Keiko Fujimori chega à presidência do Peru diante do desafio de combater o crime e unir um país dividido – Brasil 247

247 – Após três derrotas consecutivas em disputas presidenciais decididas por margens apertadas, Keiko Fujimori finalmente chegará ao Palácio do Governo do Peru. A líder direitista, de 51 anos, tomará posse em 28 de julho de 2026, data em que o país celebra sua independência, tornando-se a primeira mulher eleita para a Presidência peruana e assumindo o cargo diante de uma missão que, embora pareça elementar, tornou-se rara na política nacional: concluir integralmente um mandato de cinco anos.

Segundo reportagem do jornal espanhol El País, esse objetivo não é trivial. Os oito presidentes que antecederam Fujimori na última década não conseguiram completar seus mandatos, em meio a sucessivas crises políticas, processos de impeachment, renúncias e confrontos entre o Executivo e o Congresso. A nova presidente assume um país profundamente dividido, onde a estabilidade institucional será tão importante quanto a recuperação da confiança da população.

Keiko Fujimori venceu o candidato de esquerda Roberto Sánchez por uma diferença de aproximadamente 49 mil votos, menos de 1% do eleitorado. Sánchez obteve a maioria dos votos dentro do território peruano, mas o resultado foi revertido pela votação dos cidadãos residentes no exterior.

A vitória apertada revela a profundidade das divisões políticas e sociais do Peru. Fujimori terá de governar uma sociedade marcada pela desigualdade, pelos conflitos ideológicos e pelas tensões territoriais. O sul do país, mais pobre e de maioria indígena, permanece como um dos principais focos de resistência ao fujimorismo.

Além disso, a presidente eleita terá de convencer a metade do eleitorado que não votou nela de que pretende construir um governo diferente daquele que seus adversários associam ao legado de seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori.

Discurso de conciliação

Desde o encerramento da campanha, Keiko Fujimori passou a adotar um tom mais moderado. Em seus pronunciamentos, afirma que pretende “iniciar um caminho de ordem e esperança”, “buscar a reconciliação e a unidade” e “governar para todos os peruanos”.

Ainda não está claro, porém, como esse discurso será traduzido em ações concretas. A oposição de esquerda, movimentos sociais, entidades de direitos humanos e organizações feministas permanecem mobilizados contra sua chegada ao poder.

Esses grupos formam o chamado antifujimorismo, movimento que durante anos teve como principal objetivo impedir que Keiko chegasse à Presidência. Embora não tenha conseguido derrotá-la desta vez, continuará sendo uma importante força de oposição ao novo governo.

A esquerda também questiona o resultado eleitoral. Seus representantes apresentaram denúncia de suposta fraude à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e convocaram manifestações contra a presidente eleita.

Segurança pública será a prioridade

O maior desafio imediato do novo governo será enfrentar a insegurança pública, considerada hoje a principal preocupação dos peruanos.

Dados da Promotoria citados pelo El País mostram a dimensão da violência em Lima. Entre 2024 e o período mais recente analisado, 152 pessoas foram assassinadas em atentados relacionados à extorsão de motoristas.

O crime atinge principalmente trabalhadores do transporte coletivo, mas também pequenos comerciantes e empresários submetidos à cobrança de dinheiro por organizações criminosas.

Durante a campanha, Fujimori prometeu uma política de enfrentamento direto ao crime organizado. Entre as medidas defendidas estão o ataque às estruturas financeiras das quadrilhas, o patrulhamento do transporte público por militares e a obrigatoriedade de trabalho para presos custearem sua alimentação.

A presidente eleita também associou sua proposta de segurança ao legado do governo de seu pai, que derrotou militarmente grupos como o Sendero Luminoso e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru durante a década de 1990.

Essa referência, entretanto, continua dividindo a sociedade peruana. Embora muitos reconheçam o papel do governo Alberto Fujimori no combate ao terrorismo, outros lembram que esse período também foi marcado por graves violações de direitos humanos.

Aproximação com os Estados Unidos e governos de direita

No cenário internacional, Keiko Fujimori encontrará um ambiente politicamente favorável. Diversos governos de direita e de extrema direita da América Latina saudaram sua vitória.

Presidentes como Nayib Bukele, de El Salvador, Javier Milei, da Argentina, e Abelardo de la Espriella, da Colômbia, enviaram mensagens públicas de felicitação.

O governo dos Estados Unidos, comandado pelo atual presidente Donald Trump, também comemorou o resultado. Em comunicado, o Departamento de Estado destacou especialmente a cooperação na área de segurança.

“A Administração Trump espera com entusiasmo aprofundar a colaboração com a Administração Fujimori para impulsionar a cooperação em matéria de segurança e fortalecer a cooperação bilateral em investimento e comércio em nossa região.”

Fujimori respondeu ao embaixador norte-americano oferecendo “a melhor disposição” para fortalecer as relações bilaterais.

“Estamos prontos para trabalhar conjuntamente desde o primeiro dia.”

A troca de mensagens sinaliza que segurança, investimentos e comércio deverão ocupar posição central na relação entre Lima e Washington.

Reformas econômicas e estabilidade

Uma das primeiras iniciativas de Keiko Fujimori após a confirmação oficial da vitória foi visitar o Banco Central de Reserva do Peru.

Na reunião, convidou o presidente da instituição, Julio Velarde, a permanecer no cargo por mais cinco anos. Velarde aceitou imediatamente.

A medida busca transmitir uma mensagem de continuidade da política monetária e estabilidade aos mercados financeiros.

Velarde dirige o Banco Central desde 2006 e atravessou governos de dez presidentes diferentes, tornando-se um dos principais símbolos da estabilidade econômica peruana em meio às sucessivas crises políticas.

Fujimori também anunciou como prioridades a atração de investimentos privados, o fortalecimento das pequenas empresas e um plano nacional de preparação para o fenômeno climático El Niño, cuja intensidade pode aumentar em razão das mudanças climáticas.

Medidas inspiradas em Milei

Desde a oficialização dos resultados eleitorais, Keiko Fujimori passou a divulgar vídeos curtos nas redes sociais mostrando a preparação da transição de governo.

Nas gravações, conversa por telefone ou videoconferência com dirigentes políticos, presidentes e diplomatas.

Entre eles estão o líder da oposição espanhola, Alberto Núñez Feijóo, a opositora venezuelana María Corina Machado, o presidente argentino Javier Milei e o embaixador da China.

Em conversa com Milei, Fujimori reclamou da burocracia existente no Estado peruano e afirmou que pretende aplicar medidas “parecidas” com as implementadas pelo presidente argentino.

Congresso dará sustentação, mas também ampliará os conflitos

Embora o partido Força Popular possua a bancada mais disciplinada e numerosa do Congresso, o novo governo deverá enfrentar forte oposição política.

Críticos acusam o fujimorismo de ter contribuído decisivamente para a instabilidade institucional dos últimos anos por meio de sua atuação parlamentar.

Recentemente, o Congresso aprovou uma lei, impulsionada pelo Força Popular, que transfere para a Justiça Militar os crimes cometidos por policiais e militares.

Organizações de direitos humanos afirmam que a medida poderá aumentar a impunidade em casos de violações praticadas por agentes do Estado.

A cientista política Paula Távara demonstrou preocupação com a concentração de poder.

“O que vem é um endurecimento do poder executivo, ameaçar a independência do restante das instituições. [O fujimorismo] já controla o Tribunal Constitucional, a Defensoria do Povo, os militares, a Promotoria…”

Segundo ela:

“O mais próximo de uma oposição institucional é o Poder Judiciário.”

O peso do sobrenome Fujimori

A nova presidente assumirá o cargo carregando um dos sobrenomes mais controversos da história peruana.

Alberto Fujimori governou o país entre 1990 e 2000, promoveu um autogolpe, fechou o Congresso, interveio no Judiciário e posteriormente foi condenado por crimes contra a humanidade relacionados a massacres e outras violações dos direitos humanos.

Durante a campanha, Keiko procurou destacar principalmente o combate ao terrorismo realizado pelo governo de seu pai.

Essa estratégia, porém, intensificou os receios de setores da sociedade preocupados com a preservação da memória histórica e com a defesa dos direitos humanos.

O partido Força Popular também apoiou leis destinadas a beneficiar policiais e militares investigados ou condenados por violações ocorridas durante o conflito interno que marcou o Peru entre os anos 1980 e 2000.

A disputa pela memória histórica

O historiador Manuel Burga, ex-diretor do Lugar da Memória, da Tolerância e da Inclusão Social, defende que o Peru preserve a lembrança tanto dos crimes cometidos pelas organizações terroristas quanto das violações praticadas pelas Forças Armadas.

Ao comentar o futuro governo, Burga afirmou:

“Não acredito que estejam interessados na memória. Estão interessados na memória daqueles que eles chamam de vencedores do terrorismo e restauradores da democracia.”

Para o historiador, os espaços dedicados à memória não podem ser subordinados aos interesses de governos.

“A riqueza da memória está em sua diversidade e na aceitação que tenha na sociedade civil. O que o Estado não deve fazer é fomentar um direcionamento, porque isso se transformaria em manipulação das memórias.”

Burga lembra ainda que cerca de 20 mil pessoas continuam desaparecidas em consequência do período de violência política vivido pelo Peru.

A ex-diretora da Anistia Internacional no Peru, Teresa Carpio, também vê semelhanças entre o discurso atual de Keiko Fujimori e o governo de seu pai.

“Foi um período de nossa história em que não se respeitou a independência dos poderes nem os direitos humanos. Ao contrário, a ideia de ordem era controlar a sociedade, a informação e todas as instituições.”

Segundo Carpio, algumas leis aprovadas recentemente pelo Congresso antecipam a direção que poderá ser seguida pelo novo governo.

“São leis que estão em consonância com tudo o que fez o pai. Passamos anos fazendo campanha contra a tortura e pela não perseguição de jornalistas. Mas tudo indica que estamos diante de uma volta ao passado, que já começou antes mesmo de ela tomar posse.”

Assim, antes mesmo da cerimônia marcada para 28 de julho, o novo governo já enfrenta um dos principais desafios de sua gestão: convencer parte significativa da sociedade peruana de que seu compromisso é construir o futuro do país sem reabrir as feridas mais profundas de seu passado.

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