A inteligência artificial (IA), a segurança cibernética e a infraestrutura digital estão se tornando componentes cada vez mais importantes da segurança nacional na América Latina. À medida que os governos modernizam os serviços públicos e expandem as redes digitais, as preocupações relacionadas a ataques cibernéticos, proteção de dados, dependência tecnológica e segurança de sistemas críticos ocupam um lugar cada vez mais central no planejamento da segurança nacional.
Em resposta, diversos países vêm ampliando alianças tecnológicas destinadas a fortalecer a resiliência digital e as capacidades soberanas. Iniciativas recentes no Paraguai e na Guatemala, impulsionadas com o apoio de Taiwan e dos Estados Unidos, mostram como a cooperação em IA, segurança cibernética e infraestrutura digital faz parte de esforços mais amplos para proteger informações sensíveis, modernizar instituições governamentais e reduzir vulnerabilidades estratégicas.
A crescente ênfase em alianças tecnológicas confiáveis reflete uma preocupação cada vez maior entre autoridades e especialistas em segurança com a espionagem cibernética, a dependência de tecnologias estrangeiras, particularmente aquelas vinculadas à China, e as vulnerabilidades presentes em ecossistemas digitais críticos. À medida que os serviços governamentais, as redes de comunicação e a infraestrutura digital se tornam mais interconectados, a resiliência digital é cada vez mais vista como uma prioridade de segurança nacional. e não apenas como uma questão tecnológica.
Paraguai aposta em infraestrutura estratégica de inteligência artificial
O Paraguai e Taiwan anunciaram, no início de maio, um acordo para desenvolver um centro de IA que combina a capacidade energética paraguaia com a experiência tecnológica taiwanesa. O anúncio foi feito durante a visita do presidente paraguaio Santiago Peña a Taipé e integra uma agenda mais ampla de cooperação em inovação, segurança e desenvolvimento digital.
De acordo com o jornal Focus Taiwan, o projeto prevê a construção de infraestrutura para processamento de dados e desenvolvimento de aplicações de IA. O jornal paraguaio ABC informou que o centro operará sob um modelo binacional semelhante ao de Itaipu e que, em sua fase final, deverá alcançar uma capacidade de 1000 MW, aproveitando a abundante disponibilidade energética do Paraguai e a expertise de Taiwan em semicondutores e infraestrutura digital.
As autoridades paraguaias destacaram que a energia produzida pelas usinas hidrelétricas de Itaipu e Yacyretá constitui uma das principais vantagens do projeto. A Reuters informou que as autoridades consideram que essa capacidade poderá atrair investimentos em processamento de dados e em setores da economia digital.
Além de suas implicações econômicas, a iniciativa reflete um reconhecimento crescente de que a capacidade de processamento de dados, a infraestrutura digital e a IA possuem importantes dimensões de segurança nacional. Os governos dependem cada vez mais de sistemas digitais para administrar serviços críticos, proteger informações sensíveis e apoiar a tomada de decisões estratégicas. Como resultado, uma infraestrutura tecnológica segura tornou-se um componente cada vez mais relevante da resiliência institucional.
Para o Paraguai, o projeto também representa uma oportunidade de fortalecer capacidades nacionais em tecnologias emergentes e aprofundar a cooperação com Taiwan, um de seus parceiros internacionais mais próximos.
Guatemala fortalece a resiliência cibernética
A cooperação tecnológica de Taiwan com seus aliados também se estende ao campo da segurança cibernética.
De acordo com o Taipei Times, Taiwan prevê apoiar a Guatemala por meio da criação de centros de operações de segurança cibernética e de programas de capacitação voltados ao fortalecimento da proteção de redes e sistemas digitais.
Esses esforços complementam iniciativas promovidas por Taiwan e pelos Estados Unidos por meio do Quadro Global de Cooperação e Capacitação (GCTF). Segundo o Taiwan Today, um workshop realizado em abril de 2026 na Guatemala, teve como foco a resiliência cibernética e a infraestrutura digital, oferecendo uma plataforma para o intercâmbio de experiências e a análise de riscos tecnológicos, desafios de segurança cibernética e cooperação regional.
O evento reuniu mais de 100 especialistas da Guatemala, Japão, Taiwan e Estados Unidos para discutir a proteção de sistemas governamentais e de infraestruturas digitais críticas. Desde sua criação em 2015, o GCTF funciona como um mecanismo internacional de compartilhamento de conhecimento técnico entre países parceiros.
O workshop ocorreu em meio a uma crescente preocupação com ameaças cibernéticas direcionadas a instituições governamentais da região. Em 2025, autoridades estadunidenses atribuíram o comprometimento dos sistemas do Ministério das Relações Exteriores da Guatemala a grupos vinculados à China. Posteriormente, as autoridades guatemaltecas esclareceram que a invasão estava relacionada a um incidente detectado originalmente em 2022. O caso evidenciou as possíveis consequências das operações cibernéticas estrangeiras e reforçou as preocupações quanto à proteção de informações governamentais confidenciais.
Uma vulnerabilidade que atravessa fronteiras
O caso guatemalteco demonstrou como uma vulnerabilidade digital pode ter implicações além das fronteiras nacionais, observou Juan Belikow, politólogo e especialista em segurança e crime organizado da Universidade de Buenos Aires, em entrevista ao Diálogo.
“Quem tiver acesso a essas redes, a essas informações, pode gerar vulnerabilidades no ciberespaço. Isso é bastante grave”, afirmou.
Ele alertou ainda que uma fragilidade na infraestrutura digital de um país pode representar riscos para os Estados vizinhos. “O surgimento de uma vulnerabilidade na Guatemala pode abrir caminho para outros países da região, inclusive aqueles que contam com níveis mais elevados de proteção tecnológica”, sustentou.
O especialista também destacou que os governos frequentemente enfrentam dificuldades para acompanhar a velocidade com que as ameaças tecnológicas evoluem. “A legislação está ainda mais atrasada do que a capacidade institucional para compreender esses problemas”, afirmou.
Soberania digital e segurança nacional
A expansão da infraestrutura digital também alimenta um debate mais amplo sobre soberania tecnológica e segurança nacional.
Para muitos governos, discussão vai além da tecnologia e se concentra em questões de confiança, transparência, controle de dados sensíveis e implicações de segurança de longo prazo decorrentes de dependências tecnológicas estratégicas, especialmente quando os países avaliam ecossistemas tecnológicos e infraestruturas digitais fornecidos por atores externos, como a China. À medida que os países analisam alternativas para expandir sua infraestrutura digital, especialistas em segurança cibernética destacam cada vez mais a importância de alianças confiáveis, sistemas interoperáveis e marcos regulatórios claros que reduzam a exposição à espionagem cibernética e às vulnerabilidades em redes críticas.
Belikow considera que muitos países da região ainda não incorporam plenamente esses desafios às suas estratégias de segurança.
“Há grande preocupação na região com essas questões”, afirmou, embora tenha alertado que “muitos países, pelo menos na região, ainda não consideram esse tema como parte da segurança nacional, ou não com a amplitude que deveria ter”.
Em sua avaliação, a discussão também envolve o papel das empresas que administram infraestrutura e serviços tecnológicos: “A discussão não é apenas sobre soberania entre Estados”, mas também uma questão relacionada à interação entre “o público e o privado”.
Para Belikow, a cooperação promovida por Taiwan e pelos Estados Unidos integra esforços mais amplos para fortalecer as capacidades digitais e a resiliência da região. “Os Estados Unidos deixaram bem claro que consideram a América Latina sua principal área de atenção”, afirmou.
Para os profissionais de segurança, defesa e ordem pública da América Latina e do Caribe, os casos do Paraguai e da Guatemala deixam uma lição cada vez mais relevante: a infraestrutura digital já é infraestrutura crítica, e sua proteção faz parte da defesa nacional.
Um centro de dados, uma rede governamental ou um sistema diplomático comprometidos não são questões meramente técnicas. Representam vulnerabilidades estratégicas capazes de expor informações sensíveis, interromper serviços essenciais e gerar riscos que transcendem as fronteiras nacionais.
Enquanto a legislação, a capacidade institucional e as capacidades de segurança cibernética continuarem aquém da velocidade das ameaças emergentes, a região permanecerá exposta. Incorporar a segurança cibernética, a resiliência digital e a soberania tecnológica ao centro das estratégias de segurança nacional – ao mesmo tempo em que se fortalece a cooperação com parceiros confiáveis – já não é uma exigência do futuro, mas uma necessidade operacional do presente.
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