Quando as enchentes de 2024 invadiram Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, Gabriele dos Santos perdeu a pequena cantina que sustentava sua família. Com um filho diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista e sem sua principal fonte de renda, ela era uma das milhares de pessoas atingidas. Ainda assim, passou a atuar como voluntária da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), ajudando a identificar as necessidades de outras famílias.
Durante a operação, a situação de sua própria casa foi avaliada pelos critérios de vulnerabilidade adotados pela organização. Gabriele recebeu uma cesta básica e um cartão de auxílio para comprar o que faltava. “Essa ajuda veio no momento ideal”, contou.
Leia também:
A história ajuda a explicar uma parte menos visível das respostas humanitárias: quem socorre também pode ser atingido. Além disso, a atuação não começa com a chegada de um caminhão de doações, nem termina quando a água baixa ou o desastre deixa de aparecer no noticiário.
A resposta começa antes do desastre
Em oito países da América do Sul, cada escritório nacional da ADRA possui um Plano Nacional de Gestão de Emergências, conhecido em inglês pela sigla NEMP (National Emergency Management Plan). O documento é adaptado aos riscos e à realidade de cada país e reúne procedimentos construídos a partir de experiências anteriores.
Diante de uma calamidade, o plano orienta a avaliação inicial, a definição da resposta e a mobilização das equipes. A preparação também inclui reuniões periódicas, capacitações, análise de possíveis ameaças e contato prévio com autoridades e organizações que poderão participar da operação.
“Quando ocorre uma emergência, a equipe já conta com um guia de ação imediata. Isso permite avaliar rapidamente a situação, definir a resposta mais adequada e mobilizar-se para o local”, explica Javier Catalán, coordenador de Voluntariado para a América do Sul.
Dependendo da dimensão do desastre, a ADRA para a América do Sul providencia, em conjunto com a ADRA Internacional, os recursos necessários para a primeira resposta. Se a capacidade do escritório nacional for insuficiente, a rede global também pode ser acionada, ou seja, outras unidades da agência podem socorrer.
Outro recurso é a Equipe Regional de Resposta a Emergências, formada por profissionais capacitados em diferentes países. Esses especialistas podem ser deslocados para reforçar a operação local em áreas como logística, gestão de abrigos, avaliação de necessidades e coordenação humanitária. A estrutura segue o modelo internacional de preparação da organização.
O que acontece nas primeiras 48 horas
Inicialmente, a prioridade não é distribuir um item previamente escolhido, mas compreender o que ocorreu, quantas pessoas foram afetadas e quais necessidades precisam ser atendidas com maior urgência.
Nas primeiras 24 a 48 horas, as equipes realizam um levantamento de necessidades. É essa análise que indica se a prioridade será água, alimentação, abrigo, produtos de higiene e limpeza, proteção, atendimento de saúde ou auxílio financeiro.

O objetivo é que uma equipe de resposta esteja em campo dentro desse período. Nem sempre, porém, isso é possível. Estradas bloqueadas, rios transbordados, deslizamentos, incêndios e riscos à segurança podem atrasar a chegada às comunidades.
As informações levantadas também são compartilhadas em mesas de coordenação que reúnem autoridades, organizações humanitárias e representantes da sociedade civil. Nesses espaços, são definidas as regiões e as necessidades que ficarão sob responsabilidade de cada instituição. A articulação evita que várias organizações concentrem recursos no mesmo lugar enquanto outras comunidades permanecem sem atendimento.
As congregações adventistas também desempenham um papel importante nessa estrutura. Dependendo da emergência, templos e outras instalações podem funcionar como abrigos, centros de operação, pontos de coleta ou locais de atendimento. Pastores e membros que conhecem a região ajudam a localizar comunidades isoladas, identificar necessidades e mobilizar voluntários.
Entre 2021 e 2024, mais de 200 voluntários foram capacitados e 6.899 pessoas participaram de respostas emergenciais da ADRA nas sedes da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai. A prontidão, nesse caso, não significa agir de maneira improvisada, mas demonstrar preparo, conhecer a própria função e atuar sob a coordenação das equipes responsáveis.
Quando a urgência muda de forma
Dentro do ciclo humanitário, o desastre é o evento. Em seguida, vem a fase de resposta, voltada às condições básicas de sobrevivência. Depois começa a recuperação, quando as necessidades deixam de ser apenas imediatas e passam a envolver a reconstrução da vida.
“Durante a resposta, buscamos suprir o básico, como água, comida, higiene e limpeza. Na recuperação, tentamos apoiar as famílias para que retomem parte da vida que tinham antes da emergência”, explica João Barboza, oficial de emergências da ADRA Brasil.

Algumas semanas após o início da operação, uma nova análise é realizada. A organização acompanha a situação dos bairros, mantém o registro das famílias atendidas e promove o monitoramento pós-distribuição, uma pesquisa feita com parte dos beneficiários para verificar se a assistência recebida foi adequada.
A recuperação pode incluir transferências financeiras de maior valor para a reconstrução de uma casa ou a retomada de um pequeno negócio, espaços seguros para crianças enquanto os responsáveis trabalham, apoio psicossocial e projetos de geração de renda. Em algumas comunidades, essa fase pode se conectar a ações de desenvolvimento social mais duradouras.
A duração do acompanhamento depende das necessidades identificadas e dos recursos disponíveis. Por isso, duas famílias atingidas pelo mesmo desastre podem precisar de modalidades e períodos diferentes de assistência.
Rio Grande do Sul: da comida à retomada da renda
A resposta às enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul mostra como essas etapas se conectam. A operação mobilizou 24 projetos, recebeu e empenhou mais de US$ 5 milhões e alcançou 71.161 pessoas em 33 municípios.
Na fase mais crítica, a organização gerenciou quatro abrigos temporários, distribuiu mais de 15 mil refeições, lavou 35 mil quilos de roupas e entregou 4.103 kits de emergência. Também foram distribuídos 23.196 vouchers multipropósito, que permitiram às famílias decidir quais itens eram mais necessários naquele momento.

Com a passagem para a recuperação, a ajuda mudou de formato. Mais de 2,8 mil famílias receberam um voucher de R$ 3 mil para apoiar a reconstrução de suas casas e a reposição de itens perdidos.
A atuação prosseguiu mesmo depois que as imagens da enchente deixaram de ocupar o centro do noticiário. Em Porto Alegre, o projeto Reconstruindo com Dignidade ofereceu formação profissional em áreas como corte e costura, cabeleireiro, barbearia, manicure e artesanato em madeira. Ao final, 68 participantes concluíram a capacitação e receberam R$ 1.875 cada um para adquirir ferramentas e iniciar ou retomar uma atividade profissional.
Entre eles estava Janaína Lousado, que perdeu equipamentos e a fonte de renda da família. “Hoje estou trabalhando e reconstruindo não só a renda, mas a confiança em mim mesma”, relatou após a conclusão do projeto.
O que uma doação consegue fazer
Nos cenários orçamentários atuais da ADRA Brasil, uma contribuição de R$ 100 pode ajudar a viabilizar um kit de limpeza para uma família retirar a lama e começar a recuperar sua casa após um alagamento.
Valores menores também se somam e ampliam a quantidade de pessoas atendidas. Segundo João Barboza, os cenários previamente elaborados pela organização estimam operações capazes de alcançar até 900 famílias. Em uma calamidade de grande escala, porém, o número de pessoas afetadas pode superar rapidamente essa capacidade.
As doações recorrentes ajudam a organização a manter recursos disponíveis antes que uma nova emergência aconteça. Também permitem que o atendimento continue na fase de recuperação, quando a mobilização pública diminui, mas muitas famílias ainda não recuperaram a casa, a renda ou a rotina.
Reconhecimento amplia visibilidade
A atuação humanitária ganhou um novo reconhecimento em 2026. A ADRA Brasil garantiu uma vaga no Top 20 da categoria Ações Sociais do Prêmio iBest, que avalia alcance, engajamento, relevância digital, histórico e impacto de iniciativas brasileiras.
A classificação pode aproximar a organização de novos voluntários, doadores e parceiros. “Quanto maior essa visibilidade, maiores também são as oportunidades de mobilizar voluntários, fortalecer parcerias e ampliar o alcance das nossas ações”, afirma Herbert Boger, diretor da ADRA Brasil.
Você também pode receber esse e outros conteúdos diretamente no seu dispositivo. Assine nosso canal no Telegram ou no WhatsApp.
Quer conhecer mais sobre a Bíblia ou estudá-la com alguém? Clique aqui e comece agora mesmo.
Crédito: Link de origem