Rui Santos partilha as emoções de regressar ao terreno, compara o jornalismo de ontem com o de hoje, analisa o Mundial de Portugal, presta homenagem a Cristiano Ronaldo e deixa uma reflexão sobre a mentalidade, a liderança e os desafios que continuam a marcar o futebol português
A minha experiência no Mundial, a acompanhar Portugal neste campeonato do mundo, deixa-me um misto de sensações, na triangulação que fiz entre Miami, Houston e Dallas, com uma paragem curta em Filadélfia.
Quem me acompanha sabe que estive em permanência 26 anos no terreno e, nesse período, em que aprendi tudo sobre jornalismo, antes de entrar no mundo da televisão, onde já vou completar 24 na área da opinião, foram muito frequentes as deslocações ao estrangeiro, quer no espaço europeu quer através de viagens intercontinentais, como aconteceu agora, numa operação em que participei, em equipa, com muito gosto.
Os tempos mudaram muito e senti isso particularmente nesta aventura norte-americana, porque quando o meu papel se resumia à imprensa escrita, eu comecei por acompanhar as seleções de jovens ainda antes da “saga Queiroz”, tão importante para a mudança da mentalidade do jogador português, e nessa altura — no começo de tudo — cheguei a acompanhar os sub-18 e os sub-16, porque nesses anos os jornais desportivos só passaram a acompanhar as seleções de sub-16 e sub-18 e, mais tarde, de sub-17 e sub-19/20, depois de A Bola o fazer.
No total, 15 campeonatos da Europa e do mundo em todas as categorias dão-me uma visão daquilo que é futebol e ajudam-me muito a perceber o fenómeno — e sem medo das palavras, o que torna mais difícil numa industria de milhões, que movimenta muitos poderes.
Eu tinha um interesse muito genuíno no futebol jovem, porque achava que era aí que tudo começava e possuía uma ideia muito teimosa sobre aquilo que entendia serem as principais necessidades do futebol português, e ainda hoje falo muito daquilo que às vezes atraiçoa o talento natural dos nossos futebolistas e que se expressa numa mentalidade competitiva mais militante, praticamente inexistente naqueles primórdios e que ainda hoje também falha, noutro contexto de apoios e condições que os jovens atletas não possuíam quando resumiam praticamente a sua preparação aos campos de treino no Jamor, na periferia do Estádio Nacional.
Foram anos fundamentais de aprendizagem e de contacto com jogadores, treinadores, dirigentes e as primeiras deslocações ao estrangeiro deram para compreender como estávamos atrasados em mentalidade, em preparação e em infraestruturas. O talento estava lá, era possível identificá-lo, mas faltava tudo o resto e passei anos a falar da necessidade de haver academias (pelo que via lá fora) e da urgência de se construir uma Casa das Seleções. O processo foi demorado e só em 2016, cerca de 30 anos depois de se chamar a atenção para a sua importância, nasceu a Cidade do Futebol, que deu uma ideia de modernização mais de acordo com aquilo que víamos principalmente em muitos clubes europeus que se dedicavam também à formação.
A minha experiência no terreno permitiu-se estar muito perto da realidade e, nessa altura, o contacto era direto, não se cingia às conferências de imprensa e era possível gerir reportagens e entrevistas sem esta coisa, se calhar necessária mas medonha, de tudo ser filtrado e barrado pelos assessores de comunicação. Havia uma dificuldade que hoje não existe, nós, jornalistas, enviados especiais, precisávamos de contar não apenas com o tempo de escrita, em função do trabalho recolhido, mas sobretudo com o tempo para enviar o serviço e na altura a própria Europa estava dividida em dois blocos e quando as deslocações eram para o Leste conseguir uma chamada telefónica para Portugal era, às vezes, uma coisa do arco-da-velha.
Eu hoje vejo os jornalistas mais jovens a fazer as suas reportagens, muito em função daquilo que são os condicionalismos impostos pelos clubes e pelas federações, não há liberdade criativa porque o sistema é assim e não há vontade de o mudar, porque deste modo tudo fica mais controlado, e, por isso, hoje os jornais e as televisões, nestes momentos de acompanhamento de grandes competições, repetem-se muito, as câmaras para os diretos estão colocadas e alinhadas nos mesmos locais e, depois, é uma questão de ritmo, de um olhar mais cirúrgico sobre as mesmas realidades e quem detém os direitos de transmissão faz a diferença, através do simples facto de ter acesso à parte mais importante do espetáculo, que é o jogo, particularmente quando estamos a falar de grandes competições como Mundiais e Europeus e também, a nível de clubes, quando falamos da Liga dos Campeões.
Nos últimos anos, depois de ter estado no terreno anos a fio, habituei-me sobretudo ao ambiente de estúdio a tentar analisar o fenómeno futebolístico em todas as suas vertentes e deparam-se-me várias correntes, transformadas por aqueles que, mais confortavelmente, se resumem apenas a análises da coisa tática e se recusam a aprofundar as entropias do sistema, cada vez mais à vista depois do processo de industrialização do futebol, com a sua corrida desenfreada a tudo o que se transforma em dinheiro, e também por aqueles que, em regime de debate (quanto mais aceso… melhor), dão expressão à massificação dessa forma de debate em combate, que é algo — permitam-me a confissão — para o qual já não tenho a mínima paciência.
Por isso, este regresso ao terreno, através da CNN e da TVI, onde já voltara a fazer comentários aos jogos da Champions e até deste Mundial, como aliás já tinha acontecido noutra estação, na Liga Europa e na Taça da Liga, a fazer comentários dos respetivos jogos em direto, este regresso ao terreno, dizia, nos Estados Unidos, permitiu-me tomar contacto com uma realidade que já conhecia mas que ganhou uma nova dimensão, porque me permitiu reviver, com as devidas distâncias marcadas por contextos diferentes, os tempos em que estava no terreno, integrado em equipas de reportagem que fazem os possíveis e os impossíveis para nada falharem, numa dinâmica concorrencial que — vi agora — muito cordial e respeitosa entre todos.
Acresce que esta experiência foi marcada pela contingência dos fusos horários entre 5 a 6 horas de diferença, o que fazia com que, grosso modo, quando eram 13 horas em Portugal estava o dia a nascer no México, no Canadá ou nos Estados Unidos. E por isso (não querendo focar-me no meu caso) dou os parabéns a todos os meus colegas que estiveram ou ainda estão nesta operação, agora já sem Portugal, com privação de sono e adaptação a ambientes diferentes, numa experiência que muitos deveriam conhecer, porque haverá gente a pensar que os jornalistas andam em passeio quando o que está em causa é muito trabalho, montar e desmontar o material e fazer isso várias vezes ao dia, em sítios diferentes e numa corrida desenfreada.
Perdoem-me, mas sabendo que são ossos do ofício eu tinha de dizer isso, porque os momentos de descanso e lazer são muito poucos e o trabalho não dá tréguas, em condições às vezes muito difíceis.
Voltando à minha experiência texana neste Mundial, por causa dos jogos com o Uzbequistão, em Houston, e com a Espanha, em Dallas, comentar fora do conforto do estúdio, integrado numa equipa excelente, foi algo que, confesso, me deu saúde. Estar preparado para tudo o que fosse necessário, entrar nos diretos às horas que tivesse de ser considerando os fusos horários, com muito poucas horas de sono, constituiu um desafio que obviamente não vou esquecer — e havia a expectativa de rumarmos a Los Angeles, se Portugal tivesse eliminado a Espanha.
Não vi com os meus olhos a extraordinária presença de portugueses e não portugueses em Toronto, expressando a dimensão máxima da “ronaldomania”, mas sem o mesmo impacto quantitativo vi coisas em Miami e sobretudo em Houston e Dallas, em redor do poder de atração de Cristiano Ronaldo, que é impossível não guardar para sempre nas nossas memórias.
Im-pre-ssio-nan-te!
Milhares ou centenas de pessoas de imensas nacionalidades, debaixo de um sol abrasador, horas e horas a fio de pé, apenas para verem Cristiano Ronaldo, para gritarem pelo nome dele, para acenarem ou… simplesmente para não o conseguirem ver, mas estar o mais perto possível dele.
Não há outro caso semelhante no mundo com tamanho impacto mediático, jovens, crianças, pessoas mais velhas, com camisolas de Portugal vestidas, em 99% dos casos com o nome de C. Ronaldo nas costas — e isso nunca mais vamos ter, Portugal sem Ronaldo vai ser uma seleção igual às outras no tratamento que lhe vai ser dispensado, e muita gente vai ter saudades disso, até aqueles que acham que o “capitão” já devia ter dado há muito o lugar a outro.
É um fenómeno à escala mundial que devia orgulhar os portugueses, mas infelizmente nem todos são capazes de fazer aquilo que os argentinos fazem com Messi. Endeusam-no e levam-no ao colo.
Cristiano Ronaldo não deve ser imune a críticas e concorrer para que Portugal seja um todo, mas o apelo devia ser nos dois sentidos, e muita gente absolve quem tem pouco rendimento (com menos idade), tratando Ronaldo como se ele fosse o principal culpado de ter conquistado um “estatuto” único no mundo e que derivou da sua enorme capacidade futebolística, algo que muitos ignoram deliberadamente. A sua afirmação não foi um favor, não resultou de uma dinâmica de apadrinhamento tão utilizada em Portugal; resultou de paixão, devoção, trabalho e de nunca desistir de tentar sempre fazer o melhor, principalmente por Portugal.
Já se sabia que este iria ser o último Mundial para Cristiano Ronaldo e, por isso, não era preciso a irmã Kátia confirmá-lo antes de o próprio Cristiano o fazer, depois da eliminação imposta pela Espanha, e, por ser o último, lancei um movimento a favor da consagração de Ronaldo neste Mundial, o que não obrigaria nem à sua titularidade plena, ao invés, seria desejável uma gestão desportiva até para o proteger. A sensação que se colheu é que ninguém se importou com isso e cada qual pensou em si, esquecendo-se de uma coisa importante: é que houve um tempo em que os jogadores até eram excessivos na forma como se referiam a C. Ronaldo, talvez porque nessa altura sentissem que precisavam mais dele do que neste momento, também em função evidentemente dos seus méritos.
Cristiano poderia ter sido poupado nalguns jogos e poder dar entrada a Gonçalo Ramos mais vezes? Sim, essa gestão poderia ter sido feita, se todas as partes tivessem discutido isso na altura certa. Pelos vistos, ninguém ousou fazê-lo e Roberto Martínez sempre fugiu como o diabo da cruz de confrontos desta natureza.
Neste meu Mundial, tive um contacto esporádico com Martínez, em pleno relvado, antes do jogo com o Uzbequistão que a TVI transmitiu, colocando-lhe uma pergunta que ele respondeu com elegância e educação e poderia, até, não o querer fazer ou fugir dela, porque uns dias antes eu tinha defendido a ideia de que, após o empate com a RD Congo, um novo desaire similar, a seguir, deveria corresponder à sua substituição, e alvitrei até o nome de Jorge Jesus, que deveria estar “reservado” para que, nesse cenário, ainda pudesse salvar a presença de Portugal neste Campeonato do Mundo.
O que eu vi foi um Martínez bloqueado nas suas decisões. Um Martínez condicionado pela matriz que caracteriza esta Seleção. Não é apenas o efeito e a presença de Cristiano Ronaldo. Foi também saber que no projecto de Pedro Proença o seu nome estava a prazo.
O que eu vi, neste Mundial, para além da imponência dos edifícios de Dallas, foi o choque dos sem-abrigo a dormir na rua, de pessoas tresloucadas a falar ou a gritar sozinhas nos passeios, do efeito e do cheiro da droga e o local onde J.F. Kennedy foi assassinado, em 1963, com dois tiros disparos do alto de um prédio que hoje funciona como uma escola.
O que eu vi, neste Mundial, foi um Portugal conservador, sem rasgo e com medo de arriscar. E isso deve-se ao treinador e não terá sido por acaso que, subtilmente, ou talvez não, Bruno Fernandes veio dizer que a equipa cumpriu as ordens do treinador, mais preocupado com a cobertura defensiva do que propriamente com a vontade de jogar para a frente.
O que eu vi, neste Mundial, foi um Diogo Costa irrepreensível, um Nuno Mendes que para nosso azar se lesionou num momento crucial, e vários jogadores que não tiveram oportunidade de se mostrarem e é claro que os casos de Gonçalo Ramos e Trincão foram os mais marcantes.
Martínez é um diplomata que Portugal dispensa. A diplomacia e a educação são importantes, mas nós precisamos de um treinador-líder. E Jesus será uma boa escolha, porque tem essa capacidade de se rir com os jogadores mas também de ser duro com eles, se for necessário.
O “meu Mundial” também me permitiu ver coisas que não queria: a total subjugação de Infantino a Donald Trump, com a FIFA a anular o efeito de um cartão vermelho exibido ao jogador norte-americano Balogun, um escândalo que diz bem como é possível haver influências descaradas e indesejáveis que colocam em causa a reputação não apenas de Infantino mas também da verdade do jogo. Não valeu de nada, porque a Bélgica não consentiu, mas ficou a marca. Uma marca perigosa. O poder de Trump chegar à arbitragem (com a mesma facilidade com que chegou a Maduro, permitam-me a chalaça) é uma coisa que deveria suscitar a demissão de Infantino. Para além daquilo que aconteceu com o árbitro somali, sem que o sector da arbitragem tivesse tido uma posição de solidariedade para com o juiz banido, e da forma indigna como os jogadores do Irão foram tratados durante a competição.
E, por falar de arbitragem, é incontornável que Messi foi protegido no jogo com a Argélia, quando teve uma entrada grosseira sobre Mandi que deveria ter sido sancionada com vermelho, cujo critério talvez tenha estado na base do pedido de despenalização do norte-americano Balogun.
Não gostei desta parte do Mundial, que ainda segue sob o signo das surpresas mas gostei do brilho de Cabo Verde e de Vozinha e ainda da forma como Bubista colocou a equipa a jogar: um futebol organizado, bonito, desenvolvido com muita “alma” e orgulho.
Gostaria de dizer ainda que o Portugal-Espanha foi exatamente aquilo que esperava, embora tivesse tentado manter a chama acesa da fé. Não é uma surpresa (sobretudo com a eliminação do Brasil) mas as equipas europeias estão a dar cartas e nos quartos já estão: Marrocos-França, Espanha-Bélgica, Noruega-Inglaterra e Argentina-Suíça, isto é, uma equipa africana, seis europeias e uma sul-americana.
Se, na verdade, Portugal e Martínez não tivessem subestimado a hipótese de vencer o Grupo K, as coisas poderiam ter sido diferentes. Esse foi outro erro, como foi a natureza do discurso do selecionador.
Só ele viu o que mais ninguém viu.
Aquela narrativa de Portugal ter uma das melhores seleções do mundo tem de ser reformulada. As melhores seleções do mundo não se escondem. Impõem-se. E, mesmo a nível de jogadores, quem não compete e só quer ter a bola no pé, a conclusão é a mesma.
Portugal desperdiçou uma grande oportunidade de fazer História neste Mundial e, na verdade, não vi qualquer tipo de mobilização para aproveitar esta prova no sentido da consagração de Ronaldo. E isso é estranho. Muito estranho. Considerando que estamos perante um jogador que deu tudo a Portugal, que chorou na despedida, talvez por não lhe terem passado a bola tantas vezes como ele esperaria e mereceria.
Invejas na Seleção? Ronaldo não introduziu a questão de uma eventual e aventada sabotagem. Sabotagem ou retração? Seja como for, Ronaldo também exagerou quando disse que o andam a matar há 22 anos. Não se referia aos colegas-jogadores, claro. Referia-se ao conhecimento daquilo que sabe que alguns críticos dizem dele. Cristiano quis relativizar, brincando. Mas deve ser muito difícil ver milhares de adeptos de todo o mundo a correrem atrás dele (vi pessoas a aparecer junto da porta do hotel em Dallas às 03:00 locais) e depois apanhar com o farisaísmo tuga.
É a mentalidade, pois, a maldita mentalidade, que já falava quando comecei nestas andanças.
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