Trojany cruza água, memória e tecnologia em exposição em Fortaleza


    “Água Escura Natureza Elétrica”, primeira mostra individual de Trojany, fica em cartaz até 30 de setembro na Casa do Barão de Camocim, em Fortaleza.

    A exposição reúne 18 trabalhos produzidos entre 2013 e 2026, com fotografias, vídeos, objetos, documentos, plataformas digitais e aves taxidermizadas.

    Uma reportagem publicada pelo O POVO em 1960 integra a mostra e contribui para a pesquisa da artista sobre a barragem do Açude Orós.

    A partir de memórias de Icó e de pesquisas sobre o Ceará, Trojany relaciona água, território, ancestralidade, tecnologia e diferentes períodos históricos.

A exposição “Água Escura Natureza Elétrica”, primeira mostra individual da artista visual e pesquisadora cearense Trojany, segue em cartaz até 30 de setembro na Casa do Barão de Camocim, em Fortaleza.

Com 18 trabalhos produzidos entre 2013 e 2026, a mostra articula diferentes momentos da trajetória da artista a partir de temas como água, memória, tecnologia, território e ancestralidade no Ceará.

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Entre os materiais que integram a exposição está uma reportagem do O POVO publicada em 26 de março de 1960, relacionada à barragem do Açude Orós.

O material foi encontrado por Trojany durante a pesquisa realizada nos arquivos do jornal e passou a fazer parte de uma das salas da mostra, contribuindo para a contextualização da barragem e dos acontecimentos registrados naquele período.

“Esse material entrou na pesquisa como um achado fundamental nos arquivos do O POVO. Quando nos deparamos com a capa de 26 de março de 1960, vimos ali não apenas uma notícia, mas um retrato vivo do momento exato em que a barragem do Orós esteve sob risco iminente”, afirma.

Água como ponto de partida

Com curadoria de Rodrigo Lopes, a exposição ocupa o térreo e o primeiro andar da Casa do Barão de Camocim.

Fotografias de família, vídeos, registros de performances, objetos encontrados, documentos antigos, fotografias do século XIX, bandeiras-palavras, plataformas digitais e aves taxidermizadas compõem o percurso.

Apesar de ser uma mostra individual, Trojany explica que grande parte dos trabalhos foi construída a partir de processos coletivos, pesquisas e encontros realizados ao longo de mais de uma década.

O conjunto reúne obras produzidas em diferentes períodos e também materiais que antecedem o nascimento da artista, como fotografias feitas por familiares.

A exposição parte da água como elemento para pensar diferentes experiências e transformações do território cearense.

A pesquisa de Trojany atravessa sua infância em Icó, as relações com açudes e rios, a vida rural e as transformações provocadas por processos de modernização.

“Essa exposição são vestígios desse caminho, um arquivo .mp4, uma pedra, uma foto da família, são fósseis do meu tempo”, define a artista.

Orós entre memória e desenvolvimento

O Açude Orós ocupa um papel importante na narrativa da mostra. Para Trojany, a estrutura está ligada tanto às memórias familiares quanto à história das políticas de combate à seca e dos projetos de modernização do semiárido.

O Rio Jaguaribe também aparece como referência para compreender as transformações do território.

A artista relaciona as antigas infraestruturas hídricas a outros projetos tecnológicos contemporâneos e questiona as diferentes formas pelas quais o Ceará passou a ser imaginado a partir de ideias de desenvolvimento.

“O açude de Orós e de Lima Campos sempre foram nosso espaço de balneabilidade, nossas praias de fim de semana. Então existe um imaginário afetivo com o banho no açude, mas também existe essa pesquisa poética, histórica e conceitual que materializa algumas obras”, explica.

A relação com outros territórios de água também aparece em trabalhos desenvolvidos durante residências artísticas.

É o caso de “Oráculo 3”, produzida a partir de uma experiência em Liverpool, na Inglaterra, durante uma residência que levou a artista a pesquisar o Rio Mersey e a história da região portuária.

Durante a residência, Trojany encontrou uma ave atropelada, realizou a taxidermia do animal, fez um escaneamento em 3D e criou uma animação em que o pássaro volta a voar pelas ruas da cidade.

A obra amplia a pesquisa para além dos rios e açudes cearenses e observa conflitos entre natureza, urbanização e infraestrutura em outros territórios.

Passado, presente e futuro

A mostra também aproxima as antigas infraestruturas hídricas das atuais estruturas tecnológicas.

Cabos de fibra óptica, fluxos de dados e novas formas de conexão aparecem em diálogo com rios, açudes, memórias familiares e registros históricos.

Para Trojany, a intenção não é apresentar o passado como algo encerrado ou o futuro como uma promessa de desenvolvimento, mas colocar diferentes temporalidades em contato.

Fotografias, documentos, objetos, vídeos e plataformas digitais funcionam como fragmentos de uma mesma investigação sobre o território.

“Quero propor como artista uma relação em que passado, presente e futuro coexistem em tensão e emaranhamento”, afirma.

Ao longo do percurso, “Água Escura Natureza Elétrica” reúne diferentes materiais e experiências para refletir sobre as transformações do Ceará e sobre a maneira como água, tecnologia e memória participam da construção do território e de seus imaginários.

Exposição “Água Escura Natureza Elétrica”

  • Quando: até 30 de setembro
  • Onde: Casa do Barão de Camocim (Rua General Sampaio, 1632, Centro)
  • Gratuito




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