Por trás das ruínas, o paraíso dos surfistas que sobreviveu aos terremotos na Venezuela

Anaís Marichal / Historias que Laten

Carlos Lozada é um dos jovens surfistas da praia da Anare, na Venezuela

Poupada à destruição que atingiu grande parte de La Guaira, a aldeia costeira de Anare acolhe sobreviventes e tenta resistir à quebra económica, enquanto os habitantes esperam pelo regresso dos turistas.

Enquanto voluntários e familiares procuram recuperar os corpos das vítimas entre montanhas de escombros impenetráveis deixadas pelos sismos que devastaram a Venezuela, uma aldeia de surfistas próxima da zona mais atingida aguarda o regresso dos turistas.

Paraíso das Caraíbas, Anare é um dos poucos locais do estado de La Guaira, na Venezuela, que não foi afetado pelos efeitos destruidores dos dois sismos registados com poucos segundos de intervalo a 24 de junho, que já causaram mais de 4.829 mortos, entre os quais 119 portugueses e lusodescendentes.

Antes de chegar à aldeia, com 4.000 habitantes, é necessário atravessar um cemitério de edifícios desmoronados, uma imagem que domina grande parte do litoral situado a 40 km de Caracas.

Embora os habitantes tenham sentido os abalos, as casas erguidas numa colina com vista para as Caraíbas permaneceram intactas.

“Esta localidade continua de pé. Não perdemos a esperança de que tudo isto passe e esperamos que a situação melhore”, afirma à AFP Daniel Lozada, instrutor de surf e pescador de 18 anos.

Ao entardecer, Lozada pesca à cana junto de outros dois homens, num pequeno passeio marítimo. Perto dali, um cão brinca nas ondas.

O ambiente tranquilo de Anare contrasta com o que se passa a poucos quilómetros, onde equipas de socorro e voluntários escavam túneis até de madrugada entre toneladas de betão, numa tentativa de recuperar os corpos das vítimas soterradas pelos sismos.

Esta comunidade, situada junto a um rio, tornou-se um refúgio para os sobreviventes dos sismos. Já tinha desempenhado o mesmo papel durante os deslizamentos de terras que causaram milhares de vítimas em 1999.

No entanto, milhares de famílias que perderam as casas vivem nas proximidades, em acampamentos sobrelotados e com condições de higiene precárias.

A palavra “Bem-vindos“, pintada com tinta preta em spray, destaca-se num dos quiosques junto à praia de Anare, que habitualmente recebia centenas de turistas por dia, sobretudo aos fins de semana.

“Uma aldeia abençoada”

Henry Romero, um reformado de 65 anos, acompanha Daniel enquanto tenta a sorte com a cana de pesca. Habitualmente, consegue apanhar peixes com até 10 quilos muito perto da costa, protegida por um quebra-mar que reduz a força das ondas.

O mar sempre lhes garantiu o sustento. Desde os sismos, recebem donativos de alimentos, que agradecem num momento de forte quebra económica provocada pela ausência de turistas.

“Esta é uma aldeia-jardim. Sempre foi um lugar tranquilo, que vive do turismo”, afirma Henry, que perdeu familiares residentes em localidades próximas. Alguns vizinhos que trabalhavam na zona da catástrofe ficaram feridos.

Depois de se reformar, construiu uma pequena pensão para receber visitantes. Agora, considera incerto o futuro do turismo, devido ao receio que muitas pessoas sentem de se deslocar à região. “Queremos que os turistas regressem para que a vida possa voltar à normalidade”, afirma.

José Izaguirre, pescador de 40 anos, diz estar habituado às catástrofes naturais que têm marcado o estado de La Guaira e, por isso, exclui a possibilidade de partir.

“Não vamos sair daqui”, garante. “Anare é uma aldeia abençoada. Já aconteceram muitas coisas e esta aldeia nunca sofreu.”

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