(Foto: Andrea Piacquadio/Pexels)
Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, foi sequestrado por soldados norte-americanos por tráfico de drogas. Donald Trump ameaçou seus homólogos colombiano e mexicano por cumplicidade com os cartéis. O Brasil está na lista de espera. As drogas matam em todo o mundo. O combate ao tráfico mobiliza a comunidade internacional. Mas essa exigência de segurança e saúde universais foi subvertida unilateralmente por Washington, que, em nome dela, legitima todo tipo de ingerência nos assuntos internos dos países latino-americanos.
A política antimigratória dos primeiros meses do mandato de Donald Trump foi justificada pela relação, nunca comprovada, que ele estabeleceu entre estrangeiros, criminalidade, insegurança e tráfico de drogas. Esse tipo de discurso foi acompanhado por um linchamento visual durante os primeiros cem dias de seu mandato. As calçadas da Casa Branca receberam, em 20 de abril de 2025, uma exposição de cem fotos que supostamente materializavam as declarações presidenciais. As legendas que acompanhavam as imagens pretendiam ilustrar a criminalidade dos migrantes detidos pela polícia desde 20 de janeiro de 2025. Os voos fretados de deportados para quase todos os países latino-americanos acompanharam essa encenação denunciatória.
O México tem sido alvo recorrente de acusações de negligência em relação aos traficantes. Essas críticas foram seguidas de ameaças. Donald Trump declarou que, caso o México não fizesse a limpeza que deveria fazer espontaneamente, os Estados Unidos se considerariam livres para intervir em solo mexicano. Em resposta a uma jornalista em dezembro de 2025, Trump afirmou, por exemplo, que estava pronto para agir no México, do mesmo modo como vinha fazendo no Mar do Caribe [1]. A mensagem foi ouvida. Claudia Sheinbaum enviou ao vizinho dezenas de cidadãos em resposta à solicitação da justiça norte-americana. Em troca, ela aceitou receber os mexicanos expulsos dos Estados Unidos. Mas também renunciou a continuar seus fornecimentos de petróleo a Cuba, conforme exigido pelos Estados Unidos, e assinou com Washington um “Plano de Ação sobre Minerais Críticos”.
A Colômbia foi alvo de ataques em todas as frentes e isso desde os primeiros dias do mandato de Donald Trump. Ao recusar, em 26 de janeiro de 2025, a aterrissagem de aviões transportando colombianos deportados, Bogotá foi ameaçada com sanções comerciais. Gustavo Petro acabou cedendo. Alguns meses depois, no pódio da ONU, o chefe de Estado colombiano denunciou a guerra de Israel em Gaza. Paralelamente, ele participou de uma manifestação pró-palestina nas ruas de Nova York. Em 15 de setembro de 2025, a Colômbia perdeu sua certificação de país engajado na luta contra o tráfico de drogas. No dia 16, o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o “Clã do Golfo” como uma organização terrorista internacional [2]. Gustavo Petro, considerado complacente, se não cúmplice dos cartéis, perdeu, em 26 de setembro de 2025, seu visto de entrada nos Estados Unidos.
Em 2 de dezembro de 2025, Donald Trump declarou que Gustavo Petro era “bandido”. Após uma relativa pausa, no início de 2026, em 20 de março, a imprensa norte-americana noticiou, a poucas semanas das eleições presidenciais colombianas [3], que o nome de Gustavo Petro aparecia em várias investigações abertas nos Estados Unidos sobre o tráfico de drogas provenientes da Colômbia.
A Venezuela, assim como a Colômbia, foi alvo de agressões verbais por parte de Trump ao longo de todo o ano de 2025. Ela foi denunciada, não por suas violações dos direitos democráticos e das liberdades, mas como Estado e governo cúmplices do tráfico de drogas com destino aos Estados Unidos. A partir do mês de setembro de 2025, Donald Trump passou à ação. Ignorando qualquer legitimidade da ONU, Trump mandou afundar, na costa da Venezuela, por meio de seu exército, várias dezenas de embarcações vistas por ele como suspeitas, sem apresentar nenhuma prova de sua suspeição. Mandou matar suas tripulações, desrespeitando o direito do mar, os direitos humanos e o interesse de prender essas pessoas para investigar e identificar seus possíveis mandantes.
O desfecho é conhecido. Em 24 de novembro de 2025, o “Cartel dos Sóis” venezuelano foi incluído por Washington na lista de organizações terroristas. Apresentado como líder desse cartel, cuja existência ainda precisa ser comprovada, Nicolás Maduro foi sequestrado em 3 de janeiro de 2026 para ser julgado nos Estados Unidos. O processo em andamento, confuso, pode se prolongar por meses, ou até anos. Por outro lado, o petróleo venezuelano, que não pertence à família dos entorpecentes, foi oferecido por D. Trump, oito dias após a detenção de Nicolás Maduro, às 15 maiores empresas petrolíferas do mundo.
O Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva foi submetido a diversas pressões provenientes dos Estados Unidos. Mas, até agora, nenhuma parecia estar relacionada a entorpecentes. Essas disputas eram comerciais. Elas também tinham um pano de fundo ideológico, já que Donald Trump adotou sanções contra o juiz responsável pelo caso Bolsonaro após a condenação de seu “amigo” por participação em uma tentativa de golpe de Estado. Será que as coisas estão mudando? O Brasil elegerá seu presidente e seus parlamentares em outubro. Lula é candidato. Luis Inácio Lula da Silva, que foi descrito por Trump, com as expressões pitorescas que só ele sabe usar, como uma pessoa simpática. Mas Lula não faz parte dos “fãs” de Trump. Nada a ver com Bukele, Milei e outros como Noboa. Desde março de 2026, o Brasil e Lula, segundo um boato insistente, também poderiam entrar na categoria de países demonizados como suspeitos de simpatia com o narcoterrorismo. O Comando Vermelho, CV, e o Primeiro Comando da Capital, ou PCC, poderiam entrar na lista negra das organizações designadas como narcoterroristas por Washington, qualificação que legitimaria qualquer ingerência dos Estados Unidos. Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil, tomou a iniciativa e ligou para seu homólogo Marco Rubio para discutir o caso. De sua parte, Flávio Bolsonaro, candidato de extrema direita às eleições presidenciais de outubro de 2026, está fazendo campanha nos Estados Unidos para que o CV e o PCC entrem na lista de Trump de organizações narcoterroristas.
O Brasil possui importantes reservas de petróleo, mas, acima de tudo, grandes reservas de terras raras, que não pretende vender a preço de banana a interesses estrangeiros.
A moral da história, se assim se pode dizer desses acontecimentos atuais, é que Donald Trump usa e abusa da necessária luta contra o tráfico de drogas para outros fins. Essa luta diz respeito à segurança e à saúde públicas de todos os países do mundo. Sob a égide da ONU e da Organização dos Estados Americanos, foram tomadas iniciativas. O Brasil, a Colômbia e o México aderiram a elas, em plena soberania. Eles destacaram, com razão, que se tratava de uma questão que envolvia a responsabilidade de todos: países produtores e exportadores de cocaína e drogas sintéticas, assim como países consumidores, fabricantes de componentes, locais de lavagem de dinheiro e vendedores de armamentos.
Mas essa corresponsabilidade, aceita na época pelo presidente Obama, foi rejeitada por Trump. Para este, a culpa e o mal são atribuídos somente a países estrangeiros, em particular aos do Sul, aos da América Latina. A fim de proteger a população dos Estados Unidos, e alegando agir em nome desse objetivo, Donald Trump ameaçou intervir até mesmo militarmente nesses países, mas caso a ameaça não surta o efeito esperado, ele arroga-se o direito de fazê-lo de fato. Diante da aplicação efetiva dessa autojustificação, a constatação que se pode fazer é de duas ordens. Primeiro, as iniciativas tomadas não respeitam nem o direito internacional, nem a vida humana. Segundo, elas servem de pretexto para a subjugação dos países latino-americanos.
A colocação sob protetorado, algo incomum no século XXI, do hemisfério ocidental (o continente americano, segundo a terminologia norte-americana) é afirmada e reivindicada “preto no branco” em um documento publicado pela Casa Branca sobre a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América, em novembro de 2025. Doze Estados já aceitaram as regras que lhes foram indicadas por Donald Trump em Miami, no hotel Trump National Doral, hotel de que é proprietário: fazem parte do Escudo das Américas, que é o nome dessa aliança desigual, destinada a “destruir os cartéis criminosos”, a Argentina, a Bolívia, o Chile, a Costa Rica, o Equador, a Guiana, Honduras, o Panamá, o Paraguai, a República Dominicana, El Salvador e Trinidad e Tobago.
O Brasil, a Colômbia e o México não foram convidados a “fazer uma excursão”, para retomar uma expressão do presidente dos Estados Unidos, em Miami. Por outro lado, eles podem em breve acabar na lista negra do antiterrorismo, antecâmara da ingerência predatória tão cara ao “primeiro magistrado” da Casa Branca. A argumentação em duas vertentes do roteiro que prevê seguir, divulgado em novembro, dá a entender isso:
- “Queremos um hemisfério cujos governos cooperem conosco contra os narcoterroristas, os cartéis e outras organizações transnacionais”.
- “Os Estados Unidos devem ser preeminentes no hemisfério ocidental como condição para nossa segurança e prosperidade […]”.
Já é senso comum esse “corolário de Trump” à doutrina Monroe.
Notas
Texto publicado originalmente em francês, em 30 de março de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Le narcoterrorisme arme en couteau suisse de Donald Trump – Hier contre le Venezuela, bientôt la Colombie et demain le Brésil ?”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/132399.Tradução de Andrei Cezar da Silva e Luzmara Curcino.
[1] Em La Jornada, 10 de dezembro de 2025.
[2] Departamento de Estado dos Estados Unidos – Comunicado à imprensa, Designação do Clã do Golfo como organização terrorista, 16 de setembro de 2025.
[3] Marcadas para 31 de maio de 2026.
***
Jean Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Crédito: Link de origem