Neste final de maio, de 29 a 31, Jorge Drexler retorna a Porto Alegre para três noites já cercadas de expectativa. Os shows no Araújo Vianna, que, mais uma vez, tiveram ingressos disputados com rapidez incomum até para um artista acostumado a teatros lotados pelo mundo, têm mais um sabor. Marcam também a chegada de “Taracá”, disco novo que talvez seja sua obra mais uruguaia e, paradoxalmente, uma das mais universais.
“Taracá”, explica Drexler, não existe em dicionário nenhum. É um neologismo criado a partir da pulsação do candombe, ritmo afro-uruguaio que atravessa o álbum como espinha dorsal. O som nasce do “tambor chico”, o menor dos três tambores do gênero, cuja batida ecoa como uma espécie de mantra percussivo: “taracá, taracá, taracá”. Mais tarde, o músico percebeu que a palavra inventada escondia outra camada. Há nela uma contração de “estar acá”, estar aqui. Presença. Corpo no presente. Um estado de permanência.
Não deixa de ser revelador que um artista que vive há três décadas na Espanha tenha encontrado justamente agora a necessidade de reafirmar o “aqui”. Aos 60 anos, depois da morte do pai e anos após perder a mãe, Drexler diz ter sentido urgência em revisitar sua própria ideia de pertencimento. Gravado principalmente em Montevidéu, “Taracá” nasce desse retorno íntimo às raízes, sem nostalgia folclórica nem nacionalismo estreito. É um disco de reencontro.
Ao falar sobre o trabalho, Drexler rejeita uma definição frequentemente associada ao seu nome, a de “cantautor”. “Na Espanha, explica, o termo carrega o peso de um certo preconceito estético, de música excessivamente cerebral, distante do corpo, do ritmo, da dança”. E “Taracá” parece justamente uma recusa desse confinamento. O álbum pensa, mas também pulsa. Reflete sem abandonar o transe rítmico. O candombe, para ele, não é apenas herança cultural. É uma forma de reconectar música, política, memória e movimento.
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Essa busca aparece também na maneira como Drexler atravessa fronteiras sonoras. Entre as canções do disco está uma releitura luminosa de “O Que É, O Que É”, de Gonzaguinha. Não uma simples versão em espanhol, mas transformação profunda, em que o samba original se converte em candombe, conduzido pela energia coletiva da Rueda de Candombe uruguaia.
Drexler conta que havia anos carregava a sensação de que Gonzaguinha permanecia menos conhecido internacionalmente do que outros gigantes brasileiros. E havia algo naquela canção, “viver e não ter a vergonha de ser feliz”, “a beleza de ser um eterno aprendiz”. O uruguaio considerava poderoso demais para permanecer restrito ao idioma. Para ele, a música funciona quase como ferramenta espiritual, capaz de atravessar cidades e culturas, como Montevidéu, Lima, Madri, Cidade do México.
Não por acaso, o Brasil aparece na conversa como território afetivo permanente. Drexler relembra que sua formação musical nasceu ouvindo discos brasileiros dentro de casa, influência direta da mãe. Fala de rodas de samba frequentadas depois dos shows, da curiosidade quase antropológica que o move quando chega a uma cidade. Quer descobrir o que as pessoas dançam, comem, celebram. Em Porto Alegre, lembra de uma noite na Cidade Baixa em que “O Que É, O Que É” surgiu espontaneamente numa roda e transformou o ambiente em espécie de catarse coletiva.
Talvez esteja aí uma das chaves de “Taracá”. O disco entende tradição não como peça de museu, mas como experiência viva, compartilhada, comunitária. Drexler parece interessado menos em preservar gêneros do que em fazê-los circular, respirar e encontrar novos corpos. E há algo de simbólico em esse reencontro acontecer justamente no sul do Brasil. Porto Alegre ocupa lugar afetivo singular na trajetória do músico. E ele, como artista, no coração dos gaúchos
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