O Arkivo50 recupera fotografias, negativos e memórias de Paulino Damião, que documentou a história de Angola entre 1968 e 2020.
Conhecido como «50», Paulino Damião fotografou boa parte da história contemporânea de Angola e as suas imagens ganham agora nova vida no Arkivo50, arquivo que recupera a alcunha herdada da objetiva de 50 milímetros, que quase nunca o largava.
É pelas mãos do filho, o artista plástico Lino Damião, e da antropóloga Inês Ponte, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e responsável pelo Arquivo de História Social da mesma instituição, que o espólio vai tomando forma, apesar do muito que resta descobrir, organizar, classificar, catalogar e, em alguns casos, recuperar.
Numa das paredes da sala, dezenas de folhas A4 cobrem a superfície com apontamentos manuscritos e esquemas — o mapa de um trabalho que agora começa.
«Estava tudo espalhado», resume Lino Damião à Lusa, ao recordar o trabalho iniciado em 2021 com os irmãos e restantes familiares para reunir o que o pai foi deixando em diferentes locais. «Muito material chegou aqui em caixas», conta.
O Arkivo50 funciona, para já, num espaço cedido pela Universidade Lusíada de Angola (ULA). Lá dentro, milhares de fotografias já digitalizadas convivem com negativos por identificar, máquinas analógicas, objetivas, livros, máscaras, álbuns de família e um ampliador soviético que o fotógrafo usava nas revelações.
As mesas compridas, transformadas em bancadas, fazem lembrar um laboratório. Sobre elas acumulam-se envelopes de negativos, fotografias amarelecidas pelo tempo e álbuns antigos, alguns conservados com folhas de louro entre as páginas para afastar as traças. Cada caixa aberta acrescenta uma peça à história.
«Há dias em que encontramos fotografias que nunca tínhamos visto», conta Lino Damião.
A objetiva de 50 milímetros que raramente largava obrigava-o a aproximar-se de quem fotografava, ao contrário das grandes-angulares.
Foi nos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, que o «50», único fotógrafo negro no meio de colegas equipados com teleobjetivas, ganhou a alcunha.
«Tinha de se pôr à frente dos outros, tinha de estar próximo», conta Lino. «Apanhava com a câmara dos outros na cabeça, porque o gajo da 50 estava ali a tapá-los», ri-se.
«O colar dele era a máquina fotográfica», recorda. «Não me lembro do pai sem uma máquina. Se calhar, só quando ia dormir».
A ambição vai além de uma coleção familiar e o objetivo é que o Arkivo50 cresça como arquivo aberto e ajude a travar a dispersão de uma memória visual que se vai perdendo no tempo.
«Começámos a gatinhar agora, mas queremos andar», diz Lino Damião, consciente do muito que há por caminhar: são cerca de dois mil negativos por triar, milhares de fotografias por inventariar, rolos por revelar cujo conteúdo ninguém conhece e material guardado sem as condições ideais de conservação.
«Há coisas que não sabemos o que vão dar. Vamos experimentar, vamos revelar», adiantou à Lusa.
Nascido em 1949, em Nambuangongo, numa das zonas mais castigadas pela guerra colonial, Paulino Damião viu a sua vida cruzar-se cedo com a tragédia quando, ainda adolescente, perdeu os pais num ataque das tropas coloniais.
Capturado pelos soldados nas matas, foi acolhido num quartel durante cerca de um ano, até serem encontrados parentes vivos. Foi aí que conheceu o jornalista e escritor Manuel Beça Múrias e terá despertado o gosto pela fotografia.
Anos depois, já em Portugal, voltaria a cruzar-se com a mulher do jornalista, na altura já falecido. Paulino telefonou-lhe e ela demorou alguns instantes a perceber que falava com o rapaz que visitara no Hospital Militar de Luanda e a quem levara guloseimas e livros para pintar. Do outro lado da linha estava, agora, o fotógrafo oficial do então Presidente José Eduardo dos Santos.
Paulino Damião trabalhou no Jornal de Angola durante quase 50 anos, cobriu acontecimentos políticos, conflitos militares, manifestações culturais e cerimónias oficiais, mas a câmara retratava também eventos familiares.
No espólio, retratos de casamentos e batizados convivem com imagens da guerra e da construção do país ou da bem-amada e fotogénica Chicala, bairro piscatório à entrada da Ilha de Luanda onde morou durante muitos anos.
Acompanhou, ao longo de décadas, as frentes do conflito armado, de Cabinda ao Cunene, de Mavinga aos acordos de paz, de Gbadolite a Lusaka, e fotografou os protagonistas da história e da cultura, mas também os anónimos do quotidiano, das «zungueiras» (vendedoras de rua) aos meninos de rua que surgiram no fim da guerra civil. «Do embaixador ao engraxador», como resume o filho.
As imagens abrangem o período entre 1968 e 2020, já que «o pai fotografou até ao último momento», sublinha Lino Damião.
Cada dia de trabalho é também um exercício de memória.
«Todos os dias é uma lágrima ao canto do olho», confessa, num percurso entre «momentos de tristeza e momentos de alegria».
«Mas é bom estar aqui, dá-me alegria mexer neste material. É muita emoção, mas tem de ser feito».
À medida que cada imagem ganha o seu lugar, a obra do fotógrafo vai revelando, ela própria, um pouco mais da história de Angola.
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