quatro companhias — Conaprole, Estancias del Lago, Lactalis e Alimentos Fray Bentos — recebem cerca de 91% do leite remetido à indústria. As cooperativas, por sua vez, concentram aproximadamente três quartos da captação. O resultado é uma cadeia capaz de processar e exportar grandes volumes, mas com uma estrutura produtiva cada vez mais concentrada.

O outro lado do recorde leiteiro

A eficiência alcançada pelo Uruguai é significativa: mais leite com menos estabelecimentos, menos hectares e menos animais. Mas o processo abre uma discussão que vai além dos indicadores produtivos. A atividade leiteira tem uma forte presença territorial e sustenta empregos, famílias rurais, serviços e comunidades em departamentos como Colonia, Florida e San José. Por isso, o desaparecimento de estabelecimentos tem consequências que vão além dos litros que deixam de ser produzidos.

O desafio daqui para frente será sustentar as melhorias de produtividade e competitividade necessárias para participar do mercado internacional, enquanto se buscam ferramentas para enfrentar problemas como a sucessão geracional, a escala dos produtores menores, a infraestrutura e o acesso a mercados.

O Uruguai chega, assim, a 2026 produzindo e exportando leite em níveis históricos. Mas, por trás do recorde, há uma transformação profunda: o leite cresce enquanto diminui o número de famílias e estabelecimentos que o produzem.

As informações são do El Observador, adaptadas pela equipe MilkPoint.

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