Oiapoque, no extremo norte do Amapá, é a cidade que materializa a expressão “do Oiapoque ao Chuí” com uma fronteira internacional atípica: do outro lado do rio está a Guiana Francesa, departamento ultramarino da França e, portanto, território da União Europeia. A 590 km de Macapá, o município convive com duas moedas, dois idiomas e um marco que anuncia o começo do território nacional.
A condição singular faz do município a única cidade do estado com fronteira internacional e a única, além da capital, a abrigar uma unidade do Exército Brasileiro. Segundo o Monitor do Mercado, o impacto dessa posição geográfica aparece no caixa do comércio: moradores do lado guianense atravessam o rio para comprar mercadorias no lado brasileiro pagando em euro, movimento que sustenta boa parte do setor de serviços local.
O marco que abre o mapa do Brasil
O ponto de partida do território nacional é celebrado por um monumento erguido durante a Segunda Guerra. De acordo com o Governo do Amapá, em 1943 foi construído no município um monumento à Pátria com citações do hino nacional e uma placa com os dizeres “Aqui Começa o Brasil”, que se tornou o símbolo da cidade. O município foi criado pela Lei nº 7.578, de 23 de maio de 1945, e ocupa uma área de 22.725,70 km².
Há, porém, uma precisão geográfica que contraria o senso comum. A expressão popular “do Oiapoque ao Chuí” refere-se aos extremos do litoral brasileiro, e não aos pontos extremos absolutos do território: o ponto mais setentrional do país fica em Roraima. Ainda assim, é em Oiapoque que o mapa nacional começa a ser desenhado no imaginário coletivo, leitura reforçada pelo monumento desde os anos 1940.
A ponte de 378 metros que conecta dois blocos políticos
A travessia internacional é feita pela Ponte Binacional Franco-Brasileira, inaugurada em 2017. De acordo com o portal Visite Amapá, a estrutura conecta o lado brasileiro a Saint-Georges, na Guiana Francesa, e se tornou um dos pontos mais visitados do município, simbolizando a ligação entre dois países e duas culturas.
Antes da ponte, tudo dependia das catraias, pequenas embarcações que cruzam o rio em poucos minutos e seguem funcionando para quem faz o trajeto curto. A cidade também é o principal ponto de apoio para quem vai ao Rio Oiapoque, com passeios de barco, pesca esportiva e acesso a comunidades ribeirinhas e indígenas do interior.
O parque nacional que protege um dos maiores manguezais do país
Nas proximidades, o Parque Nacional do Cabo Orange preserva uma das maiores extensões de manguezal do Brasil. Conforme o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a unidade foi criada em 15 de julho de 1980, tem 619 mil hectares e inclui ecossistemas terrestres, mangues e uma faixa marítima de 10 km por onde deságuam no Atlântico os rios Cassiporé e Uaçá.
A vegetação do mangue é formada por espécies como siriúba, mangue-vermelho e mangue-amarelo, plantas adaptadas à água salgada que funcionam como berçário de peixes e crustáceos. A visita exige autorização prévia da administração, já que não há estrutura turística montada na unidade de conservação da fronteira amazônica.
O que ver em Oiapoque e no entorno
As distâncias na região são grandes, e boa parte dos deslocamentos depende de barco ou de estrada de terra. Entre os atrativos oficiais estão o Monumento Aqui Começa o Brasil, ponto de foto obrigatório; a Ponte Binacional, com horário de funcionamento controlado e vista para os dois países; a Cachoeira Grande, queda d’água no interior do município; a Vila Brasil, comunidade na cabeceira do Rio Oiapoque acessível por via fluvial; o Parque Nacional do Cabo Orange; e a Serra do Tumucumaque, região montanhosa de floresta contínua no extremo oeste do município.
Clima, chuvas e a melhor época para ir
O calor em Oiapoque é constante, e a chuva é abundante, com volumes que superam a média da maior parte do país. Entre janeiro e março, as temperaturas ficam entre 23°C e 30°C, com chuvas muito altas, rios cheios e estradas de terra difíceis. De abril a junho, o calendário local atinge o pico das chuvas — período mais úmido da Amazônia e época a evitar. Entre julho e setembro, a chuva diminui gradualmente e a navegação se torna mais previsível. A melhor janela para deslocamentos por terra é de outubro a dezembro, quando o volume de chuva é baixo e as temperaturas variam entre 24°C e 33°C.
Os valores são aproximados e têm como base o Climatempo. As condições variam a cada ano por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, o que reforça a necessidade de consultar a previsão atualizada antes de encarar a BR-156, principal via de acesso à capital.
Um endereço que reúne fronteira, história e natureza
Poucos lugares do país concentram em um só endereço uma fronteira com a Europa, um marco patriótico dos anos 1940 e um dos maiores manguezais protegidos do Atlântico Sul — a mais de meio milhar de quilômetros da capital estadual. É esse conjunto que faz de Oiapoque, na prática, a cidade onde o Brasil encontra a Europa.
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