José Pedro Chantre d’Oliveira, embaixador de Cabo Verde no Brasil

Cabo Verde e Brasil vivem um momento de forte proximidade política e histórica, mas a relação bilateral continua longe de explorar todo o seu potencial, defende José Pedro Chantre D’Oliveira. No final da sua missão como embaixador de Cabo Verde no Brasil, o diplomata considera que o país deve abandonar “a conversa e os sonhos” e assumir-se, com urgência, como plataforma de investimentos e ligação entre o Brasil e África, aproveitando a dimensão estratégica da relação e a visibilidade conquistada com a participação dos Tubarões Azuis no Mundial 2026.

As relações entre Cabo Verde e o Brasil atravessam um momento particularmente positivo, mas muitos analistas defendem que continuam aquém do potencial existente. Partilha desta leitura? Como caracteriza actualmente o estado da relação bilateral?

Com certeza que sim! A relação bilateral é e será sempre ótima seja qual for o governo de um lado ou de outro. É tão profunda que parece umbilical, muito mais conhecida por nós, o que também é compreensível dado ao peso específico de cada um, o que me levou à comparação do Brasil a um elefante eCabo Verde uma formiga com Alma de elefante”.Concordo plenamente que a cumplicidade entre o elefante e a formiga tem tudo para produzir mais e melhores frutos. Mas, para além da relação bilateral, os países se encontram nos fóruns multilaterais como, por exemplo, a ONU, a CPLP, a ZOPACAS onde também existem enormes e valiosos potenciais a serem explorados a bem de cada um. Portanto, subscrevo inteiramente o que certos observadores dizem sobre estarmos aquém do potencial existente.

Onde estão hoje as maiores oportunidades ainda por aproveitar?

A cooperação Brasil/Cabo Verde, antes dos anos 90, reduzia-se a algumas importantes bolsas de estudo para ajudar-nos a resolver o problema do déficit de quadros superiores. No entretanto, Cabo Verde mudou e muito, com a colaboração de países amigos onde se inclui o Brasil e, hoje, os dois lados pretendem mais. As oportunidades maiores da actualidade não são as prioritárias daquela altura e, felizmente, as mudanças elevaram os patamares das nossas exigências. Na minha opinião, a cooperação actual pode ser mais interessante porque é complementar em várias áreas do desenvolvimento. Isto é, as maiores oportunidades estão na economia, no comércio internacional, na inovação, na defesa, na cultura e nos mais díspares sectores como turismo e investimentos.

Há vontade política dos dois lados para elevar esta relação a outro patamar?

Penso que vontade política, apesar de importante, não é determinante e existe dos dois lados. Eu diria que o interesse despertado por cada país é que é diferente e por razões lógicas dado as dimensões dos respetivos mercados. Cabo Verde só se torna interessante para o Brasil quando se apresenta como ponte para o continente africano, especificamente para CEDEAO. No sentido contrário, os números de uma população como a nossa não são visíveis e, muito menos, atractivos para o gigantesco mercado brasileiro que prioriza destinos e parceiros como EUA, China, Japão, Médio Oriente, Europa e, claro, Mercosul de que faz parte como a primeira economia com 70% do PIB da América do Sul. Antes de tudo, devemos ter a percepção das dimensões e da nossa realidade e é sobre ela que devemos assentar os sonhos e projectos do desenvolvimento de Cabo Verde.

O Governo decidiu avançar com a construção da nova Chancelaria em Brasília. Em que fase está actualmente este projecto de construção da chancelaria e qual será o impacto dessa infraestrutura para a diplomacia cabo-verdiana?

O Governo de Cabo Verde ainda não avançou, mas o Embaixador já havia entregado o dossier ao anterior Governo e acaba de fazer o mesmo com o actual, numa versão mais completa. Dentro do princípio de reciprocidade, porque o Estado de Cabo Verde doou o terreno em ASA onde o Brasil construiu a residência do Chefe de Missão na Praia, recebeu um excelente lote no Sector Norte das Embaixadas, em Brasília, com 15.750m2 onde, o arquitecto cabo-verdiano, Vander Delgado, residente em Minas Gerais, a nosso convite, desenvolveu o projecto com 2 edifícios para a futura Chancelaria e Residência do Chefe de Missão, actualmente instalados em prédios alugados. Na nossa opinião, o próximo representante de CV deve receber luz verde para avançar com a implementação desse projecto que, para além do património do Estado de Cabo Verde a ser criado, eliminam-se as despesas com os arrendamentos.

O embaixador de Cabo Verde no Brasil tem igualmente a responsabilidade de acompanhar vários países da América do Sul? Até que ponto esta realidade condiciona o trabalho diplomático?

Deveria ser assim, aliás, como é feito por quase todos os países extra-regionais, que utilizam Brasília como o centro de sua diplomacia para cobrir toda a América do Sul, mas infelizmente até agora o Embaixador de Cabo Verde não é investido para essa responsabilidade, apesar da insistência do nosso Chefe de Estado. A nossa Chancelaria de ASA achou por bem meter o processo na gaveta que havia sido, compreensivelmente, iniciado pelo então Ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Filipe Tavares e recebido a pronta anuência do Presidente José Maria Neves. Paradoxalmente, os assuntos de Cabo Verde com os países da Região são tratados pela nossa Embaixada em Lisboa, a mais de 7 mil quilómetros de distância. Não passa pela cabeça de nenhum ser pensante. Mas, é isso!…

Apesar da proximidade histórica e cultural, o comércio entre Cabo Verde e Brasil continua relativamente reduzido. O que explica este desfasamento?

Essa proximidade histórica e cultural poderá vir a ser importante, mas na minha opinião, há vários factores de maior prevalência a concorrer para o desfasamento de que fala, de onde eu destacaria: A fragilidade do nosso empresariado (apenas importador) e consequente dependência do mercado fornecedor europeu; As parcerias financeiras, sobretudo bancárias, também viradas apenas para o norte, o que cria dificuldades às relações comerciais com o sul. Não há um tratamento igual; A ausência de ligações marítimas África/Brasil a partir da nossa sub-região, escalando Cabo Verde; O desconhecimento do empresariado brasileiro (exportador) das capacidades de Cabo Verde enquanto potencial plataforma, com segurança jurídica garantida, para ser intermediário privilegiado dos dois mercados. Ultimamente, temos feito alguma aproximação exitosa com o BRASIL EXPORT no sentido de apresentar Cabo Verde, através da CVTradeInvest, como parceiro ideal para essa funcionalidade; Pensamos que é chegado o momento propício para Cabo Verde ir atrás dos países sul-americanos, conhecer e ver as imensas oportunidades que existem e que podem colaborar nessa nossa caminhada para o desenvolvimento.

Os empresários brasileiros ainda conhecem pouco Cabo Verde?

Quase nada! Acabamos de receber uma grande ajuda com a magnífica performance da nossa seleção de futebol na recente Copa do Mundo, mas é preciso agir e aproveitar essa enorme janela aberta pelos Tubarões Azuis. Eu diria que Cabo Verde precisa acelerar o passo, e com qualidade, em tudo que faz.

Que obstáculos precisam de ser removidos?

A priori, não conseguimos descortinar obstáculos enquanto não se iniciar a caminhada. Digo isso porque a política externa tem feito, e bem, o seu trabalho. Isto é, tem pavimentado as estradas das relações entre os dois países e estão prontas para serem percorridas. Por exemplo, em Fevereiro do corrente ano, em Brasília, foram assinados importantes instrumentos (acordos e memorandos) que reforçam o quadro jurídico bilateral e ampliam a cooperação em áreas estruturantes com regulação, inovação, segurança social e protecção ao investimento. Agora é a vez do motor da sociedade, o sector privado, fazer uso dessas vias abertas pela diplomacia e, só então, poderemos verificar se há obstáculos a serem removidos e caso os haja, serão pequenas arestas a serem limadas na utilização quotidiana de serviços administrativos de ambos lados.

Que sectores considera prioritários para atrair investimento brasileiro para Cabo Verde? Energias renováveis, economia azul, turismo ou economia digital?

Para além do turismo e da economia digital, todos sabemos que Cabo Verde, “per si”, não tem escala para ser atractivo a investimentos na grande maioria dos sectores da economia. Daí, a importância de nos colocarmos como plataforma de investimentos brasileiros, em alguns sectores tais como transportes, indústria (finalização em território cabo-verdiano), comércio internacional, para que possamos ser interessantes ao Brasil e à África, ao mesmo tempo e para os mesmos objectivos. É isso que deve orientar o nosso posicionamento de acordo com a estratégia do Brasil/África. Sair da conversa e dos sonhos que nos embalam, há décadas, e agir.

Cabo Verde pode afirmar-se como plataforma logística entre África e o Brasil?

Sim, não só pode, como deve, como referido na resposta anterior. E com alguma urgência!

Até que ponto uma ligação marítima regular seria decisiva para dinamizar o comércio bilateral?

Julgo ter respondido anteriormente, mas posso acrescentar que a viabilidade de qualquer ligação marítima depende do volume de carga a transportar nos dois sentidos e é aí onde reside a nossa fragilidade e consequente imperiosidade em sermos parte da estratégia Brasil/África.

A ligação aérea directa entre os dois países foi retomada há pouco tempo. Que impacto tem essa ligação?

A relação entre os povos depende essencialmente do conhecimento mútuo e da confiança daí gerada. E este voo de retoma será o primeiro passo para se dar continuidade às relações de proximidade anteriormente existentes e que foram interrompidas pela Covid-19. E a actual conjuntura é muito mais fértil do que a anterior à pandemia.

O Mundial 2026 aumentou o interesse dos brasileiros por Cabo Verde?

Com certeza, e muito! Talvez o Brasil tenha sido o país do mundo todo que mais abraçou este fenómeno Cabo Verde, e que continua de forma indescritível.

Como convencer um turista brasileiro a escolher Cabo Verde?

Apenas promovendo o destino Cabo Verde, o que incompreensivelmente ainda não aconteceu.

A cooperação universitária continua a ser uma prioridade?

Acho que não, devido à boa prestação das nossas jovens universidades. Continuará sim, sendo uma importante complementaridade sobretudo através do Convénio PEC-PG que proporciona a pós-graduação em universidades brasileiras.

Qual foi o maior desafio da sua missão?

Terá sido a de permanentemente dar a conhecer a existência de Cabo Verde o que terá feito, com certeza, os meus antecessores e o que o próximo não terá necessidade de apresentar pois foi feito intensivamente pelo Mundial de Futebol. Mas qualquer desafio é amenizado quando chegam os reconhecimentos, com o prazer das relações pessoais com localidades e países que transportam laços históricos com Cabo Verde, por exemplo, o município de Vitória de Santo Antão cujo núcleo inicial foi fundado por António Diogo de Braga que foi da nossa ilha de Santo Antão de Cabo Verde, ou a cidade de Cabo Verde, no Sul de Minas Gerais, o país Equador que tem um herói nacional, Alonso de Illescas, nascido em Santiago, em 1528 e que é fruto de uma história maravilhosa. Ou quando se é agraciado por instituições públicas ou privadas como reconhecimento do trabalho em prol das excelentes relações mantidas e promovidas. Assim, a missão fica agradável e os desafios viram prazeres. Até agora, nesta reta final, tem sido assim. Só trarei muita gratidão a todos que proporcionaram esta experiência vivenciada com total dedicação, começando pela minha esposa Raquel a quem devo muito dos excelentes resultados conseguidos.

Como gostaria que fossem as relações Cabo Verde–Brasil daqui a cinco anos?

Bem, enquanto cidadão cabo-verdiano auguro relações ainda mais fortes e que os dois países, de realidades sociais muito distintas, se sintam premiados nesse intercâmbio dos seus povos e que haja muito mais trocas diretas em todas as atividades humanas. E aproveito e agradeço esta oportunidade para deixar uma palavra de solidariedade ao meu sucessor, desejando-lhe sucessos no desempenho da sua Missão e me coloco inteiramente ao dispor para informações que possam vir a ser úteis. Não tenho dúvidas de que daqui a cinco anos as relações Cabo Verde/Brasil continuarão exemplares, mas muito mais frutíferas principalmente para o lado africano.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1289 de 12 de Agosto de 2026.

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