Patrice Trovoada “pôs-se a jeito” para exclusão das eleições legislativas em São Tomé e Príncipe – Convidado
Nas redes sociais, Patrice Trovoada veio apelar à abstenção nas eleições legislativas, autárquicas e regionais, agora que o ADI tem uma nova liderança com Vasth Santos, eleita secretária-geral este fim de semana, e o presidente Américo Ramos, que é também primeiro-ministro. No entanto, as suas escolhas políticas e a sua ausência de São Tomé e Príncipe explicam esta situação pré-eleitoral.
Em São Tomé e Príncipe, face à solidificação de uma nova liderança do ADI para as eleições legislativas, autárquicas e regionais de 27 de Setembro, Patrice Trovoada, fundador deste partido e antigo primeiro-ministro, disse aos seus apoiantes mais próximos que se deveriam abster, já que o escrutínio decorre num ambiente de “manobras políticas mafiosas, encobertas por decisões judiciais”.
Para Olívio Diogo, sociólogo são-tomense, Patrice Trovoada “pôs-se a jeito” para esta exclusão do seu próprio partido devido à sua partida do país e às suas próprias hesitações ao longo do seu percurso político.
“Patrice Trovoada é o político mais influente de São Tomé e Príncipe. Nós temos que reconhecer isso. Mas o Patrice Trovoada sabe perfeitamente bem que esta situação toda só foi possível porque ele se pôs a jeito para que isso acontecesse. Agostinho Fernandes já tinha feito uma tentativa de chegar ao poder do ADI, porque o Patrice Trovoada naquela altura disse que não seria candidato. Foi há alguns anos. Agora o Patrice Trovoada está de novo fora do país e pronto, Américo Ramos [actual primeiro-ministro] entendeu que isto é uma oportunidade para tentar a possibilidade de chegar a líder. A liderança do partido fê-lo da forma como fez, alinhado com o Tribunal Constitucional, que deu aval para que isto acontecesse, e essa acção de alteração do Tribunal Constitucional foi uma acção que começou com o Patrice Trovoada e ele sabe disso“, explicou.
Em 2025, o Presidente são-tomense demitiu o Governo chefiado pelo então primeiro-ministro Patrice Trovoada e convidou o ADI, partido mais votado nas anteriores eleições legislativas de 2022, a indicar outra figura para formar o novo Executivo. Nessa altura, Carlos Vila Nova justificou a sua decisão com a “incapacidade [do Governo] em aportar soluções atendíveis e comportáveis com o grau de problemas existentes no país”.
Mais tarde, esta demissão foi considerada inconstitucional, mas sem efeitos retroactivos. Entretanto, o Tribunal Constitucional reconheceu através de um acórdão o actual primeiro-ministro Américo Ramos como novo líder do ADI.
Termina hoje o prazo para a apresentação das candidaturas ao Tribunal Constitucional para as eleições de 27 de Setembro; no entanto, a Comissão Eleitoral Nacional (CEN) de São Tomé e Príncipe disse na semana passada que aguarda ainda a transferência de cerca de 27 milhões de dobras, mais de um milhão de euros, para a sua organização.
Segundo Olívio Diogo, as eleições vão realizar-se “em paz”, mas criou-se uma situação “caricata” no arquipélago, já que há data para o escrutínio, os partidos estão a preparar-se, mas parece ter havido uma falta de comunicação entre a Comissão Eleitoral Nacional e o Presidente da República.
“O senhor presidente da Comissão Eleitoral tem que ter muita atenção àquilo que vai dizer. Eu creio que, para que o Presidente da República marcasse as datas das eleições, tinha que ouvir o presidente da Comissão Eleitoral para saber se havia realmente as condições criadas. Não vamos marcar uma data para as eleições e depois chegar agora dizendo que não temos financiamento. Isto é completamente caricato. Não sei explicar. Eu sei que realmente reconheço que as eleições em São Tomé e Príncipe dependem exclusivamente de financiamento externo para a sua realização. […] Na minha perspectiva, as eleições vão-se realizar. Tem que encontrar-se mecanismos de financiamento, nem que seja pelo empréstimo aos bancos. Tem que encontrar-se financiamento para as eleições“, concluiu.
Crédito: Link de origem