Há quem defina a criatividade como um talento. Daniel Moreira prefere tratá-la como uma forma de existir. Muito antes do diploma em Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica de Pelotas (UCPEL), o jovem Cuca – apelido que ganhou na época do colégio, quando um colega viu os pontos que ele tinha recebido após — bater a cabeça — , já explorava o turbilhão de ideias que tinha.
As brincadeiras com a irmã mais nova, Priscila, hoje advogada, sempre seguiam a linha da criatividade. “Simulávamos um programa de rádio, eu gravava em fitas. Ganhei, também, uma câmera VHS e gostava de fazer e editar vídeos”, relembra. Aos 13 anos, começou a tocar violão e baixo em uma banda. A música, seja no instrumento ou na composição, o acompanha até agora. Eventualmente, entra em cena na Doidivanas e na Água de Melissa, ambas de rock.
Curioso pela tecnologia e com boatos de que o curso de Publicidade e Propaganda não era bom na faculdade, resolveu aplicar no vestibular para áreas distintas. A primeira opção era Análises de Sistemas, seguida pela Administração e, em terceiro lugar, a Arquitetura. Passou em sua alternativa inicial e, já no primeiro dia de aula, percebeu que aquele não era o seu lugar.
“Saí no saguão e encontrei um colega que tinha passado para Publicidade e Propaganda e Jornalismo. Ele disse que cursaria ambas. Perguntei se era bom, ele disse que sim. Fui na secretaria e pedi a transferência para a Comunicação.”
Incomum
Ansioso, encanta-se pelo novo, pelas tentativas, por dar vida aos pensamentos. No entanto, também aprecia as raízes. Não à toa, aos 51 anos de idade, ainda trabalha na mesma empresa desde a faculdade. Em 1995, ao lado de três colegas, Stela, Gigi e Dani, abriu o que chamou de “birô de design”. Trinta anos depois, a agência Incomum é marca registrada de sua história, e não somente profissional.
O convívio com Stela, aos poucos, transformou-se em interesse para além da amizade. Ainda no primeiro ano da agência, começaram a namorar e seguem juntos. Além da sociedade corporativa, também dividem as responsabilidades da criação das filhas Maria Luísa, 21, e Alice, 17.
“Eu e a Stela somos muito diferentes e, felizmente, complementares. Isso nos ajuda na rotina de trabalhar e viver juntos”, destaca. A mistura da vida pessoal e profissional, aliás, não o incomoda. Para ele, quando se faz o que gosta, é natural.
E talvez seja justamente essa inquietação que explique por que sua trajetória nunca seguiu uma linha reta. Publicitário, escritor, músico, empreendedor, desenvolvedor de softwares nas horas vagas e apresentador de podcast. Todas essas versões convivem espontaneamente.
Há três décadas, ajuda empresas a construírem marcas sem deixar de acreditar que comunicação é, antes de qualquer estratégia, uma relação humana. Enquanto boa parte do mercado procura respostas para o futuro nas máquinas, na inteligência artificial, Cuca continua olhando para as pessoas.
“A nossa estrutura, que se mantém até hoje, é acreditar que a comunicação é algo feito por seres humanos. Então não importa o que tenha disponível, nas duas pontas tem que ter um ser humano”, enfatiza ele.
Essa convicção ajuda a explicar por que a Incomum adotou há alguns anos a definição de “cuidadores de marcas”. Para o publicitário, cada campanha, anúncio ou construção de posicionamento representa apenas uma pequena parte de algo muito maior. Uma marca não nasce pronta. É resultado de inúmeras experiências acumuladas ao longo do tempo, como um muro erguido tijolo por tijolo.
Devolver aprendizados
Foi nos testes, erros e acertos que Cuca fez seu nome como profissional e colaborou para levar clientes pelotenses a níveis de referência nacional, como é o caso do bairro planejado Parque Una que ultrapassou a divisa estadual e já está também em Uberlândia, Minas Gerais, e São José dos Campos, São Paulo.
O primeiro desafio da agência foi editar uma revista, pois ele era o único do grupo que sabia usar o Adobe Pagemaker. Visionários, os sócios da Incomum foram os primeiros a ter computador entre as empresas do mesmo ramo na cidade.
Ainda nos primeiros anos, um cliente que segue na casa, o Arroz Emoções da Nelson Wendt, perguntou se eles queriam cuidar das rádios que a companhia investia no Nordeste. “Aceitamos desde que eles pagassem as liberações, porque era muito caro fazer interestadual”, conta ele, rindo.
“Nossa trajetória é muito orgânica, a gente não sabia direito o que estava fazendo. mas foi a primeira aposta de trabalho que virou o emprego da vida. Cada ano seguimos nos descobrindo e aprendendo sobre o ramo em que estamos atuando.”
Entusiasta do mundo da arte como um todo, quando os 50 anos foram se aproximando, começou a refletir sobre como poderia devolver os aprendizados e conquistas. Um dos projetos foi a publicação de um livro de crônicas, chamado ‘O livro que meu pai não escreveu: crônicas para algoritmos humanos’, que reuniu alguns de seus escritos do blog cuca.in, que mantém desde 2006.
“Meu pai (Amilton Moreira) estava escrevendo um livro de realismo fantástico e acabou falecendo há cerca de oito anos, antes de ter a chance de publicá-lo. Enquanto estava vivo, ele me ajudou a escolher quais crônicas iriam para o meu trabalho. Ele montou uma planilha, colocou os links dos textos e deu notas de 1 a 5, além de siglas que até hoje não sei o que significam”, descreve. Conforme o profissional, ele narra essa história na introdução e, em cada crônica, marcou a data de publicação no blog, a nota do pai e a sigla, provocando os leitores a tentar adivinhar o que são.
E não para por aí. Cuca está imerso na produção de um novo título, com 30 crônicas. Paralelamente, há dois anos, começou com os amigos Alan Gonçalves, fotógrafo, e Flavia Barros, comunicadora, um podcast intitulado “TinoCast”. O foco é a indústria criativa de Pelotas e região. Toda semana, eles entrevistam algum expoente local, artistas, músicos, chefs gastronômicos, profissionais de Comunicação. Com o episódio 101 no ar, afirma que não pretende parar nunca, pois realmente se encontrou nesse papel.
Entre algoritmos e relações humanas
Quase 30 anos depois da fundação da agência, Daniel ainda se surpreende quando percebe que continua fazendo aquilo que mais gosta: aprender. Talvez por isso nunca tenha visto a tecnologia como uma ameaça.
Ao longo da carreira acompanhou o surgimento dos computadores nas agências, a internet, as redes sociais, a comunicação digital e, mais recentemente, a inteligência artificial. Em vez de resistir às mudanças, prefere compreendê-las.
Nas últimas semanas, por exemplo, desenvolveu cinco softwares para uso interno da Incomum. Brinca que, depois de tantos anos, chegou a pensar que talvez devesse ter permanecido no curso de Análises de Sistemas. A observação, no entanto, não carrega arrependimento. Apenas revela uma curiosidade e um talento que nunca desapareceu. “Eu gosto de resolver problemas, sejam de comunicação, dinâmicas de processos, trabalho, tecnologia.”
Essa combinação entre lógica e criatividade também explica sua atuação dentro da agência. Durante muitos anos escreveu campanhas, dirigiu processos criativos e acompanhou clientes. Hoje ocupa a função de CEO, ou diretor-executivo, como prefere, e dedica grande parte do tempo à estratégia, ao planejamento e à gestão do negócio.
Ainda assim, faz questão de continuar envolvido diretamente em algumas demandas do front, especialmente aqueles ligados ao mercado imobiliário, segmento no qual mantém a direção criativa de alguns clientes. A experiência também modificou sua forma de enxergar o papel da publicidade.
Observou para além de campanhas, enxergando as marcas como organismos vivos. Cada decisão, atendimento, produção de conteúdo ou lançamento interfere na percepção construída pelo público. E basta falar na Feira Nacional do Doce, a tradicional Fenadoce de Pelotas, que essa narrativa afetiva ganha ainda mais vida.
Por cerca de 15 anos, a Incomum atendeu o evento e, uma das estratégias, foi a criação do mascote, a Formiga da Fenadoce que, até hoje, pode ser encontrada em vários lugares do município. “É muito legal essa representatividade, saber que fazemos parte de um símbolo que atravessa gerações em Pelotas”, enfatiza.
Filho, marido, pai, irmão, tio
Falar da família é tão gratificante quanto quando cita o trabalho. Da relação com a irmã ganhou mais do que uma parceira para brincar na rua na infância, andar de bicicleta, jogar bola e por aí vai. Recebeu a alegria de se tornar tio de Miguel e Otávio. E a turma toda de primos, na data da entrevista, estava aproveitando as férias escolares ao lado da avó, a mãe de Cuca e Priscila, a bancária aposentada Vera Moreira, 77 anos. “Ela gosta muito de curtir a vida e levou os netos para viajar para Bariloche, na Argentina.”
Na relação com as filhas, aproxima-se por semelhanças desiguais. É isso mesmo. Maria Luísa escolheu a faculdade de Cinema e, atualmente, estagia na Incomum. “Temos essa conexão criativa bem forte”, diz. Alice, a mais nova, toca violão e piano e, nas palavras do pai coruja, “canta maravilhosamente bem”. Com ela, é esse outro lado artístico que os deixa mais conectados, adoram ter conversas profundas e filosóficas.
Ah, não podemos esquecer que, com o passar tempo, também assumiu a posição de sogro. Os namorados das filhas, Eduardo, da Maria Luísa, e Gabriel, da Alice, são parceiros de churrasco, quando todos se reúnem para criar e colecionar boas memórias. “Adoro eles, são pessoas maravilhosas, dei muita sorte.”
Talento sustentável
Quando questionado sobre suas referências, elogia o empresário sócio da Idealiza, Fabiano de Marco, responsável pelo Parque Una. “É a cabeça criativa do negócio, uma pessoa fora da curva. E eu gosto muito de pessoas criativas que consigam tornar o seu talento sustentável”, ressalta o publicitário.
Para continuar atualizado e em constante evolução, também bebe de outras fontes. O livro que está lendo no momento é ‘Nexus: Uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial’, do autor Yuval Noah Harari. Também já devorou as páginas de outros títulos conhecidos do escritos, Sapiens e Homodeus, que considera divisores de água em sua vida.
Viajar e conhecer novas culturas também está entre as atividades preferidas. Não muito tempo atrás, esteve em Malta para um intercâmbio. Por meio do amigo Claucio Brião, que mora na Irlanda, acabou conhecendo um conterrâneo, o escritor Fabricio Barcelos Cardoso. Brião fez acontecer o encontro que gerou uma nova amizade e muita troca de ideias e experiências sobre a escrita.
E claro, como um bom pelotense, comer bem faz parte de cultivar as tradições. E ele é um clássico, nas vitrines das docerias sempre escolhe os famosos que colocaram a cidade no mapa da confeitaria: ninhos de ovos, quindim, bem-casado.
E quando pensa no futuro, apesar de ansioso e perfeccionista, se vê alegre com o horizonte. “Não quero que a Incomum acabe nunca”, registra. Para ele, o sentido está em juntar um pouco de tudo, aproveitar o que de melhor a tecnologia e inovação tem a oferecer, mas sem nunca esquecer que o mais extraordinário segue sendo aproximar pessoas por meio de histórias e criatividade.
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