María Corina Machado parece ainda estar muito agradecida a Donald Trump por ter retirado Nicolás Maduro do poder.
É algo muito estranho, porque a única razão pela qual María Corina Machado se tornou uma estrela não foi por causa de Trump. Foi por causa do que fez Joe Biden. Durante o mandato do Presidente Biden, os Estados Unidos forçaram Maduro a convocar eleições que o antigo Presidente venezuelano não queria convocar. Os Estados Unidos forçaram Maduro, mesmo não o tendo convencido a deixar María Corina concorrer. Mas forçaram Maduro a respeitar a candidatura de [Edmundo] González em 2024. A partir dos resultados das eleições, María Corina Machado pôde afirmar-se como a verdadeira opositora. Se há alguém, na minha opinião, a que María Corina Machado deve agradecer seria Biden.
Mas María Corina Machado, mesmo antes de Donald Trump, sempre foi muito próxima do Partido Republicano…
É verdade. Acho que aí que a sua ideologia a bloqueia um pouco. E há sempre aquela ideia de que os presidentes republicanos são mais duros contra comunistas. É o que costuma acontecer, mas não é necessariamente sempre o caso. O único Presidente norte-americano que deu poder oficialmente a uma Presidente comunista foi Trump, ao nomear Delcy Rodríguez como Presidente interina. Ele tem esse título: o de ter sido o primeiro Presidente dos Estados Unidos a colocar no poder uma comunista. E uma bem antiamericana.
Continuam a existir rumores de que a Venezuela terá eleições presidenciais em 2027 e 2028…
Claro. Mas lembremo-nos: a questão é que ninguém quer falar de um calendário para que isso aconteça.
Corina Machado: “Não encontrei um único venezuelano ofendido” com a entrega do Nobel a Trump
Acredita que a captura de Nicolás Maduro e o atual regime venezuelano mudaram a América Latina e a trajetória de outros países vizinhos?
Acho que os Estados Unidos angariaram muitos amigos em resultado do que aconteceu e impressionaram três grupos na América Latina. Os Estados Unidos impressionaram primeiro os anticomunistas, porque Trump se livrou de Maduro. Em segundo, os Estados Unidos impressionaram os líderes populistas de direita, porque Trump está disposto a apoiá-los. Em terceiro, impressionaram as pessoas na América Latina que gostam do envolvimento norte-americano. Existe um elemento muito forte na política latino-americana: quando há uma crise, liga-se aos Estados Unidos. Há pessoas que não gostam de que os Estados Unidos estejam desligados. E os Estados Unidos, com o que fizeram na Venezuela, deram a impressão de estarem dispostos a envolverem-se. Se alguém ligar, eles atendem. Trump criou assim novos amigos: anticomunistas, líderes populistas como [o antigo Presidente brasileiro Jair] Bolsonaro, [o Presidente argentino Javier] Milei ou [o Presidente colombiano] Abelardo de la Espriella, e aquelas pessoas que acreditam que os Estados Unidos devem funcionar como uma ambulância ou um paramédico na América Latina.
Em concreto, que tipo de efeitos políticos é que teve?
O que estamos a ver na América Latina é que os Estados Unidos colocam a promoção da democracia, as questões da governança — assuntos relacionados com transparência e queda da corrupção —, assim como os Direitos Humanos no fim da lista de prioridades. Trump está a perpetuar a noção de que a América Latina é uma região que existe apenas para a exploração de recursos. É algo que a China fez na América desde o início dos anos 2000. Mas estamos a viver numa época em que, pela primeira vez desde os anos 70, temos um Presidente dos EUA que está a colocar a democracia, a boa governação e os direitos humanos no fundo da lista de prioridades. Portanto, isso vai ter um impacto na evolução da governação na região, não tenho dúvidas.
Vários candidatos apoiados por Trump venceram as eleições na América Latina, como na Colômbia, no Peru ou no Chile…
Sim. E não estou chocado com isso. Nos anos 90, houve um momento em que havia um sentimento pró-americano muito forte. Toda a gente queria usar o Washington Consensus [um pacote de medidas económicas neoliberais] e plataformas como o Summit of the Americas. Há sempre momentos em que os latino-americanos adoram o regresso dos Estados Unidos. Adoram a presença dos Estados Unidos. E estamos a viver essa época.
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