Durante mais de uma hora e meia na terceira noite de Taracá em Porto Alegre (de 29 a 31/5), o palco do Araújo Vianna desapareceu. No lugar dele, no coração da capital gaúcha, surgiram as ruas do Barrio Sur, em Montevidéu. Com ingressos esgotados, Jorge Drexler encerrou a turnê de seu mais recente disco, Taracá, que também passou por Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo.
Entrando em cena com “Toco Madera”, ele já avisa que o candombe não é apenas um ornamento ou referência no disco, mas sim a essência desta fase, que marca seus 61 anos e fortalece cada vez mais suas raízes com o Sul da América do Sul. Parece que a partir dali já não importava mais a língua, a gente se reconheceu imediatamente como vizinhança.
Essa proximidade não é casual, já que ao longo dos anos, Drexler esteve cada vez mais presente na música brasileira. “La edad del cielo”, por exemplo, foi gravada em 2002 por Paulinho Moska, e obviamente é uma das músicas mais aguardadas pelo público.
Mas é indiscutível que o Rio Grande do Sul está ainda mais perto da carreira do artista. Há algo no seu cancioneiro que conversa com esta ponta do mapa, não importa como, seja pela fronteira, pelo rio, pela milonga, ou pelo espanhol que se mistura ao português. Sem dúvidas, o show traz essa sensação de que pertencemos a uma mesma região afetiva mesmo em países diferentes. Drexler não é um estrangeiro por aqui, inclusive, já pode receber a chave de casa.
Taracá, lançado em março de 2026, é um álbum que nos faz mergulhar nas raízes afro-uruguaias e coloca o candombe no centro da sua arquitetura musical. Se 2025 foi tomado pela força global do reggaetón, por que 2026 não poderia ser também o ano do candombe?
A pergunta pode parecer provocação, mas ao presenciar essa energia no palco ela faz todo o sentido. Principalmente porque Jorge Drexler não está tentando transformar uma tradição em “tendência”, afinal, esses ritmos sempre estiveram presentes em nossas festas, nos terreiros, nas ruas, nas margens e nos corpos que dançavam mesmo quando atacados pela censura. Canções como “Ante la duda, baila” e “El tambor chico” traduzem muito bem isso.
E a banda? Um espetáculo à parte. Formada por músicos do Uruguai e da Espanha, entrega ainda mais calor e conexão com a plateia em uma verdadeira Rueda de Candombe. No setlist, as canções antigas ganharam novos significados, nos relembrando que Drexler já falava sobre pertencimento, identidade e encontros há muito tempo. Quem esteve por lá nesta última noite teve surpresas como “La Trama y el Desenlace” e “Milonga del Moro Judío”.
Houve quem estivesse ali pelas canções mais antigas, claro, mas as músicas novas já pareciam estar na ponta da língua. E isso diz muito sobre a fase atual de Drexler, já que poucos artistas com uma obra tão consolidada conseguem apresentar um disco novo sem que ele pareça pretexto para revisitar o passado. Músicas como “Las Palabras” e “Hay Alguien Ahí” estão superconectadas a esse mesmo campo de inquietações e inteligência artificial.

Drexler dançava, sorria, parecia genuinamente feliz em encerrar essa etapa da turnê no Brasil. Antes de cantar a versão em espanhol de “O Que É, O Que É?”, de Gonzaguinha, ele explicou a importância de traduzir clássicos da música brasileira para alcançar outros territórios linguísticos, abrindo uma espécie de janela para que outras nacionalidades entendam a grandeza da nossa poesia.
Fiquei me perguntando se nesta última noite de Taracá no Brasil, Jorge Drexler parecia um porto-alegrense feliz por dividir a cidade conosco, ou se Porto Alegre tinha se tornado por algumas horas, um bairro de Montevidéu. E, diante da dúvida, a resposta veio bem rápido: diante da dúvida, o importante é dançar.
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