Não adianta só viver mais: precisamos colocar mais vida nos anos, diz médico americano expert em IA

Foto: divulgação/Afya

Daniel Kraftmédico, fundador da Exponential Medicine e criador da plataforma Digital.Health

Vivemos mais, mas nem sempre esses anos a mais vêm acompanhados de saúde. É a partir dessa preocupação que ganha força o conceito de healthspan — a expectativa de vida saudável —, que propõe deslocar o foco da longevidade pura e simples para a qualidade dos anos vividos. O médico americano Daniel Kraft, referência em inovação em saúde, é um defensor desse conceito.

Nada de fórmulas mágicas ou promessas de rejuvenescimento instantâneo — o que realmente funciona é aquilo que a ciência já valida há décadas, somado à prevenção e à detecção precoce de doenças, diz Kraft. Formado pela Stanford University, com treinamento em pediatria e oncologia, ele lidera discussões internacionais sobre inteligência artificial, biotecnologia, saúde digital e o futuro da assistência médica.

Entre os pilares para alcançar o healthspan, o básico bem feito — exercício, sono, nutrição, senso de comunidade e propósito — continua sendo o mais importante, mesmo em meio a novas tecnologias promissoras, ele diz.

Healthspan é colocar mais vida nos seus anos, e não apenas mais anos em número

Daniel Kraft, médico, fundador da Exponential Medicine e criador da plataforma Digital.Health

Sobre uma parcela das novas tecnologias, o médico alerta para um fenômeno crescente nos Estados Unidos que encontra espaço também no Brasil: o charlatanismo disfarçado de ciência, que circula especialmente nas redes sociais. “Até médicos promovem essas tecnologias muito antes de serem comprovadas ou terem evidência clínica relevante que as sustente.”

Ao mesmo tempo, pondera, há áreas da ciência que estão ficando “muito empolgantes” com ajuda da inteligência artificial. Para ele, a IA promete democratizar o acesso à saúde, personalizar diagnósticos e tratamentos, além de acelerar avanços como as vacinas personalizadas contra o câncer.

Mas isso não chega sem riscos: dados de treinamento pouco diversos, informações médicas incorretas replicadas em escala e a tentação de substituir o julgamento clínico humano por respostas de IA automatizadas e “bajuladoras”.

Kraft está no Brasil para palestrar no Afya Summit sobre as tecnologias e transformações que estão redefinindo a saúde. Veja a entrevista concedida pelo cientista ao Pulsa:

Daniel Kraft é fundador da Exponential Medicine e criador da plataforma Digital.Health Foto: Divulgação/A

O que é o conceito de healthspan que você defende e por que ele é mais importante do que a expectativa de vida em si?

Hoje existe muito interesse em longevidade. E longevidade significa, basicamente, o número de anos que você vive. Mas sabemos que, para muitas pessoas, os últimos 20, 30 anos de suas vidas podem ser de qualidade muito baixa. Então, existe essa ideia de qualidade de vida e de healthspan (expectativa de vida saudável), ou seja, colocar mais vida nos seus anos, e não apenas mais anos em número.

Eu acho que o objetivo para todo mundo na sociedade é melhorar o nosso healthspan e diminuir o nosso adoecimento, para que eventualmente possamos viver até os 110, 120 anos — mas quando estivermos com 110, não vamos sentir como se tivéssemos 110. Talvez sejamos tão ativos e cognitivamente capazes quanto éramos aos 50 ou 60 anos. Então, o conceito é comprimir o adoecimento e a mortalidade para que vivamos uma vida longa e saudável, e que não fique presa a esse elemento de doença que muitas pessoas enfrentam nos últimos anos de vida.

E o que podemos fazer para alcançar isso?

A genética certamente pode afetar sua saúde e seu healthspan. Mas há muitas coisas que você pode fazer, principalmente através do estilo de vida, que realmente podem estender seus anos saudáveis e prevenir o risco de várias doenças. E essas coisas não são tão “sexy”: exercício, sono, nutrição, comunidade e senso de propósito. Esses são, às vezes, os melhores remédios — particularmente exercício e dieta são provavelmente os mais impactantes. Não se trata de tomar alguma pílula mágica ou “terapia de luz vermelha” que vai estender nossa vida, e sim de fazer essas coisas que se somam ao longo dos anos e que, espero, poderemos projetar para nossa sociedade, nossas escolas, nossa saúde pública.

Falando em saúde pública, sabemos que o que mais contribuiu para nossa longevidade e nossa saúde não foi modificação genética nem alguma imunoterapia fantástica. Foram as vacinas e o saneamento básico, água limpa, que previnem doenças antes que as tenhamos.

Então você acredita que apenas adotar um estilo de vida saudável — inegavelmente importante — é suficiente para ultrapassar 100 anos de idade vivendo bem? Existe alguma tecnologia que, junto ao “básico bem feito”, pode acelerar isso?

O básico já é difícil de fazer bem, e não é a mesma coisa para todo mundo. Algumas pessoas têm certos riscos e talvez precisem ser rastreadas de forma diferente. Então, parte de viver uma vida saudável é a prevenção e a detecção precoce. Preste atenção em ser proativo quanto à sua saúde. Às vezes se trata de saber que você está em risco e ser proativo, fazer seu check-up anual, seus exames de rastreamento. Muitas pessoas estão desenvolvendo doenças e morrendo quando poderiam tê-las prevenido, se tivessem feito uma mamografia ou colonoscopia.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Cada vez mais, vamos caminhar para uma espécie de healthspan de precisão: o que vai ser bom para uma pessoa é bem diferente do que vai ser bom para outra, dependendo da idade, localização, personalidade e genética de cada um. E novas tecnologias — da genômica à medição de onde você viveu, ao que foi exposto, com quem convive, até o que você consome nas redes sociais e que política segue — todos esses fatores podem contribuir de formas diferentes (para o seu healthspan).

De que forma o consumo das mídias sociais impacta a longevidade?

Eu diria que a informação é um instrumento social de saúde, incluindo a desinformação. Nos Estados Unidos, durante a pandemia, podíamos ver, pelo código postal, que áreas muito republicanas eram, em muitos casos, resistentes a máscaras e vacinas. A mortalidade delas era muito mais alta do que em áreas mais democratas, onde as pessoas prestavam atenção nas medidas de saúde pública e se vacinavam. Então, a informação pode ser um elemento muito importante, e a desinformação pode ser muito poderosa também, não só para sua vida individual, mas para sua comunidade, seu país.

Hoje, quando falamos de tecnologia, parece que estamos falando sempre de IA. Onde a IA realmente entrega benefícios para o sistema de saúde?

Inteligência artificial não é nova, mas está em sua fase exponencial agora e realmente está começando a se integrar em praticamente todas as partes da cadeia de cuidados da saúde — desde bem-estar e prevenção, passando pelo healthspan, até melhores diagnósticos, terapia mais personalizada e saúde pública e global. É um campo muito amplo, mas o que acho mais empolgante é que está começando a democratizar o acesso à informação de saúde para qualquer pessoa. Você vai ter, no seu celular, seu médico de saúde pessoal, que sabe sobre você desde seu nascimento. Ele pode saber sua genômica, seus dados digitais da sua camiseta inteligente, ter seus prontuários médicos, saber seu tipo de personalidade e como te dar aquele empurrãozinho para ir à academia em vez de comer uma bolacha.

A informação é um instrumento social de saúde

Daniel Kraft, médico, fundador da Exponential Medicine e criador da plataforma Digital.Health

E o desafio com a saúde é que ela é muito difícil de acessar, especialmente em partes do Brasil, em cidades rurais, na Amazônia, onde é preciso percorrer longas distâncias para ver um médico — se é que há um médico disponível. Há uma oportunidade real de engajar mais as pessoas na sua saúde e, então, quando elas tiverem um problema médico, em vez de tratá-las como um paciente médio, realmente vamos entender o que vai ser melhor em um nível altamente pessoal e de precisão. Porque muitas terapias que fazemos são meio iguais para todos. (Com a IA), baseado na sua genética, no seu proteoma, no seu peso e no seu estilo de vida, poderíamos escolher algo bem diferente, específico para você.

Ter acesso a informações de saúde que parecem confiáveis sem o intermédio de um profissional habilitado também é um grande risco. Aqui, no Brasil, um caso deixa isso claro: uma reportagem do Sleeping Giants perguntou a vários chatbots de IA dúvidas sobre vacinação, incluindo pedidos de argumentos para um pai não vacinar o filho, e muitas plataformas apresentaram respostas que colocam em cheque a imunização.

Este é um ótimo ponto: a IA não é perfeita, e não pense que será perfeita no futuro. Depende de quem a treinou, de quais dados ela tem, de que diretrizes e prompts você usa. Frequentemente ela pode ser muito bajuladora e quer agradar o usuário, como quem diz: “Você é tão inteligente, você está certo”. Então, precisamos que nossas soluções de IA — algumas delas já estão sendo reguladas — não sejam apenas seguras, mas também eficazes para os pacientes, médicos e enfermeiros que as usam. E, em alguns casos, precisamos fazer testes: será que essa aplicação ou plataforma de IA salva e melhora a saúde, economiza dinheiro e melhora a experiência? Precisamos medir essas coisas.

Muitas pessoas estão colocando IA na saúde com muito entusiasmo e achando que vai ser útil, mas, em alguns casos, ainda pode ser perigoso — você pode receber a dose errada, o tipo errado de remédio ou a cirurgia errada.

A IA não é perfeita, depende de quem a treinou, de quais dados ela tem, de que diretrizes e prompts você usa. Frequentemente ela pode ser muito bajuladora, quer agradar o usuário. Em alguns casos, pode ser perigoso.

Daniel Kraft, médico, fundador da Exponential Medicine e criador da plataforma Digital.Health

E quanto ao risco de profissionais perderem a criticidade e a capacidade de julgamento próprio, como podemos evitar isso?

É um desafio: como não perdemos a habilidade e passamos a usar a tecnologia sem usar nosso próprio cérebro? Sam Altman, cofundador da OpenAI, disse que o GPT é como uma bicicleta para a mente — deixa mais fácil, você não precisa pedalar tão forte. Mas o problema é: e se seus filhos nunca aprenderem a andar de bicicleta de verdade? Ou nunca desenvolverem o músculo da bicicleta? Ou um estudante de medicina nunca aprender a construir um diagnóstico diferencial sozinho? Há certas coisas que não podemos deixar de ter. Então eu acho que queremos melhorar o lado humano da saúde, mas aproveitar a tecnologia, incluindo a IA, de formas inteligentes para melhorar a saúde de todos.

Você é cético em relação a algo no mercado de longevidade hoje?

Há um grande desafio hoje, em que muitas pessoas recebem informação sobre saúde e longevidade de influenciadores. Essas são as pessoas a quem você deveria recorrer para conselhos de saúde? Não. Muitas vezes elas estão tentando te vender algo improvável, em alguns casos charlatanismo, que não tem quase nenhum valor e pode até ser perigoso. Terapia de células-tronco, exossomos, terapia de luz vermelha, peptídeos, suplementos, NAD… Há uma lista longa, infelizmente. Muita gente está empurrando coisas que ainda não foram comprovadas, que ainda não passaram por ensaios clínicos. Às vezes, até médicos promovem essas tecnologias muito antes de serem comprovadas ou terem evidência clínica relevante que as sustente.

Ao mesmo tempo, parte da ciência está ficando muito empolgante, principalmente em modelos animais, onde conseguimos fazer células ficarem “mais jovens”, ou aprender a aproveitar até vacinas já existentes. Um exemplo que mostra essas coisas se unindo: tecnologias avançadas, como vacinas de mRNA, catalisadas pela pandemia, estão sendo aplicadas a vacinas personalizadas contra câncer, como mostrou um estudo publicado pela Moderna em parceria com a Merck. Nele, testaram o Keytruda, um medicamento que frequentemente “libera o freio” do sistema imunológico contra o câncer em combinação com vacinas personalizadas para pacientes que tiveram melanoma (câncer de pele). Então, usando IA e sequenciamento, conseguiram desenvolver uma vacina para cada paciente, com base na infraestrutura de mRNA que foi acelerada e construída durante a pandemia da covid-19. E os resultados são bastante impressionantes, de verdade. Esse é o começo não só de uma nova forma de tratar câncer de pele, mas talvez de uma plataforma para muitos outros cânceres — como de pulmão, ovariano, mama e além.

Então, há um equilíbrio entre estar animado para promover saúde e longevidade, sem deixar que as pessoas te vendam coisas que são imprevisíveis e, em alguns casos, perigosas.

Em que a IA nunca vai conseguir substituir os médicos e demais profissionais da saúde?

O que a IA realmente ainda não faz é substituir a relação clínica humana, que pode ser muito terapêutica. Se eu sou seu médico, mesmo que eu te veja só uma vez por ano, nós temos uma relação. E mesmo se eu usar ferramentas de IA para te avaliar, você vai estar muito mais engajado na sua saúde se souber que tem um profissional cuidando de você. Precisamos usar tecnologia, incluindo IA, para potencializar o lado humano da saúde — minha capacidade de estar em contato com você, de passar tempo cara a cara na clínica, em vez de ficar escrevendo prontuário. Isso pode ser uma parte poderosa da medicina — podemos deixar a tecnologia fazer as partes em que nosso cérebro não é tão bom, como saber cada exame.

As inovações podem empolgar, mas irão chegar aos sistemas públicos de saúde, como o SUS aqui no Brasil, ou vão ficar limitadas a quem pode pagar do próprio bolso?

As tecnologias vão ajudar a democratizar e, tenho esperança, melhorar a saúde e a medicina no mundo todo, trazendo, no fim, melhores resultados a um custo menor — porque sabemos que, com a trajetória de crescimento populacional em muitos países, e com o custo da saúde representando quase 20% do PIB dos Estados Unidos, é insustentável continuar nesse caminho.

Muitas tecnologias começam caras, mas, depois, ficam muito mais disponíveis e baratas. Dado que muitas dessas tecnologias estão chegando às mãos de todos, isso pode realmente tornar o acesso à saúde possível a qualquer momento, em qualquer lugar, para qualquer pessoa. No SUS, você pode ser mais inteligente em levar cuidado até uma igreja, uma casa de repouso, uma escola, uma barbearia. Isso significa que, em vez de dar formulários de papel às pessoas ou fazê-las esperar em filas, elas podem ter seu próprio agente de saúde (digital), o que pode ajudá-las a receber ajuda quando precisam, com uma interface de usuário melhor. Mas isso precisa ser hiperlocal — o que funciona em São Paulo pode não funcionar no Rio e em Nova York.

Crédito: Link de origem

- Advertisement -

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.