Latino-americanas, com orgulho: como Brasil, Chile e Uruguai apoiam agtechs | Inovação

Guadalupe Tiscornia, do Inia do Uruguai: certificação visa acelerar adoção de tecnologia rural — Foto: Divulgação

A iCrop, especialista em gestão de irrigação, lançou uma estação meteorológica que, depois de despachada de sua sede, em Uberlândia (MG), pode ser instalada pelo próprio agricultor. A Gênica, produtora de bioinsumos de Piracicaba (SP), aposta em um programa que combina microrganismos, fertilizantes orgânicos, plantas de cobertura e técnicas de manejo para tornar as lavouras mais resistentes ao aquecimento global. Do outro lado dos Andes, em Coihueco, no Chile, a GeoTrace desenvolveu um sistema que transforma dados de sensores de umidade do solo em recomendações práticas de irrigação, enviadas por WhatsApp.

O trio de empresas está entre as 2.653 startups do agronegócio (agtechs) mapeadas pelo Radar Agtech da América Latina e Caribe, levantamento produzido pela Embrapa em parceria com a SP Ventures, gestora especializada em agtechs, com a consultoria Homo Ludens e com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA). Em comum, iCrop, Gênica e GeoTrace recorrem a fazendas-laboratório e outros ambientes compartilhados que vêm surgindo nos últimos anos para testar, aprimorar, validar e demonstrar novas tecnologias. O objetivo é encurtar o caminho entre o laboratório e o mercado, com o apoio da estrutura da Embrapa e de instituições equivalentes no Chile e no Uruguai.

No Brasil, a Gênica e a iCrop estão entre as cerca de 30 empresas que, desde maio de 2024, procuraram o Agnest, fazenda-laboratório da Embrapa em Jaguariúna (SP). Também entrou nessa comunidade a argentina Deep Agro, que valida uma tecnologia para aplicação seletiva de herbicidas. No Chile, a Geotrace recorreu ao Smartfield, programa do Instituto de Pesquisas Agropecuárias (Inia) do país para tornar seu sistema de gestão de irrigação mais amigável aos usuários. Já no Uruguai — o país com mais agtechs per capita na América Latina —, soluções testadas e aprovadas podem conquistar o selo do programa Converge, coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária (que também usa a sigla Inia). Nos três países, as iniciativas também incluem a demonstração dos produtos a possíveis clientes no campo e em eventos variados.

— Foto: Arte/Valor

Os programas também podem aproximar startups de investidores. “Visitamos com frequência espaços assim, que servem de canais para originação de negócios”, afirma Pedro Faria, sócio da SP Ventures, gestora investidora da Gênica. O supervisor de ecossistemas de inovação da Embrapa, Vitor Mondo, pensa parecido. “O investidor deixa de olhar um PowerPoint e passa a olhar uma situação real da aplicação da solução”, declara.

No caso da iCrop, os testes e ajustes no local permitiram definir a versão definitiva da estação meteorológica para autoinstalação. “É uma maneira de acessar uma propriedade rural real, simulando exatamente a experiência de um agricultor”, afirma Daniel Campanelli, diretor de tecnologia da empresa.

Na sua avaliação, a fazenda-laboratório também ajuda a atrair clientes. “Precisamos de um parceiro como eles para conseguir mostrar ao agricultor uma nova forma de fazer manejo de doenças”, diz Gerson Marquesi, diretor de pesquisas e operações industriais da Gênica. “O efeito demonstração é muito importante para agtechs, pois produtores rurais tendem a ser conservadores na adoção de novas tecnologias”, sustenta Luiz Sakuda, sócio-fundador da Homo Ludens.

Gerson Marquesi, da Gênica: iniciativa Agnest, da Embrapa, ajuda a abordar os agricultores — Foto: Divulgação

No Chile não é diferente. “Os usuários das tecnologias me dizem: ‘Recebo muitas empresas dizendo que suas tecnologias são maravilhosas, mas como acreditar?’” , conta Stanley Best Sepúlveda, líder da área de agricultura digital do Inia. A resposta pode vir do programa SmartField da instituição, que possibilita a startups testar e validar suas soluções em condições reais de produção.

A iniciativa foi criada em 2021 para reduzir o desequilíbrio entre a oferta crescente de tecnologias digitais e a dificuldade dos produtores para adotá-las. Desde então, 20 empresas receberam orientação do Inia para aperfeiçoar seus produtos. A GeoTrace tornou seus sensores mais resistentes, passou a usar imagens de satélite para definir os pontos de instalação e simplificou a plataforma. Em vez de gráficos e listas de dados, os agricultores passaram a receber recomendações de irrigação pelo WhatsApp. Para Best, a simplicidade na utilização pode ser decisiva para uma nova tecnologia conquistar o mercado. “Criamos o SmartField como um shopping center, onde empresas, pesquisadores e produtores se encontram para desenvolver e validar soluções”, afirma.

Agora, o próximo passo para o SmartField — e também para o Agnest — será criar um selo para as soluções validadas. No Uruguai, a iniciativa já existe. É a certificação emitida pelo programa Converge, lançado pelo Inia do país em parceria com o Bid Lab, laboratório de inovação e empreendedorismo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Stanley Best, do Inia do Chile: programa testa e valida sistemas criados pelas startups — Foto: Divulgação

Desde 2024, o selo é concedido a soluções aprovadas em um processo de verificação técnica e de validação em campo, realizado em uma das cinco estações experimentais do Inia ou em outras propriedades rurais. Além do desempenho técnico, a avaliação considera critérios como usabilidade e potencial de adoção pelos produtores. “O objetivo é fazer os produtores agropecuários adotarem mais soluções digitais”, diz Guadalupe Tiscornia, coordenadora da área de sistemas de informação e transformação digital do Inia do Uruguai.

O programa já concedeu 25 selos e outras 25 empresas estão em processo de certificação. Além de ganhar credibilidade, as startups certificadas podem se candidatar a linhas de financiamento vinculadas ao programa.

O Converge também atende empresas de outros países. A brasileira iCrop busca o selo uruguaio e, na sequência, a certificação regional do Programa Cooperativo para o Desenvolvimento Tecnológico Agroalimentar e Agroindustrial do Cone Sul (Procisur), tudo para facilitar as exportações para a região. “Vamos mostrar que, se testamos e funcionamos no Uruguai e no Brasil, vamos funcionar em outros lugares também”, diz Campanelli.

Iniciativas como o Converge ajudam a fazer do Uruguai o país com a maior concentração de agtechs da América Latina em relação ao tamanho da população. São 21,1 startups por milhão de habitantes, mais que o dobro das 9,6 registradas no Brasil. Para Tiscornia, a vantagem uruguaia vem de fatores como a tradição do país no desenvolvimento de software, a importância da agropecuária, a chegada de agtechs estrangeiras (sobretudo argentinas) e o ambiente favorável, com instituições científicas, incubadoras e uma agência nacional de fomento a pesquisa e inovação.

O território pequeno também colabora. “O país é do tamanho de um Estado médio brasileiro e a concentração de pesquisadores, empresas e tomadores de decisão facilita o desenvolvimento das agtechs”, diz Sakuda, da Homo Ludens.

Já em números absolutos, o Brasil, com o maior PIB e população da região, concentra o maior número de agtechs, com 2.075 — 78% do total —, seguido por Argentina (158) e México (108).

O levantamento também mostra que as soluções digitais predominam, com 1.404 das 2.653 startups. Para Aurélio Favarin, analista de inovação da Embrapa e editor-técnico do Radar Agtech, a liderança do segmento reflete a rápida incorporação de tecnologias como sensores, drones, inteligência artificial e software de gestão no campo. Também pesa a crescente demanda por sistemas integrados. “As soluções do mercado muitas vezes não se comunicam, e isso abre oportunidade para startups desenvolverem ferramentas que integrem esses sistemas”, afirma — sugerindo um caminho para os empreendedores interessados.

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