Lula autoriza devolução do canhão El Cristiano ao Paraguai

Peça de 12 toneladas é símbolo paraguaio e remete a combates travados no atual território de MS

Canhão El Cristiano, levado pelo Exército brasileiro como troféu da Guerra do Paraguai, hoje está no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro (Foto: Reprodução)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) autorizou o Brasil a devolver ao Paraguai o histórico canhão El Cristiano, levado pelo Exército brasileiro como troféu da Guerra do Paraguai. A informação foi publicada pela jornalista Bela Megale, colunista de O Globo, nesta terça-feira (18).

Lula autorizou a devolução ao Paraguai do canhão El Cristiano, levado pelo Exército brasileiro como troféu da Guerra do Paraguai. A peça, que pesa 12 toneladas e está no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, foi fabricada em 1867 com bronze de sinos de igrejas. A entrega ainda depende de negociações pelo Itamaraty e da retirada da proteção patrimonial brasileira. Não há data definida para a transferência.

Segundo a colunista, o aval foi dado durante uma reunião realizada no fim de julho entre Lula, os comandantes das Forças Armadas e o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro. Apesar da decisão presidencial, a entrega ainda depende de negociações e procedimentos que deverão ser conduzidos pelo Itamaraty.

A devolução envolve uma peça diretamente ligada a um conflito que deixou marcas profundas no território que atualmente forma Mato Grosso do Sul. A Guerra do Paraguai, travada entre 1864 e 1870, começou para o Brasil com a apreensão do vapor Marquês de Olinda e a ofensiva paraguaia contra a então Província de Mato Grosso. Em dezembro de 1864, tropas paraguaias avançaram sobre a região.

Parte importante dessa campanha ocorreu justamente no atual território sul-mato-grossense. O Forte Coimbra foi atacado ainda em dezembro de 1864. Dias depois, ocorreu o combate na Colônia Militar dos Dourados, onde o tenente Antônio João Ribeiro e seus homens enfrentaram as forças paraguaias. Corumbá também foi ocupada pelas tropas de Francisco Solano López e permaneceu sob domínio paraguaio até a retomada brasileira.

A guerra também está ligada a outro episódio emblemático da história regional, a Retirada da Laguna, ocorrida em 1867 e posteriormente registrada pelo escritor e militar Visconde de Taunay.

Por isso, embora o El Cristiano nunca tenha pertencido a Mato Grosso do Sul, a discussão sobre sua devolução envolve um capítulo histórico particularmente próximo do Estado. Documentos e pesquisas sobre a história regional tratam a invasão e o domínio temporário paraguaio sobre áreas hoje sul-mato-grossenses como um dos episódios mais dramáticos da formação histórica local.

Feito com sinos – O El Cristiano pesa cerca de 12 toneladas e foi fabricado no Paraguai em 1867 com bronze retirado de sinos de igrejas. O próprio nome, que significa “O Cristão”, faz referência à origem religiosa do metal utilizado na fabricação. Atualmente, a peça integra o acervo do MHN (Museu Histórico Nacional), no Rio de Janeiro.

O canhão foi apreendido pelas forças brasileiras durante a campanha contra a Fortaleza de Humaitá, em 1868, uma das principais posições defensivas paraguaias durante a guerra. Desde então, tornou-se, ao mesmo tempo, um troféu de guerra para o Brasil e um símbolo de resistência e sacrifício nacional para o Paraguai.

O governo paraguaio reivindica a devolução da peça há anos. A cobrança ganhou novo impulso após uma declaração de Lula sobre o conflito. Em julho, o presidente afirmou que o Brasil gosta de paz, mas que, em determinado momento, o Paraguai decidiu invadir o País.

A fala provocou reação do governo paraguaio. Assunção apresentou uma manifestação formal ao Brasil e voltou a cobrar a devolução do El Cristiano, do canhão Presidente López e de outros objetos levados após a guerra. O Paraguai também pediu acesso a documentos históricos brasileiros relacionados ao conflito.

Essa devolução, porém, não deve ser imediata. Além das negociações diplomáticas entre os dois países, existe uma questão patrimonial a ser resolvida. O El Cristiano é protegido como patrimônio histórico brasileiro, e a retirada dessa proteção será necessária para que a peça possa deixar definitivamente o País.

Não há, até o momento, data anunciada para a transferência do canhão ao Paraguai.

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