Terremotos na Colômbia e na Venezuela não foram causados por arma militar

Pouco mais de um mês após dois terremotos atingirem a Venezuela, deixando mais de 6.300 mortos, um tremor semelhante foi registrado na Colômbia nesta segunda-feira (10). O sismo, de magnitude 7,4, destruiu edifícios e matou ao menos 220 pessoas, além de ferir mais de 500. Os terremotos foram uns dos maiores já registrados tanto na Venezuela quanto na Colômbia.

A proximidade local e temporal é apenas uma coincidência. E todo leitor assíduo desta newsletter sabe que coincidências são transformadas facilmente em teorias conspiratórias na internet.

Por isso, não demorou muito para que usuários começassem a compartilhar que os tremores não seriam naturais, mas resultado de um ataque planejado.

Segundo essa teoria, existiria uma arma militar capaz de gerar terremotos. Como? Aí a explicação varia: lasers, ondas HAARP, balões ou espécies de esferas voadoras que teriam sido identificadas no céu dos dois países antes — ou depois — dos sismos…

Alguns posts sugerem que os responsáveis seriam os americanos, afinal eles que tinham o projeto HAARP, enquanto outros culpam os chineses, que estariam retaliando os países onde a direita teria voltado ao poder.

Tem até publicações com previsões de quem seriam os “próximos alvos” do ataque, como Brasil e México.

A imagem exibe uma captura de tela de uma postagem sobreposta a um fundo verde-claro com bordas ilustradas por canos pretos e brancos. No centro, um quadro branco apresenta os textos 'ATENÇÃO COLÔMBIA', 'O Projeto HAARP' e 'provocou o Terremoto na Colômbia, Venezuela, e muito em breve segue o Brasil, México.', seguidos da frase 'Avalie esta tradução:' com ícones de polegar para cima e para baixo. Na parte inferior esquerda do quadro branco, há um recorte vertical de um vídeo com fundo escuro. No topo desse recorte, lê-se o texto 'CON ESTAS ARMAS PUEDEN GENERAR TERREMOTOS' e, abaixo da imagem central, lê-se 'HAARP'. A imagem principal do vídeo mostra, à esquerda, um homem — de pele clara e cabelo escuro, vestindo terno escuro, camisa branca e gravata —, gesticulando com as mãos. À direita do homem, há uma montagem contendo uma estrutura de concreto sob árvores e, na parte superior direita, a ilustração de um olho dentro de um triângulo, com o logotipo do TikTok posicionado no canto inferior direito.

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Mas vamos aos fatos: entramos em contato com sismólogos para perguntar se há algum registro de arma capaz de causar terremotos e eles foram bem claros.

“Não há uma arma específica com capacidade para causar terremotos. O evento sísmico na Colômbia aconteceu a mais de 100 km de profundidade, que é inacessível e longe de qualquer influência humana”, explicou José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da USP.

“Além disso, é possível usar os sismogramas das estações para modelar qual foi o mecanismo que gerou os tremores. Tanto os eventos da Venezuela quanto o da Colômbia foram modelos de sismos naturais”, complementou Bruno Collaço, sismólogo da Rede Sismográfica Brasileira e do Centro de Sismologia da USP.

O Centro de Epidemiologia de Desastres, órgão que estuda situações de emergência há 50 anos, nos disse que não tem conhecimento de elemento que possa confirmar a existência de uma arma semelhante.

O projeto HAARP, citado em algumas peças de desinformação, não tem poder para controlar o clima ou gerar terremotos. Ele é um projeto de ondas de rádio da Universidade do Alaska para estudar a ionosfera, camada da atmosfera localizada entre 60 km e 1000 km de altitude. Todas as informações sobre o projeto, inclusive, podem ser encontradas aqui.

Mas o que explicaria essa quantidade de terremotos?

Por incrível que pareça, a quantidade de terremotos de grande magnitude registrada atualmente não está fora da normalidade. Tanto os especialistas consultados quanto autoridades internacionais não estão percebendo crescimento na frequência desses sismos.

No entanto, o número total de terremotos catalogados tem aumentado. Segundo o USGS (United States Geological Survey, agência governamental dos EUA), isso não significa dizer que eles tenham ocorrido mais, e sim que a tecnologia atual detecta os movimentos sísmicos terrestres com maior precisão. Isso faz com que terremotos muito leves, antes não contabilizados, acabem sendo registrados.

“Além disso, após um evento de grande magnitude e impacto, como o ocorrido na Venezuela, aumenta a atenção do público para informações relacionadas a terremotos, o que pode dar a impressão de que esses eventos estão ocorrendo com maior frequência”, explicou Nogueira.

De acordo com a USGS, espera-se que, todo ano, aconteçam 16 terremotos de magnitude maior do que 7 — e um deles com magnitude superior a 8. Em 2010, ano com maior incidência de tremores de grande intensidade, foram identificados 23.

Até o momento, dez terremotos de grande magnitude foram registrados em 2026.

E, desde 1900, 1.617 tremores de magnitude superior a 7,0 foram registrados no planeta.

A imagem exibe um mapa-múndi planificado com continentes em tons de verde e marrom e oceanos em azul-claro. Linhas vermelhas irregulares atravessam a superfície global, delineando diversas áreas geográficas. Centenas de pequenos círculos cinzas estão agrupados majoritariamente ao longo e nas proximidades dessas linhas vermelhas, formando padrões densos especialmente nas bordas do Oceano Pacífico, no sul da Ásia e na região do Mar Mediterrâneo. Nomes de países, continentes e oceanos aparecem escritos em letras pequenas sobre o mapa.
Terremotos de magnitude maior do que 7 (pontos cinza) geralmente acompanham placas tectônicas (linhas vermelhas).

Isso significa que terremotos são um evento natural e, infelizmente, rotineiro. Entendemos que as imagens de destruição podem parecem inexplicáveis, mas recorrer a teorias conspiratórias sem base científica não faz nada mais do que apenas espalhar pânico.

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