São Paulo – O Brasil conta hoje com oito nomes entre as pessoas mais velhas do mundo, segundo a organização internacional de longevidade LongeviQuest. Entre elas, está Beatriz Ferreira Duarte. A pernambucana, que completou 115 anos no último mês, nasceu em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. Além dela, apenas outras quatro pessoas alcançaram essa idade.
Em 21 de junho, Beatriz celebrou seu aniversário cercada por familiares e amigos. A família atualmente é formada por três filhos vivos, de um total de oito nascidos, sete netos, 12 bisnetos e dois tataranetos. Com a nova idade, Beatriz passa a ser considerada a segunda pessoa mais velha do Brasil, atrás apenas da alagoana Yolanda Beltrão de Azevedo. A pernambucana também é a sexta pessoa mais velha do mundo, de acordo com a LongeviQuest.
Ao VIVA, a filha Dulce Duarte, de 80 anos, compartilhou como são os cuidados com a mãe centenária. “A rotina da minha mãe quem faz é ela mesma. Quando ela está de bom humor, faz todas as refeições na hora certa. Ela só come tudo liquidificado”, conta. Sexta filha de Beatriz, Dulce voltou a viver com a mãe após a morte do pai, Amaro Cipriano Duarte, há 36 anos.
Com relação à alimentação, Dulce comenta que não inclui nenhum industrializado nas refeições da mãe. “Ela nunca gostou de tomar refrigerante, nunca fumou e nunca bebeu”, acrescenta. Apesar de ter perdido a lucidez a partir dos 107 anos, Beatriz também não faz uso frequente de medicamentos, conforme a filha.
Só chamo a geriatra quando ela gripa ou noto alguma secreção, porque minha mãe não sente nada. Ela tem uma saúde de ferro.”
De acordo com o Panorama do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 37.814 pessoas com mais de 100 anos. Envelhecer de forma saudável, no entanto, nem sempre é a regra. Conforme a coordenadora do Ambulatório de Metabolismo e Longevidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a geriatra Maysa Seabra Cendoroglo, a longevidade é acompanhada pela maior probabilidade de aparecimento de doenças.
Em centenários, ela é resultado da combinação entre uma história de saúde benéfica, um estilo de vida saudável e uma genética favorável. “Esses aspectos interagem com o meio ambiente e a independência e a autonomia podem ser preservadas em maior ou menor grau, a depender dessas interações”, explica a pesquisadora. Para ela, quanto mais idoso, mais individualizada é essa experiência.
Quais fatores que afetam os centenários?
Entre os fatores que têm maior impacto em centenários e supercentenários — termo utilizado para pessoas que atingem ou ultrapassam os 110 anos —, a coordenadora destaca o comprometimento sensorial visual e auditivo, o comprometimento muscular e articular e o comprometimento cognitivo. Nesse grupo, ela alerta que as doenças cardiovasculares, neoplasias e doenças infecciosas também são as principais causas de mortalidade.
No cuidado com os idosos, Cendoroglo destaca ser necessário combater não apenas o etarismo praticado por outras pessoas, mas também o autodirigido.
Esse tipo de etarismo faz com que o próprio idoso acredite que não há solução para suas dificuldades e que a evolução dos problemas é inevitável, o que pode levar a desfechos negativos que, muitas vezes, poderiam ser prevenidos”, afirma Cendoroglo.
Por outro lado, diz ela, os idosos apresentam um organismo com reduzida reserva fisiológica, por isso não devem ter seus sintomas ou limitações subestimados. “As disfunções devem ser identificadas e tratadas o mais precocemente possível, pois esse organismo tolera menos as adversidades e tem menor capacidade de recuperação diante de doenças ou situações de estresse”, afirma.
A coordenadora acrescenta que embora centenários tenham uma expectativa reduzida, medidas preventivas como vacinação regular e estímulos físicos e cognitivos são importantes para a saúde dessas pessoas. Conforme o Censo Demográfico, a maioria das pessoas com mais de 100 anos é mulher (72,04%), o que Cendoroglo avalia como um fenômeno universal, observado tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento.
Mulheres tem mais doenças crônicas
“Embora as mulheres vivam mais, elas tendem a apresentar maior frequência de doenças crônicas e limitações funcionais”, analisa. Essa vantagem na sobrevida resulta da interação de diversos fatores. Entre eles, diferenças biológicas, como os efeitos protetores dos hormônios femininos sobre o sistema cardiovascular e o metabolismo durante grande parte da vida, fatores genéticos e imunológicos, que tornam as mulheres mais resistentes a infecções, e elementos comportamentais.
“As mulheres fumam menos, procuram mais os serviços de saúde, aderem melhor aos tratamentos e adotam hábitos preventivos com maior frequência”, continua.
Entre os fatores que contribuem para uma longevidade favorável, Cendoroglo destaca a interação social e familiar, a realização de atividades de estimulação cognitiva, o controle do estresse e a adoção de práticas que estimulem a espiritualidade.
Além disso, ela recomenda manter-se movimento, adotar uma alimentação equilibrada com adequada oferta de proteínas, cálcio, vitaminas e fibras, manter a vacinação em dia e realizar o controle adequado das doenças crônicas.
(Por Francyelle Barbosa, especial para o VIVA)
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