O apelo do Papa | Conhecem os governantes a visão dos jovens?

No primeiro dia da sua visita a Angola, o Papa Leão XIV deixou um apelo claro aos governantes: não extinguir as visões dos jovens. A mensagem ganha particular relevância por ter sido proferida no mês em que o país celebrou 24 anos de paz, coincidindo também com o mês dedicado à juventude. Mas, afinal, qual é a visão dos jovens angolanos? E, mais importante, estarão os decisores políticos a compreendê-la?

Para responder a estas questões, recorremos aos dados do Afrobarometer, organização africana independente, sediada no Gana, que realiza estudos de opinião pública sobre democracia, governação, economia e sociedade. No caso de Angola, os resultados do inquérito realizado junto de jovens entre os 18 e os 30 anos, publicados em 2024, revelam prioridades bastante claras.

Quando questionados sobre “os problemas mais importantes que o governo deve resolver”, destacam-se dois: saúde e desemprego, cf. Gráfico 1. Estes resultados não surpreendem. Uma população saudável é condição essencial para o aumento da produtividade e, consequentemente, para a geração de riqueza. Por sua vez, o crescimento económico, quando acompanhado por políticas públicas eficazes, pode traduzir-se na criação de emprego e na redução do desemprego, principal preocupação da juventude.

Neste domínio, os dados do Instituto Nacional de Estatística referentes ao IV trimestre de 2025 são elucidativos: a população fora da força de trabalho ascendia a cerca de 11,3 milhões de pessoas, das quais mais de 5,5 milhões tinham entre 15 e 24 anos. Estes números evidenciam a urgência de políticas que promovam a criação de emprego em larga escala. A questão que se impõe é: de onde virão esses empregos?

No nosso último artigo, referimos que o agravamento da situação no Médio Oriente levou a uma subida do preço do barril de petróleo Brent nos mercados internacionais. Este aumento, embora represente uma oportunidade em termos de receitas para um país exportador como Angola, traz também desafios relevantes. Sendo simultaneamente importador de produtos refinados, como gasolina e gasóleo, Angola enfrenta um aumento dos custos de produção, tanto na indústria como noutros sectores. Para além dos custos energéticos, há também impacto no preço de matérias-primas ainda importadas.

É verdade que o aumento das receitas petrolíferas poderá gerar uma certa folga fiscal. Contudo, importa não ignorar o contexto político. Com a aproximação de um novo ciclo eleitoral em 2027, existe o risco de que esse espaço orçamental adicional seja canalizado para despesas de curto prazo, com fins eleitoralistas, em detrimento de reformas estruturais essenciais para a transformação da economia.

Aliás, relatórios recentes do Fundo Monetário Internacional e do Banco Africano de Desenvolvimento têm sublinhado que os países africanos deverão depender cada vez menos da ajuda externa, tornando-se fundamental reforçar a mobilização de recursos internos. Para Angola, a Lei n.º 14/25, que aprova o OGE 2026, aponta nessa direcção, ao prever medidas como o reforço do controlo e da eficiência da despesa pública (proibindo por ex., indexar despesas variáveis a moeda externa), o combate à evasão fiscal (incluindo a implementação da facturação electrónica), a reestruturação aduaneira, revisão da Lei-quadro do OGE (saindo de um regime de contabilidade orçamental (base caixa) para um que combina contabilidade financeira (base de acréscimo) e contabilidade de gestão (foco na análise de custos e controlo de programas orçamentais) e a reforma do sector empresarial público. Estas iniciativas visam aumentar a confiança dos investidores, nacionais e estrangeiros.

No entanto, como temos vindo a sublinhar, tal confiança depende também da melhoria das infraestruturas, sobretudo aquelas que apoiam o sector produtivo. A evidência empírica mostra que sistemas de investimento público bem geridos podem atrair investimento privado, reduzir custos de transação e aumentar a viabilidade dos projectos.

Em suma, a visita papal e o seu apelo, num momento simbólico para Angola, devem ser encarados como um alerta. Num contexto de possível folga fiscal, a prioridade não pode ser apenas o aumento da despesa de curto prazo com fins eleitoralistas. Pelo contrário, este deve ser também um momento para acelerar reformas estruturais e investir em sectores capazes de gerar emprego de forma sustentável. Caso contrário, dificilmente Angola conseguirá transformar o seu maior activo, a juventude, numa verdadeira força motriz do desenvolvimento económico

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