Cabo Verde e a China deram um novo passo na cooperação económica bilateral com a assinatura de um Memorando de Entendimento entre o Governo, através do Ministério da Coordenação de Projectos Especiais e Acesso a Fundos, e a China Machinery Engineering Corporation (CMEC), que abre caminho à mobilização de tecnologia, engenharia, investimento e financiamento para projectos estratégicos nas áreas da energia, água, agricultura e desenvolvimento integrado de São Vicente e das ilhas do Norte.
O acordo, assinado Terça-feira, 11 de Agosto, segundo um comunicado do Governo publicado no seu website e consultado pela FORBES ÁFRICA LUSÓFONA, estabelece um quadro de cooperação de médio e longo prazo e poderá colocar a capacidade financeira e tecnológica de uma das maiores empresas chinesas de engenharia ao serviço de infra-estruturas consideradas prioritárias para o desenvolvimento de Cabo Verde.
Entre as intervenções previstas estão a modernização do sistema energético, novos projectos de produção e armazenamento de energia, dessalinização, reutilização de águas residuais e reabilitação da Barragem de Poilão.
Na frente energética, a cooperação deverá abranger a modernização e reabilitação das centrais termoeléctricas existentes, a construção de novas infra-estruturas de produção, sistemas de armazenamento, redes eléctricas e estruturas de apoio à mobilidade eléctrica.
A estratégia está alinhada com a meta do Governo de elevar para 70% a participação das energias renováveis no sistema energético até 2031 e alcançar a descarbonização até 2040.
O eixo da água e agricultura assume igualmente dimensão estratégica para um país sujeito a forte escassez de recursos hídricos. O memorando prevê investimentos em dessalinização da água do mar, reutilização de águas residuais, sistemas de rega de precisão e gestão inteligente da água, além da reabilitação da Barragem de Poilão. O objectivo é aumentar a disponibilidade de água para consumo e produção agrícola, reduzindo uma das principais limitações estruturais ao desenvolvimento do sector.
O terceiro eixo concentra-se em São Vicente e nas ilhas do Norte, com projectos destinados a reforçar a conectividade e a capacidade económica da região. Entre as intervenções previstas estão a valorização da Baía Sul, a requalificação da orla marítima de Cabnave e o reforço das ligações entre São Vicente, Santo Antão e São Nicolau.
A ambição é transformar estas intervenções num corredor de desenvolvimento para o Norte, com impacto potencial na logística, nos serviços marítimos, no turismo e na integração económica entre as ilhas.
Para uma economia insular como a cabo-verdiana, a melhoria das ligações marítimas e da infra-estrutura logística pode ter efeitos que ultrapassam os projectos individuais, ao reduzir custos de circulação e ampliar o mercado interno.
O memorando foi assinado pelo ministro da Coordenação de Projectos e Acesso a Fundos, José Carlos Varela, e pelo presidente do conselho de administração da CMEC, Wang Bo, numa cerimónia testemunhada pelo primeiro-ministro, Francisco Carvalho, e pelo embaixador da China em Cabo Verde, Zhang Yang.
Wang Bo destacou a experiência da CMEC em projectos internacionais nos sectores da engenharia, energia, transportes e recursos hídricos, lembrando a participação da empresa no projecto de dessalinização da água do mar na ilha de Santiago. A companhia manifestou disponibilidade para mobilizar capacidade tecnológica, de gestão, engenharia e financiamento para as prioridades definidas pelo Governo cabo-verdiano.
Entre os resultados esperados pelas partes estão a criação de emprego local, o reforço da capacidade industrial e a construção de infra-estruturas capazes de produzir impacto directo nas condições de vida da população. A concretização desses objectivos, contudo, dependerá da transformação do memorando em projectos com financiamento, calendários de execução e modelos de implementação claramente definidos.
O embaixador Zhang Yang classificou o acordo como mais um resultado da cooperação prática entre os dois países e afirmou que Pequim está disponível para apoiar o novo Governo cabo-verdiano.
O diplomata defendeu que o memorando deve servir como ponto de partida para acelerar a concretização dos projectos e reforçar a coordenação entre as autoridades e as empresas dos dois países.
Para Francisco Carvalho, a importância do acordo está directamente ligada às prioridades do programa de governação, nomeadamente a sustentabilidade energética, a segurança hídrica, o desenvolvimento agrícola e a criação de um corredor económico a partir de São Vicente. O primeiro-ministro defendeu uma estratégia de desenvolvimento equilibrado, articulando diferentes sectores e regiões do arquipélago.
A assinatura ocorre no ano em que Cabo Verde e China assinalam 50 anos de relações diplomáticas. Em 2024, os dois países elevaram a relação bilateral ao nível de parceria estratégica, enquadramento que poderá agora ganhar uma dimensão mais económica e infra-estrutural com a entrada de novos projectos em áreas consideradas críticas para o crescimento cabo-verdiano.
Crédito: Link de origem