Guiné-Bissau – Numa altura em que cresce a contestação política ao regime de Umaro Sissoco Embaló, o movimento Firkidja di Pubis organiza este sábado, 23 de Maio, um debate sobre o alegado “golpe de Estado cerimonial” de 26 de Novembro de 2025. O activista guineense Yussef denuncia um clima de repressão, perseguições políticas e ausência de liberdades democráticas na Guiné-Bissau. “O país tornou-se uma prisão política a céu aberto”, descreve.
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O conceito de “golpe de Estado cerimonial”, explica Yussef, nasce da ideia de que, ao contrário dos golpes militares clássicos que marcaram a história política da África Ocidental, na Guiné-Bissau não existiu uma verdadeira ruptura do poder. Pelo contrário, terá existido, segundo o activista, uma articulação entre sectores militares e a Presidência da República para preservar a estrutura política existente, neutralizando ao mesmo tempo os mecanismos democráticos de alternância.
“Um golpe de Estado, por definição, implica a retirada dos titulares dos órgãos de soberania através da força. Mas na Guiné-Bissau aconteceu exactamente o contrário. Houve um conluio entre a Presidência da República e as chefias militares para manter o regime político tal como ele estava”, defende.
Segundo o activista, o objectivo desse processo foi impedir que os resultados eleitorais produzissem consequências políticas. “Tentou-se impedir que a soberania popular fosse respeitada e que o povo pudesse ver no poder aqueles em quem votou”, acusa o activista, que aponta directamente para a manutenção artificial do actual equilíbrio de forças políticas.
O militante sublinha ainda que esta leitura dos acontecimentos não surgiu apenas entre organizações oposicionistas guineenses. Recorda que personalidades internacionais, como o antigo Presidente da Nigéria Goodluck Jonathan ou o dirigente senegalês Ousmane Sonko, também levantaram dúvidas sobre a legitimidade do processo político desencadeado após Novembro de 2025.
Mas é sobretudo a descrição do ambiente interno vivido actualmente na Guiné-Bissau que domina o discurso do activista. Yussef fala de um país onde a repressão política se tornou estrutural e onde o medo condiciona a vida pública. “O assassínio político do nosso camarada Vigário Balanta marcou um ponto de ruptura”, afirma. Para o activista, a morte do militante simboliza o endurecimento do regime e a crescente intolerância face às vozes críticas.
Ao mesmo tempo, denuncia a existência de presos políticos e refere os nomes do antigo primeiro-ministro Domingos Simões Pereira e de Fernando Dias, apontado pelos opositores como vencedor legítimo das presidenciais contestadas. Segundo Yussef, o país vive hoje sob um sistema de controlo político permanente. “Não há possibilidade de crítica aberta ao regime. Não há possibilidade de manifestações de rua. Não há conferências de imprensa. Todas as características de um regime ditatorial encontram-se hoje na Guiné-Bissau”, afirma.
É nessa ausência de espaço político interno que leva parte da oposição a reorganizar-se a partir da diáspora. Em Portugal, França e outros países europeus, grupos de activistas têm procurado denunciar a situação guineense, multiplicando debates, encontros públicos e intervenções nos meios de comunicação social. “Nós não vemos qualquer ruptura entre os guineenses da diáspora e os que estão na Guiné-Bissau. A luta é exactamente a mesma. Apenas acontece noutra geografia”, acrescenta Yussef.
O debate deste sábado conta com a presença de Armando Lona, coordenador da Frente Popular e antigo preso político, descrito pelos organizadores como uma das figuras que mais simboliza os riscos da resistência política no país. Segundo Yussef, a Frente Popular foi uma das raras estruturas que ousou organizar manifestações de rua num contexto de forte repressão. “O regime não hesita em perseguir activistas e familiares. Mas a história política da Guiné-Bissau também nos ensina que houve sempre quem aceitasse correr riscos pelas liberdades democráticas”, afirma o activista, evocando a herança histórica de Amílcar Cabral e a tradição de luta política associada à independência do país.
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