Uma visita ao Museu Nacional da Escravatura em Luanda

A recente visita apostólica do Papa a Angola, constituiu uma ocasião para os jornalistas da Rádio Vaticano visitarem o Museu Nacional da Escravatura, em Luanda. Ficaram a conhecer melhor essa página sombria da história da África, aspeto que já tinha vindo à tona também na visita ao Forte de 1599, em Muxima, lugar onde os angolanos hoje rezam a Nª Senhora pela irmandade e a paz no mundo. Souberam perdoar e olhar para a frente. Neste Dia Internacional dos Museus, evocamos essa visita àquele Museu.

Dulce Araújo – Vatican News

“Os Museus unem o mundo”. É este o tema do Dia Internacional dos Museus que se celebra neste dia 18 de maio de 2026.

Com a escolha deste tema o Conselho Internacional dos Museus, quer que se entenda os Museus como uma oportunidade de criar pontes entre povos e culturas, com vista no diálogo, compreensão, inclusão e paz, ultrapassando, desse modo, as divisões que prejudicam a humanidade.

Além disso, os Museus ajudam a estabelecer laços entre gerações, comunidades, países. Mais do que apagar as diferenças, os Museus criam condições que permitem compreendê-las e respeitá-las. Ao preservar o património e a memória dos povos, ao criar oportunidades de aprendizagem e de reflexão e ao propor espaços de acolhimento para vozes diferentes, os Museus favorecem o diálogo, a inclusão e a paz.

O Dia Mundial dos Museus, foi instituído em 1977, pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM). E a cada ano há um número maior de museus que se empenham com atividades especiais para este dia.

Nós acolhemos a ocasião para falar do Museu Nacional da Escravatura em Luanda que alguns jornalistas da Rádio Vaticano/Vatican News, enviados a Angola para fazer a cobertura da visita de Leão XIV ao país, tiveram ocasião de visitar.



Os jornalistas durante na visita ao Museu

O Museu ergue-se no Morro da Cruz, a sudeste de Luanda, capital de Angola. Foi criado em 1977 pelo Instituto Nacional do Património Cultural.  O edifício, todo branco, como que caiado de fresco, era a residência, no século XVII, do Capitão de Granadeiros D. Álvaro de Carvalho Matoso, Cavaleiro da Ordem de Cristo. Ele era filho de D. Pedro Matoso de Andrade, capitão-mor dos presídios de Ambaca, Muxima e Massangano, em Angola, e um dos maiores comerciantes de pessoas escravizadas da costa africana, na primeira metade do século XVIII.

Com a morte de D. Álvaro de Carvalho Matoso, em 1798, os seus familiares e herdeiros continuaram a exercer o Tráfico Transatlântico no mesmo local até 1836, quando um decreto de D. Maria II, de Portugal, passou a proibir as colónias portuguesas de exportarem pessoas escravizadas.

Subindo a escadaria do morro, que dá para o atlântico, uma das portas sem retorno para os filhos da África, forçados a embarcar para o novo mundo, desemboca-se num pátio com um alambique, onde a aguardante servia para embriagar os escravizados rebeldes e domá-los.

Museu Nacional da Escravatura - Luanda

Museu Nacional da Escravatura – Luanda

Depois acede-se às três salas do Museu: na primeira estão vestígios do batismo a que a Igreja submetia todos os escravizados, privando-lhes do seu nome africano, pilar da identidade. Não é que o batismo atenuasse a sua triste condição de escravatura, mas a Igreja assim tranquilizava a sua própria consciência. Nessa sala se encontram ainda uma pia batismal e um crucifixo na parede.

Imagem do sofrimento das pessoas escravizadas

Imagem do sofrimento das pessoas escravizadas

Na outra sala, estão objetos de castigo como palmatórias perfuradas, chicote de cavalo marinho, grilhões, esferas pesadas com as correntes para impedir ao escravizado de fugir. Maquetes de navios retratam os autores desse comércio ignóbil e as embarcações que transportavam os prisioneiros em condições desumanas nos porões apinhados ao máximo.  O Museu foi criado em memória dos milhões de africanos escravizados, levados de várias partes de Angola, como se vê nas tabelas estatísticas, expostas no Museu.

Esfera com corrente para prender as pessoas então escravizadas

Esfera com corrente para prender as pessoas então escravizadas

Aos microfones de Stephen Kempis, um dos enviados da Rádio Vaticano/Vatican News a Angola, o Diretor do Museu, Leonardo Dolumba, especificou um pouco mais as dimensões dessa tragédia, sublinhando que depois do Senegal, Angola foi o país donde embarcaram mais africanos escravizados para o novo mundo. As estatísticas – disse – falam de 10 milhões. Isto teve para o país, consequências graves do ponto de vista demográfico e para a sociedade angolana de hoje.

Há 25 anos à frente desse Museu, Leonardo Dolumba diz que é doloroso falar do tema aos numerosos visitantes, mas há que fazê-lo e, sobretudo, fazer com que as novas gerações conheçam essa triste página da história da África, de Angola, do mundo.

Oiça as palavras do Diretor do Museu

O Museu Nacional Angolano da Escravatura é conhecido mundialmente e muito visitado por estrangeiros. Em 2024 um dos seus visitantes foi Joe Biden, pouco antes que deixasse o poder.  Leão XIV não esteve no Museu, mas no Santuário da Muxima, onde rezou o terço com milhares e milhares de fiéis, ergue-se um dos presídios dos comerciantes de escravos. É de finais do século XVI. Nas palavras que dirigiu a essa multidão, Leão XIV disse:

Encontramo-nos num Santuário onde, durante séculos, tantos homens e mulheres rezaram, quer em momentos de alegria, quer em circunstâncias tristes e muito dolorosas da história deste país.”

O Papa,  no Santuário Mariano, em Muxima

O Papa, no Santuário Mariano, em Muxima   (AFP or licensors)

Leão XIV, em Muxima

Leão XIV, em Muxima   (ANSA)

Nesse lugar, para onde as pessoas se deslocam, oferecendo tudo a Nossa Senhora da Conceição da Muxima – “Mamã Muxima” (Mãe do Coração), como a chamam, e pedindo a sua bênção, o Reitor do Santuário, P. Alberto Mpindi, à pergunta como foi possível esse lugar outrora de horror para os africanos, ser hoje lugar de luz e de adoração a Nossa Senhora, respondeu:

A Palavra de Deus recebida veio para curar e provocar irmandade, unidade e paz. Além disso, o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura, e o povo angolano sabe perdoar, ultrapassar o passado e continuar em frente, colhendo oportunidades mesmo em situações adversas. Assim, o povo viu nesse lugar um sinal de Deus. Por intercessão da Mamã Muxima pede a paz. Tanto nos tempos difíceis de guerra, quando não havia estrada, como hoje, continua a acorrer a esse lugar para pedir a paz, e a espiritualidade continua a crescer.

Oiça as palavras do P. Alberto Mpindi, Reitor do Santuário

E a missão de construir um mundo melhor, acolhedor, onde não haja mais guerras, nem injustiças, nem miséria, nem desonestidade, e os princípios do Evangelho inspirem a moldem cada vez mais os corações, as estruturas e os programas, para o bem de todos, foi a mensagem que o Papa deixou aos jovens e a todos quantos se reuniram com ele em Muxima para rezar a Nossa Senhora do Coração. “É o amor que deve triunfar, não a guerra” -disse o Papa.

E os Museus podem ser um elo de ligação, de conhecimento e de compreensão entre povos, contribuindo para a paz no mundo.  

Os jornalistas, em frente do Museu. Com eles (direita) Moisés Malumbu, ex-jornalista da Rádio Vaticano.

Os jornalistas, em frente do Museu. Com eles (direita) Moisés Malumbu, ex-jornalista da Rádio Vaticano.

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