Dezenas de familiares de presos políticos estão desde quarta-feira em vigília nas proximidades do El Helicoide, sede do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), em Caracas, cárcere que os activistas dizem ser um centro de tortura.
A vigília ocorre depois de os familiares denunciarem que foram suspensas as visitas devido à transferência em massa de detidos a lugares não especificados. “Temos informações de que começaram a fazer transferências. Não sabemos de quem nem para onde, mas conseguimos ver, desde uma colina próxima deste centro de tortura, que os presos políticos começaram a ser transferidos”, denunciou Andreína Baduel do Comité pela Liberdade dos Presos políticos.
Aos jornalistas, Andreína Baduel explicou que a transferência ocorreu depois de o secretário de Estado dos EUA, Marco Rúbio, ter afirmado, na terça-feira, que o Helicoide tinha sido encerrado, situação que foi desmentida de imediato pelos familiares dos presos políticos e pelas organizações não governamentais. “A resposta do regime foi iniciar transferências arbitrárias, reiterar as violações dos direitos humanos dos presos políticos e não dar respostas aos familiares”, disse.
Entretanto, foram divulgados nas redes sociais vídeos dos momentos em que a população gravava com telemóveis a passagem das viaturas nas quais estariam a ser transportados os presos, a quem acenavam.
O Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa denunciou que uma jornalista e dois operadores de câmara foram temporariamente detidos pela polícia, durante os protestos das famílias.
A Rede de Ex-presos pela Democracia (RED) emitiu um comunicado em que denuncia que a transferência de presos deixou a descoberto “o engano” que as autoridades venezuelanas “mantêm perante a própria tutela norte-americana”. No documento aponta-se ainda o silêncio das autoridades sobre o possível paradeiro dos presos políticos e exige-se que o Ministério de Assuntos Penitenciários estabeleça um mecanismo imediato de comunicação entre os familiares e os reclusos, e que determine um calendário de visitas. “Desta forma, poderão verificar o seu [dos presos] estado físico e mental, além de que tal servirá como prova de vida”, sublinha a RED no comunicado.
Por outro lado, a organização não governamental Encontro, Justiça e Perdão (EJP), alertou que os movimentos inusitados e as possíveis transferências de presos políticos “suscitam sérias questões e reforçam a percepção de que estão a ser tomadas decisões de última hora para responder à pressão e ao escrutínio internacional, mais do que para corrigir genuinamente as violações denunciadas”.
“Perante esta situação, reiteramos que os 25 presos por motivos políticos que permanecem em El Helicoide devem ser libertados de imediato. A sua transferência para outro centro de detenção não constitui uma solução nem representa um avanço em matéria de direitos humanos. O que se impõe é a sua libertação total e incondicional”, explica a EJP na rede social X.
A 30 de Janeiro, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez propôs que o Helicoide, denunciado por organizações não governamentais e membros da oposição como um centro de tortura, fosse transformado num centro social e desportivo. A proposta foi anunciada depois de o Presidente norte-americano, Donald Trump, com quem o Governo interino de Rodríguez mantém relações, ter falado sobre o encerramento de uma “câmara de tortura” na capital venezuelana.
Na Venezuela, segundo várias organizações não governamentais, existem pelo menos 404 presos políticos, entre os quais 39 estrangeiros, cinco deles com cidadania portuguesa.
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