Somos um país independente desde 1975. Pequeno, sim: um arquipélago no meio do Oceano Atlântico, com mais cabo-verdianos a viver fora do país do que no próprio território. Sem petróleo, sem diamantes, com um mercado interno reduzido e uma economia que importa quase tudo. Pouca água, chuva incerta, com apenas cerca de 12% de terra arável e o desafio permanente de ligar ilhas dispersas pelo oceano. Temos boa parte do nosso talento em busca de uma vida melhor, utilizando a mesma ponte que os familiares utilizaram para chegar, sobretudo, à Europa ou aos Estados Unidos. Somos conhecidos pelas nossas praias e temos no turismo e nas remessas da nossa diáspora dois pilares fundamentais para garantir a nossa estabilidade económica.
Lido de forma fria e redutora, este primeiro parágrafo quase poderia encaixar na ideia de um Estado condenado à inviabilidade. No entanto, os Cabo-Verdianos recusaram sempre essa etiqueta, recusaram ser definidos pelas suas limitações, recusaram aceitar que a geografia, a escassez ou a dimensão fossem destino.
Foi a força de um povo que aprendeu a contrariar o inevitável. Amílcar Cabral, uma das faces maiores da nossa independência, lembrava-nos que não se reivindicam vitórias fáceis e talvez isso esteja no nosso ADN, misturado entre África, Europa e Américas: cair e levantar, resistir sem perder a ternura, avançar em comunidade, sem deixar ninguém para trás. Aqui em Cabo Verde, fintar o destino é quase herança de família e, naquele golaço de Lopes Cabral contra a Argentina, vimos um país inteiro a desafiar o impossível.
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