Nos últimos meses, uma polêmica envolveu Brasil e Paraguai relacionada à guerra em que os dois países se envolveram há mais de 150 anos. Chamada no Brasil de Guerra do Paraguai, também chamada de Guerra da Tríplice Aliança, e conhecida pelos paraguaios ainda como Guerra Grande, o conflito foi o mais violento da história da América Latina. Encerrado em 1870, foi responsável pela redução da população paraguaia no século XIX.
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Vista pelos paraguaios como uma tragédia nacional, a Guerra do Paraguai voltou a ser comentada após uma fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repercutir nas redes sociais.
No último dia 24 de julho, Lula esteve em Jacareí (SP), em visita à fábrica da Avibras, indústria bélica cuja sede está localizada no Município. Na ocasião, o presidente discursou a favor do aumento de investimentos para a defesa nacional. Ao defender a proposta, Lula citou a Guerra do Paraguai e disse que o Brasil gosta de paz, mas que o país deve lembrar do conflito secular.
“A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra, que parecia que era nada, durou cinco anos”, disse.
A fala de Lula causou uma reação imediata no Paraguai, resultando em uma crise diplomática entre o Brasil e o país vizinho.
Em 30 de julho, o governo paraguaio solicitou esclarecimentos ao embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, ao convocá-lo para tratar do episódio. A convocação da embaixada foi anunciada pelo chanceler Rubén Ramírez Lezcano, que afirmou que o governo paraguaio defenderá a “dignidade” e os interesses do país.
Para a diplomacia, a convocação de um embaixador é um recurso ao qual os governos costumam recorrer em tempos de conflito ou quando há algum tipo de insatisfação de um país com o outro.
O protesto paraguaio incluiu a cobrança para que o Brasil devolva o canhão “El Cristiano”, relíquia histórica confiscada como troféu de guerra. O obuseiro é mantido no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. O presidente Lula deu aval para a devolução.
Mais de 150 anos depois, a Guerra do Paraguai continua a influenciar a memória coletiva do país vizinho. Veja por que o conflito permanece tão sensível.
Guerra do Paraguai: entenda o conflito
A Guerra do Paraguai e também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança devido ao pacto formado por Brasil, Uruguai e Argentina contra o Paraguai. Ela teve início em 1864 e chegou ao fim somente em 1870.
Segundo especial sobre os 150 anos da Guerra do Paraguai, produzido pela Agência Senado, uma das principais causas do conflito foi a disputa pelo poder na região do Rio da Prata.
O estopim foi a invasão paraguaia de territórios brasileiros, liderada por Francisco Solano López. Essas invasões resultaram na prisão do então presidente da província de Mato Grosso, Frederico Carneiro de Campos, e tiveram como motivação a intervenção militar brasileira no Uruguai.
Na época, o Uruguai vivia uma guerra civil, e o país estava dividido por conta dos conflitos entre o Partido Blanco, que regia o país, e o Partido Colorado, que se opunha ao então governo. Por conta da intervenção brasileira, o Partido Colorado conseguiu depor o Partido Blanco.
O governo de Solano López apoiava o Partido Blanco. Por isso, a ação do Brasil foi vista pelo presidente como uma ameaça aos seus interesses. Assim, a guerra foi deflagrada, e tropas paraguaias invadiram territórios brasileiros — primeiro o Mato Grosso, ainda em dezembro, e, então, o Rio Grande do Sul, em 1865.
Aí está a divergência entre a versão brasileira propagada por Lula, de que o Paraguai atacou primeiro, e o entendimento paraguaio de que tudo começou porque o Brasil invadiu o aliado Uruguai.
De dezembro de 1864 a março de 1870, Brasil, Argentina e Uruguai — agora sob o Partido Colorado — travaram uma guerra contra o Paraguai. A disputa chegou ao fim com a morte de Solano López, no dia 1º de março de 1870.
A memória da guerra no Paraguai de hoje
Mesmo agora, mais de um século e meio depois do fim do conflito, a Guerra do Paraguai ainda é considerada um episódio sensível para grande parte da população paraguaia. Mas o comentário de Lula não é o único motivo pelo qual o governo do país vizinho ficou insatisfeito com a situação.
Há, até os dias de hoje, um debate a respeito de quantos paraguaios morreram durante o conflito.
Estima-se que, sozinho, o Paraguai tinha cerca de 400 mil habitantes, enquanto a Tríplice Aliança, em conjunto, tinha aproximadamente 11 milhões de habitantes.
Com os números reduzidos e a guerra se estendendo por quase seis anos, o Paraguai teve que recorrer a outros meios para se defender: o exército não recrutou apenas homens adultos, mas também adolescentes e crianças. Quando a guerra chegou ao fim, a população paraguaia havia sido reduzida para menos da metade.
Não há um número exato de mortos, mas estima-se que aproximadamente 70% da população tenha morrido, incluindo civis e soldados. Segundo o historiador Francisco Doratioto, 90% da população masculina morreu durante a guerra. A maioria dos sobreviventes era composta por crianças, idosos e mulheres.
Para o Brasil, o fim da guerra representou diversas conquistas, duas delas sendo a obtenção de novos territórios e a livre circulação pela Bacia do Prata. Para o Paraguai, representou algo além da derrota: representa, até hoje, a perda de terras, o atraso em seu desenvolvimento e a dizimação de sua população.
Com informações da Agência Senado e da BBC – Internacional
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