Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas apontam que a pressão dos EUA para a venda do F-16 para o país andino reflete o esforço de Washington para trazer a América do Sul de volta ao eixo central de sua diplomacia, impedindo que a região saia buscando outras parcerias.
O governo peruano está em processo de aquisição do caça F-16 norte-americano como parte do plano de renovação da frota iniciado em 2024.
O principal concorrente do F-16 no edital do país andino era o Gripen, fabricado em parceria entre Embraer e Saab, com transferência de tecnologia. A escolha do modelo sueco poderia reforçar a integração sul-americana no setor de defesa, algo considerado crítico para o governo brasileiro tendo em vista o aumento da ingerência norte-americana na região.
Embora a escolha do F-16 tenha sido confirmada pelo governo peruano e pela fabricante do caça, a Lockheed Martin, o presidente interino, José Balcázar, decidiu não assinar o contrato, deixando o ato para seu sucessor, que pode ser a direitista Keiko Fujimori ou o esquerdista Roberto Sánchez, ambos líderes na corrida pelo segundo turno das eleições presidenciais do país.
À Sputnik Brasil, Vinicius Modolo Teixeira, professor de geopolítica da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), considera que a compra de um caça estadunidense marca uma mudança significativa de paradigma na defesa peruana, que até os anos 1990 utilizou preferencialmente aeronaves russas e agora busca uma aproximação militar com os EUA, tendo como desafio reestruturar a doutrina da Força Aérea.
“O F-16 de nova geração, o Viper, o Block 70, vai ser comprado e é uma novidade para o Peru, mas eles vão ter que aprender do zero como utilizar a aeronave com uma nova doutrina de um país fornecedor que eles não têm costume”, afirma.
Ele destaca que houve pressão intensa norte-americana para que o Peru assumisse a compra do caça e os acertos finais foram feitos em uma velocidade surpreendente, que inclui o envio de dois F-16 ao país para um show aéreo que aparentemente não estava confirmado.
“De última hora as aeronaves apareceram em Lima e fizeram a apresentação já para comemorar essa escolha do F-16 como novo caça da Força Aérea Peruana.”
Vinicius Modolo Teixeira observa que há um esforço dos Estados Unidos para fazer com que a América do Sul volte a um eixo central de sua diplomacia na região e não saia buscando outras parcerias, o que explica o avanço para fechar alianças com Paraguai, Bolívia, Argentina, que também comprou caças F-16, embora usados, e agora incorporando o Peru.
“As armas fazem sentido nesse ponto de que vão fazer ali um esforço de dominação, de integração, de conquista da diplomacia dos países da região. E oferecer armas é importante para a confiança mútua ser construída”, explica.
Para Guilherme Frizzera, professor e coordenador do curso de relações internacionais do Centro Universitário Internacional Uninter, a compra do F-16 não significa alinhamento automático, mas cria vínculos duradouros em treinamento, manutenção, doutrina, peças, atualizações e interoperabilidade. E para a integração sul-americana, o sinal é ambíguo.
“O Peru reforça sua capacidade nacional, mas se conecta mais a uma potência externa do que a uma arquitetura regional de defesa. É uma decisão que pode ampliar capacidade, mas também reduzir incentivos para uma soberania regional compartilhada.”
Sandro Teixeira, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), aponta que o F-16 é uma plataforma consolidada e com custos já conhecidos e que pode modernizar um pouco o poder aéreo peruano a um custo possível.
“Entretanto, o custo ganha outro contorno quando pensamos que as capacidades dele são atreladas ao que Washington decidir. Como, por exemplo, a utilização de armamentos e modernização de sensores que, em muitos casos, dependem de consulta aos EUA”, explica.
Segundo ele, a indústria de defesa hoje conta mais como uma ferramenta da geopolítica global que outra coisa.
“Logo, temos cada vez mais processos de aquisição mais demorados pois eles implicam em adquirir o armamento e isso gera um alinhamento político ao menos temporário. Fora a submissão à cadeia industrial de quem vendeu o produto de defesa.”
Para Sandro Teixeira, a diplomacia militar é um dos pontos mais importantes na integração da América do Sul.
“Estabelecendo um diálogo sóbrio, é possível identificar ameaças, traçar cursos de ação e ainda criar mecanismos de troca de equipamentos e conhecimentos para que se possa desenvolver soluções sul-americanas para problemas sul-americanos.”
Diplomacia alinhada à defesa
Na avaliação de Vinicius Modolo Teixeira, a diplomacia é totalmente alinhada com a indústria de defesa, pois seu comprador deve estar alinhado com o país que fornece o equipamento militar.
“Isso é muito importante porque em caso de algum rompimento de relação, a aeronave ou o equipamento militar pode vir a ficar sem uso ou desprovido de equipamento de manutenção. Então isso é muito importante no sentido de que sempre a defesa e a diplomacia devem estar alinhadas.”
No caso do Peru, ele aponta que isso é um problema, pois o país vivencia uma “alternância de governantes com uma velocidade absurda”, o que pode gerar ruído na manutenção dos caças F-16 que serão adquiridos.
“Essa alternância e instabilidade interna pode não favorecer uma continuidade de um projeto que é de décadas. Um caça é comprado ali por utilização atualmente para três décadas, quatro décadas, então o futuro pode vir a ter surpresas com relação à manutenção do F-16 como uma aeronave da Força Aérea Peruana”, afirma.
Além disso, ele não descarta que possa haver o cancelamento da compra a depender do novo presidente que venha entrar, como, por exemplo, Roberto Sánchez, que é de esquerda.
“Foi bastante tumultuada a escolha desse caça para a Força Aérea Peruana, várias idas e vindas, afirmações de que o F-16 havia sido escolhido, depois voltavam atrás, até a queda do ministro da Defesa aconteceu em relação a isso. Então, mesmo que tenham formalizado, não me parece ainda totalmente concreto que a escolha seja definitiva.”
Frizzera diz que “defesa e diplomacia caminham juntas” e que fornecedores de um equipamento de defesa passam a influenciar as condições futuras de operação daquele país.
“Por isso, a indústria de defesa se tornou um instrumento de posicionamento internacional”, resume o especialista.
Em relação à América do Sul, ele argumenta que a diplomacia militar poderia ser uma ferramenta importante de integração porque cria confiança, exercícios conjuntos, canais permanentes de diálogo e cooperação em temas como fronteiras, desastres, crime transnacional e defesa da Amazônia.
O problema, avalia o analista, é que a região perdeu boa parte dos seus arranjos coletivos de coordenação em defesa e segurança. Com isso, a integração passou a depender muito mais dos humores políticos dos governos de turno.
“Essa oscilação dificulta a construção de uma agenda regional estável. Em vez de uma estratégia sul-americana compartilhada, surgem políticas nacionais fragmentadas, muitas vezes conectadas a potências externas distintas. O resultado é uma integração mais frágil, descontínua e vulnerável às mudanças eleitorais.”
Frizzera afirma ainda que a diferença entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez importa porque a compra não envolve apenas capacidade militar, mas também orientação externa, relação com os EUA, custo fiscal e margem de autonomia. Ele ressalta que, como Balcázar não assinou o contrato e deixou o ato para o próximo governo, a escolha do F-16 ainda pode ser confirmada, revista ou renegociada.
“Mesmo assim, uma reversão total não seria simples, pois a escolha já sinaliza preferências técnicas e diplomáticas dentro do Estado peruano.”
Por Sputinik Brasil
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