Copa do Mundo: Messi e Vozinha se encontram em Argentina x Cabo Verde após construírem carreiras em ritmos opostos
Em janeiro de 2012, já aos 25 anos, Vozinha deixou a ilha de Cabo Verde para assinar seu primeiro contrato com um time profissional de futebol, o Progresso do Sambizanga, da cidade de Luanda, em Angola. Naquele mesmo mês, o argentino Messi, um ano mais novo, recebeu em Zurique, na Suíça, sua terceira Bola de Ouro da Fifa. Nesta sexta-feira, esses dois heróis — cada um a seu modo, com seu tamanho e no seu tempo — tentarão levar as também assíncronas seleções da Argentina e de Cabo Verde rumo às oitavas de final da Copa do Mundo.
Provavelmente numa frequência maior do que qualquer outro torneio, o Mundial nos apresenta essas histórias à la Davi e Golias. E é isso que os torcedores verão hoje, a partir das 19h (de Brasília), em Miami, ainda que o discurso politicamente correto de técnicos e jogadores envolvidos tente encurtar distâncias. De um lado estará a Argentina, atual campeã do mundo e vitrine de um futebol até aqui menos vistoso apenas que o da França. Do outro, Cabo Verde, uma das seleções de pior classificação no ranking da Fifa entre as que disputam a Copa, mas que mostrou valentia para conter os campeões Espanha e Uruguai e, assim, despertou empatia de torcedores planeta afora.
Observar as trajetórias de Messi e Vozinha é uma forma de compreender as nuances que separam as duas seleções. O argentino, gênio desde sempre, provoca encantamento pelo toque artístico que é a grande marca de seu futebol — sem que isso signifique distância das estatísticas e dos recordes, que ele, por sinal, continua acumulando nesta Copa.
Já Vozinha é um gênio improvável, daqueles que passam uma vida inteira à margem do potencial que realmente têm. Esse tipo de personagem vive momentos de iluminação plena, como na estreia contra a Espanha, e outros que nos lembram de como são humanos, como na série de falhas que cometeu diante do Uruguai, ainda que elas não tenham custado o resultado.
É fácil admirar Messi, o melhor jogador de futebol deste século, e é fácil se identificar com Vozinha, como provam as mais de 17 milhões de pessoas que decidiram segui-lo nas redes sociais após conhecerem sua história neste Mundial.
Por mais prazeroso que seja acompanhar as duas histórias, uma delas chegará ao fim hoje. E, ainda que haja um favorito evidente, também há esperança (ou o temor) de que o imponderável volte a dar as caras.
— Eles são campeões do mundo, isso diz tudo. Nós estaremos concentrados, temos nossa estratégia para a partida. Como eles, temos a convicção de fazer um bom jogo, procurar a vitória — projetou Bubista, técnico de Cabo Verde, que rasgou elogios ao trabalho feito por Lionel Scaloni na Argentina. — Ele é um dos melhores, gostamos muito da forma como dirige sua seleção. Vai ser um embate difícil para nós, e queremos que seja difícil para eles também.
O temor, ou a cautela, entra justamente na conta de Scaloni. Enquanto a imprensa argentina se empolga com a sequência de boas atuações e uma chave “aberta” para sua seleção, o treinador prefere pisar no freio:
— Estamos em um bom momento, mas as margens são muito pequenas. Esta é uma partida que, se você perde, está fora. Eles são um bom time e não estão aqui por acaso. Devemos respeitá-los, e é isso que faremos.
Para Messi, o avanço de sua seleção hoje representa também a chance de continuar brigando por um dos tantos recordes que acumula. Ele tem 19 gols marcados na história das Copas, mas é acompanhado de perto pelo francês Mbappé, com 18 e à frente de uma França cada vez mais favorita. Mas que o camisa 10 argentino não se esqueça: Vozinha quer fazer o impossível outra vez.
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