São Tomé e Príncipe: paróquias em missão – Semanário da Diocese do Porto


A Casa Fiz do Mundo – São Tomé é um grupo missionário paroquial, das paróquias de Carregosa, Chave e Vila Cova de Perrinho, na vigararia de Arouca/Vale de Cambra. Desde 2007 presta apoio social e caritativo em São Tomé e Príncipe, mais concretamente na cidade de Neves, sempre em estreita colaboração com as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Este ano estiveram em missão durante um mês e deixamos aqui os seus testemunhos de Trabalho.

As reuniões de preparação iniciaram-se em Outubro de 2025, e ao longo de mais de 9 meses o grupo foi-se conhecendo e construindo caminho para os trabalhos em São Tomé. As campanhas de angariação de verbas para a requalificação de uma escola, para o contentor, projeto M, sensibilizações em escolas e catequese, participação em encontros missionários, e outras atividades foram apenas a ferramentas para a construção de laços familiares, de amizades fortes e resistentes às dificuldades e provações em São Tomé.

Partimos a 14 de junho e a data de regresso seria apenas a 12 de Agosto. Digo apenas porque um mês fora de casa é muito tempo mas que se transformam num período muito curto.

As nossas rotinas diárias passavam por muita oração e trabalho, “Ora et labora” como diz a regra beneditina: oração, contemplação e vida espiritual, trabalho, responsabilidade e serviço. Laudes, vésperas diárias e eucaristias aos fins de semana.

Durante a nossa estadia em São Tomé, realizamos formações para professores e educadores na escola Senhora das Neves, ATL´s, catequeses, visitas a roças, ensaios no grupo coral, formação de leitores, receber o contentor e outros trabalhos pontuais.

Escola de Ponta Figo

A requalificação da escola de Ponta Figo foi uma das nossas preocupações, porque queríamos muito ver a obra a iniciar. A obra tinha um orçamento de 11.000€, mas algumas alterações, extremamente necessárias, e a escalada dos preços dos materiais fizeram disparar o custo da obra para mais de 16.000€. Vimos as vedações a ser colocadas, muros erguidos e portão aplicado. Ficou apenas por fazer a pintura da escola, o cimentar dos acessos às salas e a montagem do parque infantil. Trabalhos que sabemos que continuam a bom ritmo coordenados pela irmã Lúcia e o Sr. Gualter, o empreiteiro responsável. O apoio dos escuteiros está também a ser fundamental.

Com muito esforço conseguimos deixar verba suficiente para pagar toda a obra, mas nos próximos meses teremos de continuar as campanhas para colmatar esta diferença orçamental.

O contentor

Quando saímos de Portugal já sabíamos do atraso na partida do barco, mas à nossa chegada soubemos que as lanchas de apoio ao transfere dos contentores estavam avariadas. Estávamos já convencidos que este ano não iriamos estar presentes no dia da saída do contentor mas tudo se compôs. Descarregamos o contentor a 6 de Agosto e ainda conseguimos entregar o portão ao empreiteiro para o colocar no trilho lá em Ponta Figo. Tudo chegou direitinho, tudo foi entregue às irmãs. Os armazéns estavam vazios e as aulas já se iniciam em setembro. São 2.500 crianças para alimentar diariamente. Este contentor é o garante de 4 meses sem faltar arroz.

ATL em Arribana

Arribana é uma aldeia um pouco afastada da cidade de Neves. É preciso percorrer um caminho pelo mato até chegar à estrada mais próxima e, mesmo aí, continuar a descer um pouco mais até encontrar o primeiro comércio, e, por comércio, entenda-se uma zona com algumas pessoas a vender na rua. É este o caminho que adultos e crianças têm de percorrer para ter acesso àquilo de que precisam.

Na aldeia encontramos essencialmente as casas e uma pequena escola, com uma única sala e um recreio. Não há praticamente barulho para além das crianças e dos pássaros no meio da natureza.

As casas são de madeira, sem água canalizada e muitas delas sem eletricidade. Quando precisam de água, descem ao rio. As crianças brincam descalças e os brinquedos fazem-se com um pouco daquilo que a natureza oferece e com materiais e objetos que vão chegando da cidade.

Estas crianças brincam muito, mas também assumem responsabilidades desde muito cedo: lavam roupa, vão buscar água, ajudam na roça e algumas chegam a faltar às aulas para ajudar nos trabalhos da família. Quando há uma ferida, o kit de primeiros socorros é o chamado “incha, desincha e passa”.

E foi a este lugar que chegámos com uma mochila com lápis, cadernos e duas bolas.

Durante três semanas, todas as tardes, cerca de 30 crianças esperavam por nós na escola. Num primeiro grupo ficavam as crianças que ainda não sabiam ler e escrever, com quem trabalhávamos sobretudo através do desenho, recorte, colagem e outras atividades manuais. Construímos cubos, fizemos origamis de cãezinhos e pedimos-lhes que desenhassem aquilo que consideravam mais importante nas suas vidas.

Foi através desses desenhos que percebemos que, na maioria das vezes, o mais importante era a família. Muitos desenharam-nos também a nós e deixaram-nos mensagens de carinho e gratidão, mostrando o quanto valorizaram o tempo, a atenção e o afeto que partilhámos com eles.

Com as crianças que já sabiam ler e escrever, trabalhámos sobretudo Português e Matemática. Levámos de Portugal manuais e exercícios de diferentes níveis e, nos primeiros dias, fomos percebendo até onde podíamos ir com cada grupo. Encontrámos crianças mais velhas que ainda apresentavam dificuldades significativas na leitura e na escrita, e percebemos rapidamente que o grau de dificuldade dos exercícios tinha de ser adaptado à realidade que encontrámos.

Fizemos leitura em voz alta, cópias, ditados (provavelmente uma das atividades de que mais gostavam), interpretação de textos e escrita de cartas. Na Matemática trabalhámos números, contas, tabuadas, problemas e alguns exercícios de geometria. Cada criança fazia os seus exercícios individualmente e nós circulávamos pelas mesas, corrigindo e ajudando sempre que surgiam dificuldades.

Tínhamos ainda um terceiro grupo, normalmente formado pelas crianças mais irrequietas ou por aquelas que iam alternando com os outros dois grupos. Aqui, o objetivo era sobretudo brincar. No recreio jogámos futebol, basquetebol, cabra-cega, jogo do lencinho e jogo da raposa.

E esta parte tornou-se tão importante quanto as restantes. Eles pediam-nos constantemente para brincarmos com eles e, sempre que possível, terminávamos a tarde todos juntos no recreio. Era nesse tempo, muitas vezes, que conseguíamos estar mais próximos deles, conversar e conhecê-los para além dos exercícios que fazíamos dentro da sala.

Ao longo destas semanas, acabámos também por desempenhar um papel que não tínhamos necessariamente previsto. Fomos tratando pequenas feridas que apareciam e percebemos que praticamente não existiam materiais de primeiros socorros. Um dos meninos, por exemplo, chegou com um golpe bastante grande que tinha feito com uma catana enquanto ajudava na roça. No final, deixámos na escola material de primeiros socorros, juntamente com alguns dos materiais utilizados nas atividades, jogos, trabalhos de colagem e bolas, para que pudessem continuar a utilizá-los depois da nossa partida.

No último dia quisemos deixar também uma marca nossa na própria escola e, ao mesmo tempo, criar uma última memória em conjunto: pintámos com as crianças um mural, encerrando assim as nossas atividades.

Mas, no meio de tudo aquilo que ensinámos, fomos sobretudo conhecendo cada um deles.

Conhecemos crianças que nos disseram que um dia querem ser pilotos, enfermeiros, professores, pintores ou jogadores de andebol. E talvez tenha sido essa uma das partes mais importantes do nosso trabalho. Mais do que aquilo que conseguíamos ensinar em cada exercício, quisemos alimentar a curiosidade, a vontade de aprender e a ideia de que existem diferentes possibilidades para o seu futuro.

Criámos também laços. Hoje trazemo-los na memória e com o coração apertado de saudades, mas temos a certeza de que também ficámos, de alguma forma, na memória deles. Percebemos isso logo no primeiro dia, quando um dos meninos, o Henrique, perguntou por uma das voluntárias que tinha estado em Arribana dois anos antes.

Três semanas são pouco tempo perante tudo o que há por fazer, mas são tempo suficiente para deixar sementes. Sementes de curiosidade, de esperança, de aprendizagem e, talvez, da consciência de que existem outras realidades e outras possibilidades.

Não conseguimos mudar a realidade de Arribana em três semanas, mas podemos criar impacto na vida de quem lá vive e, talvez, ajudar uma criança a imaginar que a sua realidade pode ser diferente

ATL em Ponta Figo

Durante três semanas, tivemos a oportunidade de dinamizar atividades de ATL na Escola de Ponta Figo, em São Tomé, com crianças dos 6 aos 14 anos.

Foram tardes de aprendizagem, brincadeira e muita partilha, com atividades de português, matemática, inglês, música e artes plásticas, sempre com o objetivo de trocar conhecimento de forma leve e divertida.

Esta experiência teve ainda um significado muito especial por acontecer numa escola tão querida pelo projeto e cujo futuro nos entusiasma tanto. Enquanto lá estivemos, vimos começar as obras de requalificação que ajudámos a tornar possíveis através da campanha dos Lápis Solidários.

Mais do que aquilo que pudemos ensinar, trouxemos connosco tudo aquilo que aprendemos. Aprendemos que com pouco se pode fazer muito, que a criatividade não depende dos recursos que temos e que estas crianças são verdadeiras mestres da multiplicação: multiplicam o pouco que têm em brincadeiras, sorrisos e aprendizagens.

Viemos embora com muitas saudades e com a certeza de que, apesar de termos dado um pouco de nós, recebemos muito mais. E, no meio da saudade, trouxemos também algum alento: saber que as obras já começaram é acreditar que estamos a contribuir, pouco a pouco, para um futuro com mais oportunidades para estas crianças.

ATL em Neves

Um mês em São Tomé e tanto ainda por viver e descobrir…

Já passou algum tempo desde o regresso e ainda assim, sintimos que há tanto para assimilar, tantas memórias para organizar e tantas emoções que continuam bem presentes.

 

Durante as duas primeiras semanas vivemos São Tomé em modo “leve, leve”. Fizemos ATL na Escola Mãe Clara. Foi ali que abraçamos esta missão e começámos a construir algumas das memórias mais bonitas desta experiência.

Todas as manhãs, às 8h, o portão da escola já estava aberto e, pouco a pouco, as crianças iam chegando. Algumas vinham sozinhas, outras acompanhadas pelos familiares e outras eram deixadas pelas mães, que seguiam depois para a formação, também integrada nos nossos trabalhos.

A diversidade de idades tornava cada dia ainda mais especial. Tivemos connosco crianças de poucos meses, crianças em idade escolar e adolescentes até aos 14 anos. Tão diferentes entre si, mas todas com algo em comum: uma enorme capacidade de nos ensinar, de nos fazer sorrir e de nos tocar o coração.

Foram duas semanas de brincadeiras, aprendizagens, abraços, gargalhadas e desafios. Duas semanas em que percebemos que, muitas vezes, não é preciso muito para fazer uma criança feliz. Basta estar presente, brincar, ouvir, dar atenção e, acima de tudo, dar amor.

E talvez seja essa uma das maiores aprendizagens desta missão: quando partimos com a intenção de dar, acabamos por regressar com muito mais do que aquilo que alguma vez imaginámos receber.

São Tomé ficou para trás, mas esta missão continua dentro de nós. Nas memórias, nos rostos, nos abraços e, sobretudo, no coração.

Formações de professores e educadores

Estar em missão é estar ao serviço e, neste caso, é responder às necessidades, às solicitações da Irmã Lúcia. Na reunião preparatória em março, em Fátima, a Irmã pediu-nos formação para os educadores de infância em Neves, e catequese em Santa Catarina para preparar crianças para a primeira comunhão e batismo.

E assim, aconteceu! Durante duas semanas, teve lugar a formação de educadores, dividida por duas turmas, das oito e trinta às dez horas da manhã e, depois, das dez e um quarto às onze e quarentena e cinco minutos. Também se juntaram às educadoras das irmãs, as de Ribeira Afonso, que dista cerca de 50km de Neves. Para além de algumas dinâmicas, também a pedido da Irmã Lúcia, a formação centrou-se, sobretudo, na elaboração de atas e de relatórios. Essencialmente prática, a formação permitirá aos educadores uma melhor elaboração e organização de documentos oficiais. É mais um passo na valorização destes profissionais da educação e do próprio sistema de ensino. A formação terminou com a habitual entrega de diplomas assim como com a apresentação de dois momentos de dança, por cada uma das turmas, respetivamente, e com um almoço partilhado (preparado pelas formandas). Saímos de alma cheia, com pena de tudo ter passado tão rápido.

Catequeses

Já quanto à catequese, em Santa Catarina, também decorreu durante duas semanas com crianças que, na maioria delas, irão fazer o batismo juntamente com a primeira comunhão já em setembro. Tínhamo-nos que deslocar até Santa Catarina, aproveitando boleia do carro que, diariamente, distribuía alimentação aos idosos. Para além de ser uma viagem de uma beleza única, passando-se pelo famoso túnel de Santa Catarina, do contacto com os idosos que recebem o termo com a alimentação, junta-se a alegria de sermos recebidas por rostos matreiros e sorridentes à porta da igreja. As sessões começavam sempre com uma oração, seguida do tema sobre os sacramentos, e para terminar com a oração final. Antes de nos despedirmos, ainda havia tempo para se cantar uma canção, momento muito especial. Mais uma vez, foi um privilégio para nós termos uma nova oportunidade de viver momentos tão especiais e marcantes.

Em Neves, a catequese foi direcionada para os jovens que fizeram o crisma este ano e o objetivo passou por, durante duas semanas, ler e estudar a bíblia. “Vinde e Vede” foi o lema desta caminhada. Levantaram-se as questões: o que eu quero de Ti?; O que queres de mim?; Como precisas de mim?; e trabalharam-se as respostas nos mais diversos evangelhos. Também houve tempo para falar de São Francisco de Assis, aproveitando o arranque do jubileu dos 800 anos da sua morte.

(inf: António Rebelo da Costa)


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