Deportação de brasileiro detido pelo ICE na Califórnia seria para Guiné Equatorial, diz governo americano | Mundo
O destino de deportação do brasileiro Alex Pereira-Alves, detido pelo ICE, serviço de imigração dos Estados Unidos, na semana passada seria a Guiné Equatorial, informou o Departamento de Segurança Interna (DHS) americano ao Valor.
Alex foi detido em 11 de agosto na Califórnia. Sua advogada, Jane Oak, entrou com um pedido de habeas corpus alegando que os direitos dele foram violados durante a detenção e solicitando que o brasileiro possa aguardar o processo em liberdade em solo americano.
Diante disso, um juiz federal suspendeu temporariamente a deportação de Alex no fim da semana passada e deu prazo até 21 de agosto para o governo americano prestar esclarecimentos.
“Em 13 de agosto de 2026, um juiz ativista ordenou sua libertação e a suspensão de sua deportação para a Guiné Equatorial. Discordamos dessa decisão, que mina a autoridade do Presidente, prevista no Artigo II da Constituição, de determinar quem permanece neste país”, afirma o DHS.
Alex segue detido no Centro de Detenção de Adelanto, local que tem sido denunciado pelas condições precárias.
A segunda gestão de Donald Trump tem assinado acordos com países dispostos a receber imigrantes deportados dos EUA independentemente de sua nacionalidade.
De acordo com agências internacionais, Trump enviou US$ 7,5 milhões ao governo do ditador Teodoro Obiang na Guiné Equatorial.
Obiang lidera o país desde 1979 e é acusado, juntamente com seu filho, Nguema Obiang, o vice-presidente, de desviar milhões de dólares de uma nação empobrecida para financiar um estilo de vida luxuoso. Obiang transformou um hotel de propriedade de sua família em Malabo, em uma ilha da Guiné Equatorial, em prisão para receber os deportados dos EUA.
Como todas as informações sobre o caso de Alex, até agora, foram verbais, o brasileiro sequer sabia se seria deportado para a Guiana, como entendeu sua advogada, ou para Gana, como ele próprio entendeu. Ou ainda para Goiânia, sua cidade natal.
“Estar detido é uma escolha”, afirma o DHS. O departamento diz incentivar “todos os imigrantes ilegais a assumirem o controle de sua partida por meio do aplicativo CBP Home”, ferramenta que permite a indivíduos sem antecedentes criminais que residem ilegalmente nos EUA registrarem-se voluntariamente para deixar o país.
“Os Estados Unidos estão oferecendo aos imigrantes ilegais US$ 2.600 e uma passagem aérea gratuita para que realizem a autodeportação agora. Incentivamos todas as pessoas que estão aqui ilegalmente a aproveitar essa oferta e a preservar a chance de retornar aos EUA pelos meios legais adequados para viver o sonho americano. Caso contrário, vocês serão presos e deportados sem chance de retorno”, afirma o DHS.
O governo americano diz ter deportado mais de 600 mil imigrantes ilegais neste segundo mandato de Trump. De acordo com o Deportation Data Project, iniciativa independente ligada às universidades da Califórnia em Berkeley e Los Angeles, as deportações após prisões realizadas pelo ICE quintuplicaram na comparação dos últimos seis meses do governo Joe de Biden, em 2024, a janeiro de 2026.
“A administração Trump está utilizando todas as opções legais para realizar a maior operação de deportação da história, exatamente como o presidente Trump prometeu”, diz o DHS.
Alex Pereira-Alves tem 47 anos e mora há mais de 16 anos em West Hollywood, na Califórnia, onde atua como segurança e personal trainer.
Segundo o DHS, Alex entrou legalmente nos EUA em 5 de julho de 2010, com prazo para deixar o país antes de 4 de janeiro de 2011. “Ele permaneceu no país além do período de sua admissão legal, violando as leis de imigração de nossa nação durante a administração Obama”, afirma o DHS.
Ainda de acordo com o governo, em 18 de setembro de 2018, Alex recebeu uma ordem definitiva de deportação, emitida por um juiz de imigração do Departamento de Justiça.
Já a advogada de Alex diz que, como quando ele tentou legalizar sua situação já tinha passado mais de um ano de sua entrada em solo americano, o brasileiro não conseguiu os documentos que poderiam garantir-lhe um greencard e a cidadania.
Mas ele conseguiu, em 2018, uma suspensão de deportação ao Brasil, uma proteção prevista na lei de imigração dos EUA que impede o governo de enviar uma pessoa para um país específico onde sua vida ou liberdade corram risco. Alex é gay e alegou ter sofrido riscos reais por causa disso no Brasil.
Essa proteção concede o direito à pessoa de permanecer legalmente e trabalhar no país, mas não oferece um caminho para a residência permanente. Também não significa, segundo a advogada, que o governo não possa eventualmente deportar a pessoa para outro país. No habeas corpus, ela alega, no entanto, que Alex não teve direito a uma entrevista justa no momento da detenção a respeito de um destino que não oferecesse risco a sua vida.
“Desde 2018, Alex tinha de fazer um check-in no centro, mas era tudo muito tranquilo. Com o governo Trump, tudo mudou: ele precisava ir a cada três meses e cada hora a localização era uma. Foi muito confuso”, conta Jeff Markwardt, americano amigo de Alex.
Em abril deste ano, Alex foi chamado pelo ICE e recebeu uma ordem de supervisão, um documento que permite a um não cidadão, sujeito a uma ordem de remoção, residir nos EUA sob regras específicas de apresentação e monitoramento. Segundo a advogada e Jeff, Alex era monitorado pelo seu celular.
Alex também teria de se reapresentar fisicamente às autoridades em novembro deste ano, e para isso que os serviços jurídicos de Oak foram contratados originalmente. Mas, no último dia 10, Alex foi surpreendido por uma ligação do ICE exigindo sua apresentação na manhã seguinte.
Segundo a advogada, chegando lá, Alex nem pegou a fila de atendimento e, em 5 minutos, foi algemado, detido e a deportação foi anunciada.
Sobre a detenção de Alex, o Itamaraty já havia informado, em nota, que o Ministério das Relações Exteriores, por meio do Consulado-Geral do Brasil em Los Angeles, está em contato com a família do brasileiro, a quem tem sido prestada a assistência consular devida ,e que busca estabelecer contato com as autoridades americanas responsáveis. Também afirmou que, em atendimento ao direito à privacidade e em observância ao disposto na Lei de Acesso à Informação e no decreto 7.724/2012, não fornece informações sobre casos individuais de assistência a cidadãos brasileiros.
Crédito: Link de origem