A 13 de maio, data em que se assinalaram 138 anos da abolição formal da escravatura no Brasil, Thiaguinho estreou Raízes no YouTube, uma série documental com quatro episódios, gravada em Angola durante a passagem inédita da digressão Tardezinha pelo país. A produção acompanha a viagem do artista brasileiro ao território angolano, em 2025, para investigar a ligação entre o samba e o semba, ao evidenciar a influência angolana na formação de uma das expressões musicais mais reconhecidas do Brasil. Antes da disponibilização ao público, Raízes teve uma ante-estreia para convidados em São Paulo, no dia 12 de maio.
O documentário parte da pergunta central: de onde vem o samba? E a resposta, construída ao longo da série, passa por Angola, pelo semba e pelas marcas culturais levadas por africanos escravizados para o Brasil. A produção procura mostrar como ritmos, formas de dançar, instrumentos, palavras, práticas comunitárias e modos de celebração atravessaram o Atlântico e permaneceram na cultura brasileira, muitas vezes sem que a sua origem africana fosse reconhecida com a mesma visibilidade.
Dividido em quatro partes, Raízes organiza essa viagem por diferentes dimensões. O primeiro episódio, “A raiz do som”, introduz a ligação musical entre o samba brasileiro e o semba angolano. O segundo, “A raiz do homem”, aprofunda questões de identidade, pertença e memória. O terceiro, “A raiz da festa”, acompanha a celebração, o encontro com o público e a dimensão comunitária da música. O quarto, “A raiz do encontro”, encerra a série a partir da aproximação entre Angola e Brasil, tendo a música como ponte entre os dois territórios.
A produção reúne imagens da passagem da “Tardezinha” por Angola, bastidores dos concertos, momentos da viagem e depoimentos de artistas, investigadores e agentes culturais brasileiros e angolanos. Entre os nomes brasileiros presentes no documentário estão Péricles, Leci Brandão, Evandro Ókan e Jorge Aragão, referências ligadas ao samba e ao pagode. Do lado angolano, surgem nomes como Dom Caetano, que no documentário aborda a origem kimbundu da palavra “samba”, Allicia Santos, diretora da Infotur, e Hélio Aragão, gestor cultural.
Ao escolher Angola como território central da narrativa, Raízes desloca o olhar habitual sobre o samba. Em vez de apresentar o género apenas como símbolo nacional brasileiro, a série propõe uma leitura atlântica, na qual o samba surge como resultado de continuidades africanas, de processos de deslocação forçada, de resistência cultural e de reinvenção coletiva no Brasil.
É nesse ponto que o semba ganha centralidade. Expressão musical e coreográfica angolana, o género é apresentado como uma das matrizes que ajudam a compreender o desenvolvimento do samba. Além da semelhança sonora entre palavras ou ritmos, a relação é tratada como uma ligação mais ampla, feita de corpo, dança, roda, festa, comunidade e memória. Ao longo dos episódios, o documentário aproxima práticas culturais dos dois países e mostra como Angola permanece presente em elementos que hoje fazem parte da identidade brasileira.
A estreia de Raízes acontece também num momento de projeção institucional para o semba. Angola tem em curso a candidatura “Semba: music and dance in Angola” à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, no ciclo de avaliação de 2026 da UNESCO.
Thiaguinho, nome artístico de Thiago André Barbosa, é cantor, compositor e empresário brasileiro. Nascido em Presidente Prudente, no estado de São Paulo, e criado em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, tornou-se conhecido após participar no programa televisivo Fama, em 2002. Ganhou projeção nacional como vocalista do Exaltasamba, grupo que integrou entre 2003 e 2012, e consolidou-se depois em carreira a solo como uma das principais vozes do samba e do pagode brasileiros. Entre os seus projetos de maior alcance está a Tardezinha, formato de concertos que se tornou um fenómeno de público no Brasil e passou também por palcos internacionais.
A ficha técnica do documentário inclui produção da Paz e Bem Entretenimento e idealização de Thiaguinho e Ellen Barbosa. A direção é de Riccardo Melchiades, do Projeto Filmmar, com direção de projeto de Grazi Caetano, coordenação de produção de Grazi Caetano e Marcela Melchiades, roteiro de Bruna Coutt, Riccardo Melchiades e Marcela Melchiades, assistência de pesquisa de Marcos Takeda, direção de fotografia de Mariah Pacheco, pós-produção de Riccardo e Marcela Melchiades, finalização do Projeto Filmmar e design de logo da Noize.
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