São Paulo – Depois dos 60 anos, o corpo passa por mudanças que podem alterar o caimento das roupas, a mobilidade e até a maneira como cada pessoa se relaciona com o próprio guarda-roupa. Braços, cintura, busto e outras medidas podem mudar ao longo do tempo, fazendo com que peças que antes eram confortáveis deixem de vestir da mesma forma.
Para a especialista em Modelagem do Vestuário Jéssica Pantchali, criadora da Pantchali Escola de Moda, a adaptação não precisa significar abrir mão do estilo. Ela ressalta que adaptar ou produzir as próprias roupas pode ampliar a autonomia de pessoas 60+.
Em vez de depender exclusivamente das opções encontradas nas lojas, o consumidor passa a considerar as características do próprio corpo, suas preferências e necessidades de movimento.
A costura traz uma autonomia muito grande, porque a pessoa deixa de depender apenas do que o mercado oferece e passa a ter a possibilidade de criar algo pensado para ela”, diz Jéssica.
A relação entre roupa, corpo e identidade também passa pela maneira como a sociedade determina o que seria “apropriado” para cada idade. Pantchali explica que ainda existem regras que associam determinadas peças, cores e modelagens a faixas etárias específicas.
Essas restrições, segundo ela, podem começar muito antes da terceira idade, principalmente no caso das mulheres.
“O que tem mudado nos últimos anos é que as pessoas estão percebendo que estilo não tem idade. Uma pessoa não deixa de ter personalidade, gostos e desejos porque atingiu uma certa idade. Pelo contrário, muitas vezes ela tem ainda mais clareza sobre quem é e sobre aquilo que gosta”, diz.
Conforto ganha espaço, mas estilo permanece
Após os 60, o conforto tende a ganhar mais importância nas escolhas do dia a dia. Porém, isso não significa que beleza, caimento e personalidade deixem de ser considerados. A busca passa a envolver roupas que permitam liberdade de movimento, sejam práticas para a rotina e, ao mesmo tempo, estejam alinhadas ao gosto de quem as veste.
Para Jéssica, essa combinação ajuda a explicar por que características como elasticidade, toque e variedade de estampas podem fazer diferença na escolha de um tecido.
Ela cita a liganete como exemplo de material que reúne essas características. Segundo a especialista, o tecido tem toque fresco, elasticidade e diferentes possibilidades de estampas, permitindo que seja usado por pessoas com estilos variados.
Jéssica pontua que a escolha do tecido não depende apenas de características técnicas. Para parte do público 60+, roupas também podem carregar lembranças de pessoas, lugares e momentos importantes.
A roupa tem uma relação muito forte com a memória. Muitas pessoas lembram de um familiar, um amigo ou momentos importantes da vida através de um tecido ou de uma estampa”.
Essa relação pode aparecer de maneira simples no cotidiano. Uma pessoa pode procurar novamente um tecido que já conhece porque sabe que ele é confortável, ou escolher determinada estampa por associá-la a uma experiência anterior. A familiaridade pode transmitir uma sensação de segurança e pertencimento.
Costura ajuda a adaptar roupas às mudanças do corpo
Uma das dificuldades enfrentadas por quem costura ou compra roupas depois dos 60 anos é entender por que uma peça pode não apresentar o resultado esperado mesmo quando as medidas parecem corretas.
Jéssica explica que o caimento não depende apenas de números registrados em uma fita métrica. “Roupa não é apenas medida. Existe estrutura corporal, proporção, tecido e modelagem envolvidos”, afirma.

A costura pode funcionar, nesse contexto, como uma ferramenta para compreender melhor essas diferenças. O aprendizado permite fazer ajustes e testar possibilidades até encontrar uma construção que acompanhe as características de cada corpo.
Essa experiência também pode se transformar em um processo de aprendizagem contínua. Jéssica conta que já teve alunas que começaram a costurar depois da aposentadoria e passaram a desenvolver peças cada vez mais complexas.
Idade não precisa ditar o que vestir
Restrições ligadas à idade podem surgir de formas sutis, quando cores, comprimentos, estampas e modelagens passam a ser vistos como escolhas que “não combinam mais” com determinada faixa etária.
Muitas mulheres começam a ouvir limitações sobre o que podem ou não vestir muito antes, principalmente a partir dos 30 anos. Aos poucos, são criadas várias expectativas sobre como uma mulher ‘deveria’ se vestir em cada fase da vida”, afirma.

Pantchali defende que a chegada aos 60 não precisa representar uma ruptura com preferências construídas anteriormente. Quem gosta de vestidos, saias, cores, estampas ou peças marcantes não precisa abandonar essas escolhas simplesmente porque envelheceu.
No fim, a especialista ressalta que a questão não é escolher entre conforto e estilo. É encontrar maneiras de fazer com que os dois convivam com a realidade de cada corpo e com a personalidade de quem veste.
“A roupa tem que conversar com quem você é”, diz Jéssica. “Nunca é tarde para aprender, experimentar e descobrir novas formas de se expressar”, conclui.
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