O Papa que não tem medo das palavras

Estive em Angola na intensa viagem do Papa a um dos países mais ricos de África e com um maior potencial de desenvolvimento no continente.

Leão XIV começo logo por aí, condenando a atitude das superpotências que continuam a extorquir as riquezas destes países pouco ou nada investindo no seu desenvolvimento.

Angola está efetivamente diferente e isso nota-se logo no Aeroporto Agostinho Neto.

Moderno, funcional, gigantesco e com a ambição de ser a porta de entrada do desejado turismo e uma plataforma de encontro de rotas aéreas.

Nem parece o mesmo país. Desembarque rápido, bagagens em pouco tempo, não há atrasos nem complicações nos serviços aduaneiros e num instante estamos disponíveis para descobrir a cidade.

O Papa pouco viu de Angola, mas o que os seus olhos conseguiram atingir mostraram que continua a ser gritante o contraste social, mesmo com o nascimento de novas cidades e um combate às barracas que parece dar agora sinais de eficácia. Mas há uma forte geração de jovens que estão desencantados. Há poucos empregos e os salários não chegam para o sonho de ter uma casa digna e uma família. Podemos sempre dizer que na Europa as coisas também são assim em muitos países, mas em Angola é mais escandaloso este contraste social. Talvez pela imensa riqueza daquela terra que dá duas colheitas de tudo, tem diamantes, petróleo, madeiras, minerais raros e uma paisagem de cortar a respiração.

Não é um diamante em bruto, mas quase. Há ali tanto para descobrir e o Papa não teve medo de falar disso, mesmo com o Presidente João Lourenço ao lado.

O Presidente angolano seguiu mesmo essa linha de pensamento, admitindo que a luta contra a exclusão é uma prioridade e que Angola poderá ser um exemplo a seguir no Mundo, com uma pacificação notável e um processo democrático que está a fazer caminho e terá no próximo ano umas eleições verdadeiramente decisivas para o futuro.

Leão XIV falou também de paz, deixou uma mensagem clara aos que se agarram a Deus apenas para proveito próprio. Lembrou os Mandamentos e a base de Igreja; Não invoques nunca o nome de Deus em vão.

O Papa e esta viagem ganharam dimensão com a ‘guerra’ com Trump, mas Leão foi inteligente nas respostas, sem nunca vergar aos desvarios que chegam diariamente da Casa Branca. Defendeu em todos os discursos a paz, condenou as agressões e a morte de civis, apontando sempre o caminho da negociação e do diálogo como as únicas soluções válidas para os conflitos.

Numa das minhas reportagens na CNN Portugal afirmei que o Papa é agora a principal voz lúcida no meio da loucura que domina este nosso mundo.

Mas precisa de somar a este discurso forte, desassombrado, uma forte dose de emoção. Leão não olha para as pessoas nos olhos e fica agarrado aos papeis do discurso, que é excecional. Não comunica, não deixa a emoção descontrolada tomar conta dos momentos e as pessoas percebem isso. Os angolanos foram à rua, às missas, mesmo à Muxima debaixo de um calor abrasador, mas não os senti com a alma plenamente cheia como já vi em encontros com outros Papas. Esperavam sempre mais, nem que fosse uma passagem mais lenta do papamóvel e a possibilidade de estarem mais perto. A segurança é fria, puramente americana e até os jornalistas que o acompanham parecem ungidos de uma qualquer superioridade que torna uma boa parte das suas presenças verdadeiramente patéticas. Parece uma casta quem não se mistura com os locais, nem com os outros jornalistas estrangeiros, nem partilha informação ou até uma garrafa de água com o resto da ‘plebe’. Fica muito mal esta atitude da comitiva. O Papa tem de ter uma fortíssima dose de humildade e tudo o que o rodeia deve seguir esta linha.

Leão XIV tem a base para fazer um grande pontificado, mas terá de sair da redoma onde se colocou e mergulhar no abraço sincero e sentido com o povo de Deus. Se não o fizer, perderá eficácia na palavra e deixará de ser aquele em quem a Igreja e até o mundo confiam, como acontece agora. A empatia é fundamental e Leão tem de mudar a forma como fica entre as mutidões.

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