Portugueses na Venezuela querem encerrar capítulo trágico – Observador

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Portugueses e lusodescendentes radicados em Playa Grande, La Guaira, o estado mais afetado pelo duplo sismo que abalou a Venezuela, disseram à Lusa precisar de ajuda para recuperar os corpos dos seres queridos e encerrar este capítulo trágico.

“Após seis dias a passar fome e frio na rua, só queremos encontrar os nossos [dos parentes] corpos para terminar este capítulo e ver se há alguma possibilidade de avançar”, disse Ana Maria da Silva, contando que chegou a pensar que estava a ter um pesadelo do qual iria acordar.

“Pensei que iria acordar de um sonho, porque ninguém, nenhum vizinho [sobreviveu]. Praticamente, só duas pessoas saíram [vivas]. O resto está tudo morto, o meu marido é Américo da Silva e está tapeado [enterrado debaixo de escombros]. Morávamos no primeiro andar de uma residência de três torres que ruiu”, explicou.

Por outro lado, queixou-se que a pressão das redes sociais fez chegar alguma ajuda do estrangeiro, mas internamente muito pouca.

“Nem sequer um camião com água, com as coisas mais básicas. Aqui as pessoas chegam, [para] tirar uma fotografia (…), e vão embora”, frisou.

Explicou que na localidade de Playa Grande viviam muitos portugueses, que, tal como ela, perderam tudo.

“Muita gente ficou por cá, igual nós. E perdemos tudo. Perdemos 40 anos de trabalho. Ficamos, literalmente, na rua. Nem tenho os meus documentos de identificação, que era do menos, o mais importante”, disse.

Por outro lado, desabafou que o marido, um ex-combatente, prestou serviço militar, serviu Portugal, e que, em 2004, solicitou uma pensão, mas “morreu e isso nunca chegou”.

Segundo esta portuguesa, “muita gente está a ajudar, mesmo dispondo de muito pouco, e quem tinha muito, não fez nada”.

Em 1999, Ana Maria da Silva sobreviveu às enxurradas que afetaram milhares de portugueses em La Guaira (antigo estado de Vargas), mas o duplo sismo de 24 de junho não tem comparação, por ter ocasionado uma tragédia maior.

Outra portuguesa ouvida pela Lusa, a madeirense Jennifer Fernandes, espera os corpos do marido, Juan Gabriel de Freitas, e dos filhos, Lúcia, 5 anos, e Matias, de 8 anos.

“Eu deixei os meus filhos com o pai que trabalhava aqui na padaria e fui a Caracas fazer umas compras. Era ir e vir, seria rápido. De facto, achei muito estranho que, de repente, todos tivessem perdido o sinal [do telemóvel] e não houvesse comunicação”, disse.

Explicou que regressou o mais rápido possível e que o acesso a La Guaira já estava bloqueado, por isso teve que abandonar o carro e percorrer a pé vários quilómetros.

“Enquanto subia por Playa Grande, vi que já não havia edifícios, que tinham desaparecido. Quando cheguei já não havia a padaria. Sabia que os meus filhos estavam lá dentro, mas tinha fé de que tivessem saído a fazer algo, mas não, eles estavam aí”, disse.

“Estavam vivos porque os ouvíamos. Mas não chegou ajuda de ninguém. Nas primeiras 24 horas, não chegou ajuda de ninguém. Na manhã seguinte, na segunda noite, eles ainda davam sinais de vida, mas não chegou ninguém”, disse precisando que pediu ajuda pelas redes sociais, que chegou, mas não foi útil porque faltavam maquinarias.

“Hoje já é tarde demais. Hoje já são anjos. Ainda estou à espera de que me entreguem a Lúcia e o pai. O menino já foi retirado de lá”, desabafou.

Explicou ainda que em La Guaira “não ficou nada”, que “não têm rendimentos, nem há comida”.

“Já não tenho o que fazer. As pessoas ficaram sem casa, sem trabalho e sem comida. Tenho pensado ir para Portugal, mas tenho a minha avó de 83 anos e a minha mãe. Oxalá alguém nos possa ajudar. É complicado e não temos nem aonde chegar”, disse.

Jennifer Fernandes tinha 9 anos quando ocorreram as enxurradas de La Guaira, mas, afirma, “isto é muito pior”.

“Não me lembro de ter estado tão mal. As enxurradas destruíram a metade de La Guaira, agora La Guaira desapareceu por completo”, disse, estimando que uma reconstrução demorará longos anos.

Segundo disse, têm tido sinais de vida de pessoas que estão soterradas em escombros, em edifícios em risco de ruir na totalidade.

“No edifício de trás, há uma pessoa na cave que ainda não conseguiram resgatar. No outro prédio, há 20 pessoas encerradas, dando sinal de vida, mas é preciso maquinarias”, frisou precisando que também não há gasóleo nem gasolina para os geradores.

Ao Consulado de Portugal pede apoio para o futuro, para que muitos portugueses possam recomeçar.


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