Novo número da revista “Plural” traz dossiê sobre o tema; conteúdo está disponível no Portal de Revistas da USP
Entre os debates sobre bancas de heteroidentificação e as defesas de um certo “orgulho pardo”, o antigo tema da mestiçagem no Brasil está atualíssimo. O mais novo número da Plural – Revista de Ciências Sociais se debruça sobre o assunto com um dossiê que reúne resultados de pesquisas e reflexões sobre os usos políticos da mistura étnico-racial e sobre as disputas contemporâneas em torno da categoria “pardo”. Todo o conteúdo está disponível para download livre no Portal de Revistas da USP.
Intitulado “(Re)pensando a mestiçagem no Brasil: velhos dilemas, novos debates”, o dossiê foi organizado Maycon Dougllas, doutorando em História Social pela USP; Alan Augusto Moraes Ribeiro, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e líder do Grupo de Estudos sobre Raça, Educação e Etnicidades na Amazônia (GEREA); e Matheus de Moura, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
No artigo de apresentação, os organizadores explicam que o dossiê parte da diferenciação proposta pelo historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro para os termos miscigenação e mestiçagem. Grosso modo, Alencastro identifica a miscigenação como um processo biológico e a mestiçagem como um processo social de classificação e hierarquização das pessoas, desenvolvido desde o período colonial. A partir daí, os organizadores do dossiê convidam autores e leitores a refletir sobre quando, como e por que a miscigenação se transforma em mestiçagem (e vice-versa), e como essa transformação organiza as disputas do Brasil contemporâneo.
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Os 15 artigos acolhidos no dossiê se dedicam a responder essas questões de diferentes maneiras. Uma parte dos trabalhos revisita as obras de diversos autores que pensaram sobre a miscigenação e a mestiçagem desde o século 20, como Silvio Romero, Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Clóvis Moura e Kabengele Munanga. Partem daí investigações sobre a ideologia da democracia racial e o imaginário brasileiro da miscigenação.
Outro conjunto de artigos se debruça sobre as práticas e entendimentos das bancas de heteroidentificação de universidades públicas, considerando também as tensões que as acompanham e as categorias regionais de classificação racial, como o “pardo amazônico”, conectado à herança indígena. Há também artigos que mapeiam os diferentes sentidos atrelados à palavra “pardo” ao longo da história do Brasil, significados estes fixados em dicionários e outros documentos. Há, ainda, aqueles que se debruçam sobre as experiências sociais e subjetivas de sujeitos miscigenados, seja a partir da observação cotidiana, seja por meio da memória social.
O dossiê se encerra com duas resenhas de livros (A questão do pardo no Brasil, organizado por Flávia Rios, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Parditude, da influenciadora digital Beatriz Bueno) e com uma entrevista com Antônio Sérgio Guimarães, professor aposentado da FFLCH. Guimarães é um dos principais sociólogos brasileiros dedicados ao estudo das relações raciais. Na entrevista, ele analisa a passagem da ideia de “morenidade” à de “parditude” no debate público brasileiro, discutindo os potenciais inclusivos e riscos políticos que seguem junto.
“Nas últimas décadas, os debates sobre mestiçagem ganharam nova circulação pública no Brasil. Se, por muito tempo, a mestiçagem esteve associada sobretudo às grandes interpretações sobre a formação nacional, ao mito da democracia racial ou aos projetos de embranquecimento, hoje ela reaparece em novas arenas. Das bancas de heteroidentificação às redes sociais digitais, as disputas em torno da categoria ‘pardo’ desvela as controvérsias, os limites e os alcances do debate racial nos seus atuais termos. Essa ampliação do debate é um dado importante, pois ela torna visíveis experiências, desconfortos e conflitos que nem sempre encontraram lugar adequado nas formulações clássicas do pensamento social brasileiro ou mesmo em parte da tradição crítica das relações raciais”, escrevem os organizadores do dossiê.
A revista Plural é uma iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da FFLCH. Editada desde 1994, ela tem uma equipe editorial composta por docentes e estudantes de pós-graduação. Nessa segunda-feira (10), o programa de pós-graduação promoverá um evento de lançamento da atual edição, com a presença de Antônio Sérgio Guimarães, Flávia Rios e Maycon Dougllas. O evento ocorrerá das 17h30 às 19h30, na sala 14 do prédio do meio da FFLCH.

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