Tabu do sexo após os 60 anos é tema de livro da jornalista Mariza Tavares

São Paulo – Falar de envelhecimento costuma vir acompanhado de termos como sabedoria, descanso e aposentadoria, mas raramente associamos a prazer, erotismo e vida sexual ativa. Para quebrar esse tabu, a jornalista e escritora Mariza Tavares lança o livro “60+: Prazer sem prazo de validade” (Editora Contexto).

Este é o 4º livro da autora: “60+: Prazer sem prazo de validade” – Divulgação

Como um guia de verbetes, a obra foi concebida para funcionar como uma ferramenta prática. O objetivo é incentivar as pessoas que andam desinteressadas a resgatarem a vida íntima, garantirem mais prazer e oferecerem aos curiosos uma visão sem preconceitos sobre o tema.

Com sensibilidade, escuta atenta e embasamento técnico, a autora reuniu histórias reais e dados que provam que a sexualidade não acaba aos 60 anos, ela apenas se transforma. Escrita no formato de guia com verbetes organizados de A a Z, a obra adota uma linguagem simples e não linear, permitindo que o leitor consulte os temas que mais lhe interessam.

Mariza Tavares, criadora do blog “Longevidade: modo de usar”, e ex-diretora-executiva da Rádio CBN, destaca os avanços da sociedade ao discutir o etarismo no mercado de trabalho ou na cultura, mas avalia que o grande bloqueio ainda é o sexo.

Quando chega na porta do quarto, vem o silêncio. Foi quando eu comecei a pensar em criar esse livro.”

Etarismo e a invisibilização do corpo maduro

Mariza Tavares avalia que a vida sexual dos mais velhos gera incômodo devido ao culto à juventude. À medida que as pessoas envelhecem, a cultura dominante passa a tratar seus corpos como se fossem descartáveis ou desprovidos de atrativo e função erótica.

As mulheres são as primeiras a sofrer as consequências desse preconceito com o surgimento da menopausa, momento em que a sociedade costuma erguer um “dedo em riste” para excluí-las do imaginário estético e profissional.

No entanto, a escritora lembra que a atual geração de sexagenários é diferente das anteriores, trata-se de um grupo de pessoas empoderadas, que fez muito sexo ao longo da vida, conhece bem o seu corpo e rejeita o papel de descartável.

Ainda assim, a pressão social é pesada. Quando a pessoa idosa interioriza a ideia de que foi descartada do jogo amoroso, o resultado é o abandono do próprio corpo, as pessoas deixam de se olhar e de se tocar. Além disso, mesmo quem continua ativo e com uma vida sexual vibrante muitas vezes prefere manter o assunto no anonimato por medo do julgamento alheio, diz ela.

Silêncio nos consultórios

Um dos obstáculos mais graves para a saúde sexual na maturidade é a postura da própria comunidade médica, que frequentemente atua como um agente de abafamento do tema. Muitos profissionais partem do princípio preconceituoso de que pacientes de 60 ou 70 anos não têm mais vida íntima e simplesmente evitam abordar o assunto nas consultas.

Jornalista e escritora Mariza Tavares
Jornalista e escritora Mariza Tavares critica a postura de médicos que ignoram vida sexual dos 60+ – Divulgação

Essa realidade vem de relatos que a autora recebeu, como o de uma mulher de 64 anos, sexualmente ativa com o marido, teve o pedido de exame Papanicolau negligenciado pelo médico por ele achar que ela não fazia sexo. Em outro caso, uma mulher recém-separada aos 50 anos procurou o ginecologista para saber sobre prevenção contra o HPV e recebeu como resposta: “Sossega, minha filha”.

A autora adverte que essa falta de diálogo tem consequências sérias. Sem orientação profissional, idosos esclarecidos frequentemente recorrem ao improviso e acabam praticando sexo de risco. A jornalista reforça que a saúde sexual deve ser acompanhada com a mesma naturalidade que a pressão arterial ou o colesterol, pois influencia diretamente a saúde física e mental.

Um dos alertas mais urgentes da autora é o aumento de mais de 60% nas Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) entre a população idosa. A combinação da falta de informação com a dinâmica do ato sexual explica o índice: homens maduros que usam medicamentos para ereção frequentemente evitam a camisinha por receio de perder o rendimento ou a sensibilidade, enquanto muitas mulheres aceitam a relação sem proteção por acreditarem que não correm mais o risco de engravidar.

Soluções eficazes como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV) e a vacinação contra o HPV continuam sendo negligenciadas por essa faixa etária e pouco abordadas nos consultórios médicos.

A geração baby boomer, que viveu a juventude de forma vibrante, recusa-se a envelhecer como seus pais ou avós e deseja manter seus gostos, como viajar, tomar um bom vinho e ter vida afetiva.

No entanto, o preconceito surge até mesmo dentro de casa: muitos filhos infantilizam os pais idosos, tratam a sexualidade da maturidade com tabu e alimentam a ilusão de que os pais só transavam para procriar”, afirma.

Isso pode evoluir para a invalidação das escolhas dos mais velhos, como achar que qualquer novo parceiro de um pai ou mãe viúvos de 70 anos é interesseiro, limitando sua plenitude e autonomia quando não há nenhum declínio cognitivo.

Busca pelo próprio prazer

No caso das mulheres, as alterações hormonais da menopausa trazem desafios físicos. Defensora convicta da reposição hormonal quando há indicação médica, Mariza compartilha que fez o tratamento por 12 anos e afirma que ele foi a diferença entre “passar pela menopausa descendo de paraquedas ou caindo em queda livre e se esborrachando no chão”.

Entretanto, para além da biologia, a questão cultural tem um peso enorme. A escritora ressalta que as mulheres da sua geração foram criadas dentro de uma lógica machista em que ser boa de cama era um elogio focado em servir ao prazer do outro, ignorando a própria satisfação.

Após a menopausa ou o término de casamentos longos, muitas decidem não buscar novos parceiros. Em vez de se submeterem a dinâmicas ultrapassadas, elas passam a priorizar o próprio prazer por meio do autoconhecimento e da adesão aos brinquedos eróticos, um mercado que cresce significativamente entre o público feminino maduro.

Mito da penetração

Entre os homens, a disfunção erétil torna-se uma realidade comum a partir dos 50 anos. O grande desafio, segundo Mariza, é que a maioria ainda condiciona o ato sexual exclusivamente à penetração. Diante das dificuldades de ereção, muitos homens entram em pânico e recorrem a todo o arsenal medicinal disponível para manter o desempenho, perdendo a oportunidade de explorar outras formas de intimidade, afeto e carinho.

Nesse cenário, a autora avalia que as mulheres que se abrem para novas descobertas corporais acabam encontrando mais liberdade e felicidade. Ainda assim, tanto para solteiros quanto para casais longevos, o ingrediente fundamental é a conversa franca.

Em relacionamentos de longa data, em que o sexo acaba sendo substituído por uma sessão de filmes ou um sorvoete, terapeutas sugerem inclusive agendar encontros eróticos, trocando mensagens instigantes ao longo do dia para reacender o interesse mútuo.

A autora desconstrói a ideia romantizada de que o sexo na juventude era melhor. Embora a frequência aos 20 anos pudesse ser maior, o sexo na maturidade ganha em qualidade.

“Quando eu escrevi o livro sobre menopausa, a coisa que eu mais ouvia das mulheres era: ‘Agora eu conheço muito melhor o meu corpo, eu sei como me dar prazer, passei algumas décadas tateando’. A gente podia ter até volume, mas, com quase uma dose de certeza, eu diria que não era tão bom assim. Podia ser frenético, mas talvez não fosse tão bom.”

Pressão estética

Marisa também faz uma distinção clara entre tratamentos funcionais e a perigosa pressão estética. Enquanto intervenções médicas como a remodelação vaginal trazem alívio real para problemas decorrentes do declínio hormonal, como a dor causada pela síndrome genitourinária.

Procedimentos puramente estéticos na vulva, como o rejuvenescimento íntimo com ácido hialurônico, representam uma nova armadilha comercial para as mulheres. De acordo com ela, entidades da ginecologia alertam que esses procedimentos não melhoram a vida sexual nem garantem orgasmo.

A autora lembra que as vulvas vêm em todos os tamanhos, cores e formatos, e convida as mulheres a abandonarem as velhas neuras com o próprio corpo, que só geram ansiedade no sexo, enquanto os homens se preocupam bem menos com a aparência e focam apenas no prazer.

Independente da idade, o conselho da autora é amar o corpo, se exercitar, fugir de padrões extremistas como a anorexia, que destrói a libido, e cuidar bem da saúde.

Afinal, sexo não é para morrer antes da gente, mas para nos acompanhar até o fim da vida, e embora possamos trocar de carro, nunca poderemos trocar de corpo.”

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