O verdadeiro desafio tecnológico das Administrações Públicas não é a tecnologia, é o talento

Na Administração Pública, o principal desafio não é a incorporação de tecnologia, como a inteligência artificial, automação ou novas plataformas. Tiago Lopes Duarte diz que a transformação digital depende de organizações aptas para compreender, governar e utilizar essas tecnologias com conhecimento e sentido crítico.

Por Tiago Lopes Duarte (*)

Quanto mais avança a transformação digital do setor público, mais evidente se torna a sua realidade incómoda: o principal desafio já não passa apenas pela incorporação de tecnologia, mas pela capacidade de contar com pessoas capazes de a governar, implementar e fazer evoluir.

Há já algum tempo que, no nosso papel de impulsionar a inovação tecnológica no setor público, existe uma conversa que se repete com frequência crescente. Surge em reuniões com CIOs, diretores de transformação e responsáveis de sistemas uma dificuldade em atrair e reter talento digital. É estrutural e não apenas um problema pontual.

A Administração Pública enfrenta hoje um paradoxo. Nunca teve tantas ferramentas tecnológicas ao seu alcance, mas também nunca competiu de forma tão intensa pelo talento necessário para tirar partido delas. Os perfis STEM, especialistas em inteligência artificial, ciência de dados, hiperautomação, arquitetura tecnológica ou cibersegurança,  assumiram um papel central na transformação digital. São perfis estratégicos para qualquer organização e, naturalmente, também para o setor público.

O problema é que é muito difícil enfrentar estes desafios com sucesso sem capacidades internas sólidas. Quando uma Administração não dispõe do conhecimento técnico necessário, surgem três cenários possíveis, nenhum deles particularmente desejável: abdicar de determinadas iniciativas de inovação, assumir riscos elevados na sua execução ou delegar excessivamente a liderança tecnológica em entidades externas. E, embora a colaboração com fornecedores especializados seja necessária e positiva, não pode substituir por completo a capacidade interna de análise, decisão e supervisão.

A tecnologia deixou de ser apenas um suporte administrativo. É, em muitos casos, o próprio serviço público. Hoje é impensável relacionarmo-nos com a Administração sem recorrer a ferramentas digitais: pedidos, notificações eletrónicas, pagamento de taxas, marcação de atendimentos. Por detrás de cada interação existem sistemas, dados e decisões tecnológicas que afetam diretamente cidadãos e empresas. Por isso, a pergunta é inevitável: podemos permitir que infraestruturas tão críticas não sejam lideradas por equipas suficientemente qualificadas? Se a resposta é não, então o debate deixa de ser técnico e passa a ser estratégico.

A dificuldade em atrair e reter talento digital afeta a maioria das economias avançadas. Governos de vários países reconheceram diferenças significativas face ao setor privado na captação de perfis tecnológicos críticos, sobretudo nas áreas dos dados, da cibersegurança e da inteligência artificial. Alguns já começaram a responder através de modelos remuneratórios específicos, processos de recrutamento mais ágeis, programas de formação contínua e modelos de colaboração entre os setores público e privado orientados não apenas para a execução de projetos, mas também para a transferência de conhecimento.

A estabilidade, tradicionalmente um dos grandes atrativos do emprego público, já não tem o mesmo peso para as novas gerações, que valorizam mais o desenvolvimento profissional, a flexibilidade e a aprendizagem contínua.

Importa, além disso, desconstruir alguns estereótipos. As equipas tecnológicas das Administrações Públicas não trabalham com menor intensidade nem enfrentam menores níveis de exigência do que as do setor privado. Pelo contrário: a criticidade dos sistemas que gerem aumenta significativamente a sua responsabilidade. Não estamos a falar de aplicações acessórias, mas de plataformas que sustentam serviços essenciais, processos administrativos críticos e, em muitos casos, direitos fundamentais dos cidadãos.

Nos últimos anos foram dados passos na direção certa. Começa a promover-se uma cultura de reskilling e upskilling, fala-se cada vez mais da avaliação do desempenho e avança-se para modelos de progressão profissional mais alinhados com as competências efetivamente demonstradas. Mas a questão essencial permanece: será suficiente? Pela minha experiência, a resposta é clara: não.

Há algum tempo, um colega europeu contou-me que decidiu integrar uma empresa pública, renunciando a uma parte significativa do seu salário. A sua motivação era o propósito: contribuir para o bem comum. É uma reflexão que admiro, mas também me deixa desconfortável. Porque, para além de casos pontuais, o propósito nem sempre basta para competir num mercado de trabalho global e altamente competitivo. Se queremos atrair e reter profissionais tecnológicos altamente qualificados, a especialização tem de ser reconhecida de forma explícita, também em termos de carreira, autonomia, flexibilidade e remuneração.

É paradoxal que a própria Administração reconheça o valor da especialização tecnológica quando contrata serviços externos, valorizando a experiência, as certificações, o conhecimento setorial e as competências técnicas, mas nem sempre aplique essa mesma lógica ao talento interno. Se o mercado reconhece que determinados perfis são críticos, o emprego público deve encontrar formas de os reconhecer igualmente.

O caminho passa por uma transformação estrutural e cultural: criar incentivos para perfis digitais críticos e flexibilizar os modelos organizacionais. Existe ainda uma dimensão que merece especial atenção: a soberania digital. Só com equipas públicas qualificadas será possível definir uma estratégia sólida, selecionar adequadamente os parceiros, avaliar riscos e preservar o controlo sobre os sistemas e os dados. A colaboração com o ecossistema privado continuará a ser indispensável, mas para colaborar de forma eficaz é igualmente necessário existir conhecimento interno.

A transformação digital do setor público não depende apenas da adoção de inteligência artificial, automação ou novas plataformas. Depende da capacidade de construir organizações públicas aptas para compreender, governar e utilizar essas tecnologias com conhecimento e sentido crítico. E isso exige talento.

Porque, em última análise, não estamos apenas a falar de emprego público. Estamos a falar de quem desenha, constrói e gere a Administração do futuro. A pergunta já não é se conseguimos atrair talento tecnológico para o setor público. A verdadeira questão é se nos podemos dar ao luxo de não o fazer.

(*) Partner da Stratesys

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