Do agroalimentar à banca. Quem são os futuros donos do banco angolano do BPI – ECO

Foi a partir do quintal da sua casa que Leonor Carrinho criou o seu negócio. Um bar para sustentar os seus três filhos que viria a dar lugar àquele que se apresenta atualmente como o maior grupo agroalimentar de Angola e o futuro dono do BPI em Angola. “Um acordo informal com a Sonangol marcou o início da história da Leonor Carrinho no ramo empresarial: ficou estabelecido entre as partes que os técnicos da empresa, que se deslocassem ao Lobito, fizessem as suas refeições no bar da Dona Leonor”, relata. Estava assim lançadas as bases para o sucesso do Grupo Carrinho que, depois de um longo namoro, chegou a entendimento com o banco português para comprar os 33,35% detidos no BFA.

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Com o seu foco concentrado no ramo agroalimentar, o grupo sediado em Benguela cresceu e adicionou dezenas de lojas ao portefólio: rondam agora as 60 unidades, entre venda a retalho, cash and carry’s e armazéns grossistas com as marcas Eskebras e Bem Barato (BB).

Por outro lado, presente em Malanje, Benguela, Bié, Huambo, Huíla e Kwanza-sul, para um total de 107 municípios e 221 comunas, conta também com um parque industrial composto por 19 fábricas em que processa arroz, trigo, milho e refinar óleo, além da produção de mais de duas dezenas de bens de consumo.

Na página oficial, a Carrinho apresenta-se como “uma empresa familiar angolana que está empenhada em desenvolver a primeira estrutura organizacional verticalmente integrada do setor alimentar, gerindo todas as etapas do processo: a originação, o transporte, o armazenamento, a transformação e a comercialização”.

A partir do Bairro da Luz, no Lobito, a empresa tem traçado uma estratégia de crescimento, que, nos últimos anos, derivou também para a banca.

Atualmente liderado por Nelson Carrinho, filho da fundadora Leonor, e com o seu irmão Rui Carrinho como vice-CEO, o grupo emprega mais de 2.000 pessoas e, no setor financeiro, detém ainda o Banco de Comércio e Indústria (BCI) — adquirido em 2021 por 30 milhões de dólares — e o Keve, enquanto cortejava há muito o BFA.

IPO abriu porta à entrada

A entrada do Grupo Carrinho na estrutura acionista do BFA não surpreende. Quando o BPI colocou à venda a totalidade da sua participação no banco angolano em 2024, a empresa da família Carrinho foi um dos interessados. A operação não foi para a frente por conta da desvalorização acentuada do kwanza, a moeda angolana, mas foi uma questão de tempo.

No ano passado, o BFA avançou para a bolsa de Luanda, com a venda de cerca de 30% do capital por parte do Estado angolano (via Unitel) e do BPI por mais de 200 milhões de euros. Mais de 8.000 investidores participaram na operação e entraram para a estrutura acionista do banco, incluindo particulares, empresas e institucionais. Entre eles o Grupo Carrinho, liderado por Nelson Carrinho.

Segundo a comunicação enviada nessa altura ao regulador da bolsa angolana, a entrada do Grupo Carrinho no capital do BFA foi feita através da sociedade Congolian Financial, que tinha como beneficiários últimos justamente Nelson Carrinho e Rui Carrinho, presidente e vice-presidente do grupo angolano.

A aquisição dessa participação foi realizada em dois momentos: no IPO, em que o grupo adquiriu 1,13 milhões de títulos. Aos quais somaram mais de sete mil ações adquiridas posteriormente em mercado secundário. Com a valorização das ações no Bodiva, esta participação, correspondente a 7,61% do capital do BFA, estava então avaliada em cerca de 109 milhões de euros a preços de mercado.


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