O chefe do Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti (BINUH), Carlos Ruiz Massieu, disse ao Conselho de Segurança da ONU que o país continua a enfrentar uma insegurança persistente, necessidades humanitárias agudas e desafios institucionais, com consequências devastadoras para a população.
No entanto, destacou que os recentes acontecimentos demonstraram que ainda existe uma oportunidade para avançar na transição política, começar a inverter a ameaça representada pelos gangues e restaurar a governação democrática.
“O desafio agora é sustentar este ímpeto e traduzi-lo em melhorias tangíveis para o povo haitiano. A transição encontra-se num momento crítico”, sublinhou.
“A adoção do decreto eleitoral revisto e o consenso alcançado sobre o orçamento eleitoral no início deste mês são conquistas significativas que proporcionam uma base para um novo impulso. O lançamento do recenseamento eleitoral marca mais um importante passo em frente. A prioridade seguinte é clara: a adoção de um calendário eleitoral credível e realista”, defendeu.
Para alcançar este objetivo, Massieu pediu uma coesão sustentada entre as instituições haitianas, um diálogo contínuo em todo o espetro político e um compromisso partilhado para colocar os interesses do povo haitiano acima de tudo.
“A janela de oportunidade que se apresenta ao Haiti deve ser aproveitada agora”, insistiu.
Contudo, a ONU defendeu que a segurança continua a ser essencial para eleições credíveis, embora esse continue a ser o desafio mais urgente do Haiti.
A violência de gangues continua a causar um grande impacto numa população já fragilizada. Milhões de haitianos continuam deslocados ou em situação de insegurança alimentar, enquanto mulheres e as crianças continuam a sofrer as graves consequências da violência.
Na reunião, a diretora executiva do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), Monica Juma, que viajou para o Haiti na semana passada, afirmou que os gangues armados já não procuram simplesmente capturar território, mas sim captar os sistemas de governação e os meios de subsistência económica dos quais as comunidades e as instituições dependem.
“Estão a competir pelo controlo de corredores de transporte, fornecimentos de combustível, redes de distribuição de alimentos e mercados ilícitos”, denunciou.
De acordo com a diretora, o crime organizado está a remodelar-se e, em alguns casos, a substituir a autoridade do Estado, mantendo Governo e populações como reféns.
E na ausência de segurança pública oficial, alguns gangues apresentam-se agora como alegados “protetores da comunidade”, esbatendo ainda mais a linha entre a violência criminosa, a justiça pelas próprias mãos e a autoridade legítima, corroendo ainda mais a confiança pública.
“É por isso que a crise do Haiti não deve ser entendida apenas como uma crise de segurança. Trata-se cada vez mais de uma crise de governação impulsionada pelo crime organizado, com consequências para as próximas eleições, a resposta humanitária e a prosperidade e o desenvolvimento a longo prazo”, declarou Juma.
Esta crise também não se limita às fronteiras do Haiti.
As armas de fogo ilícitas, incluindo as armas de uso militar, continuam a entrar no Haiti vindas do estrangeiro, disse a UNODC.
As redes de tráfico de cocaína e outras drogas utilizam cada vez mais o Haiti como centro de armazenamento e logística para o transporte subsequente ao longo das rotas das Caraíbas.
As rotas de contrabando de migrantes ligam o Haiti às Bahamas, à República Dominicana, às Ilhas Turcas e Caicos, aos Estados Unidos e à América do Sul, disse Juma, sublinhando serem mercados criminosos interligados que exigem uma resposta regional coordenada.
Está no Haiti uma missão multinacional, apoiada pela ONU, para fortalecer a polícia local nas operações contra bandos criminosos que há anos cometem assassínios, violações, pilhagens e raptos no país.
O representante dessa Força de Combate a Gangues, Jack Christofides, indicou, na reunião, que o modelo operacional está a mostrar-se promissor, sendo este o momento “em que o investimento adicional começa a gerar retornos crescentes”.
“Se este ímpeto se mantiver, a Força vai expandir-se progressivamente e aumentar a pressão sobre os gangues e redes. Se o ímpeto for interrompido, corremos o risco de perder esse fluxo”, alertou.
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