Carreguei no botão pela Seleção

Cabo Verde teve todo o seu país a apoiar sem reservas. Está na hora de a seleção portuguesa ter o mesmo apoio

Passaram duas semanas desde este meu artigo. Ele gerou bastantes reações, mas desde então as opiniões generalizadas sobre a capacidade da nossa seleção e do treinador já mudaram quatro vezes. É por isso que tenho que voltar a escrever sobre futebol.

Relembro que é uma coluna de opinião, e não uma coluna jornalística, portanto deixem-me dar ao luxo de não fundamentar tudo o que digo nem dizer tudo o que me parece ter fundamentos. Deixo aos jornalistas o jornalismo. Eu estou mais interessado na estratégia.

A lição do Vozinha

Acho que todos concordamos que Cabo Verde não tem a melhor equipa do mundial. Acho que concordamos todos que a Argentina é uma das melhores seleções deste mundial a par, talvez, com a Espanha. Concordando nos pressupostos podemos falar da lição que Cabo Verde deu ao mundo do futebol, e ao mundo sem futebol. O que aconteceu naquele jogo foi quase épico.

Tudo começou com um Vozinha que se transformou num fenómeno logo frente à Espanha. Não um daqueles fenómenos objetivos e pragmáticos. Daqueles que fazem um jogador revelar-se e transformar-se na referência técnica de uma determinada equipa. Vozinha não virou fenómeno por causa disso, até porque a carreira dele já vai longa e os anos de mostra já passaram há muito.  Jogou inclusive em Portugal e nunca foi a capa que é hoje nos media, nem nunca foi o herói sem capa que é agora. Nunca se tinha falado de Vozinha e de repente fala-se de um país inteiro. O que Vozinha fez foi muito mais do que transformar a sua carreira que já é imutável. Vozinha transformou um país enquanto se transformou num legado.

Quando se entrega tudo em campo e em cima disso se entrega uma imensa humildade, não há muro que trave a onda empática que se cria. Vozinha multiplicou enormemente as suas redes sociais mas multiplicou também o orgulho nacional, a confiança da equipa, dos adeptos, da nação e até mesmo dos milhares de simpatizantes que criou nos quatro cantos do mundo. A empatia faz parte do jogo e, quando a mesma está carregada de humildade, saltam à vista as diferenças entre o bem e o mal. Vozinha fez as pessoas acreditar no bem.

O adepto -1

Criticar por criticar é ser adepto -1. Apoiar quando importa é ser adepto +10.000.000 . Quando apoiamos incondicionalmente a nossa seleção estamos a ser o adepto +10.000.000. No primeiro caso criamos tensão, criamos insegurança, criamos hesitação. Tudo aquilo que Cabo Verde não sentiu porque em Cabo Verde optou-se pela opção 2. Este apoio retirou toda a pressão desnecessária e adicionou toda a tensão fundamental. Bem se viu como jogavam tranquilamente cada jogo deste mundial, por vezes demasiado ingenuamente junto da sua própria área, mas não havia como retirar o Carpe Diem àqueles jogadores heroicos.

O futebol é um jogo de diversão competitiva. É mau quando é só diversão. É mau quando é só competitividade. O futebol vive no intervalo entre as duas. Existe um balanço no futebol que tem persistido ao longo dos anos e que faz do futebol aquilo que é. Depois há a parte do entretenimento que alcança o apogeu quando diversão e competitividade se juntam.  Hoje quase ontem aconteceu isso. Os jogadores entraram em campo para dar tudo, para se divertirem e, inevitavelmente, entreterem. Fizeram acontecer talvez o melhor jogo do mundial 2026.

Devemos copiar Cabo Verde e deixar as críticas para trás, porque já vimos muitas vezes daquilo que os rapazes são capazes e daquilo que as críticas são capazes. Cada jogo é um jogo e há momentos para criticar e outros para confiar. Não vou desconfiar de uma seleção no momento em que estamos a quatro jogos do fim. O plano está feito. Não há nada a fazer se não confiar. Terei muito tempo para criticar e para debitar toda a minha sabedoria ou ignorância acerca de futebol.

Temos uma equipa de luxo, jogadores de luxo, e cada um sabe bem como ser o melhor em campo e fora dele e cada um sabe bem como dar o seu melhor. O que os jogadores precisam é da confiança dos seus adeptos que neste caso é um país inteiro. A confiança para darem o seu melhor e para confiarem em si próprios. Naquela madrugada, Cabo Verde mostrou o valor da confiança e jogou de igual para igual contra uma das melhores seleções do mundo. Perderam, sim, no prolongamento, mas nem a Espanha nem a Argentina os venceram em noventa minutos. Saíram de cabeça erguida, e é isso que dá peso à lição. A nossa seleção parece ter que andar sempre a justificar-se, mesmo quando tem feito um percurso eficiente. Não espetacular mas eficiente.

É hora de acabar com divisões. Acreditar na força da técnica e na técnica da força. Meter uma pata de coelho num bolso e um trevo de quatro folhas no outro e acreditar, torcer, vibrar. Vestir a camisola mas também a pele dos guerreiros que já têm adversários que chegue. 

“Põe o teu dinheiro onde tens a tua boca”

Ontem refleti muito e decidi enviar o meu novo livro “Frequência de Ressonância — M.V. Bernardo” para os jogadores da seleção. Não é um livro sobre futebol. É um livro sobre confiar no sinal certo mesmo quando tudo à volta grita para duvidar, e é essa a única mensagem que lhes quero deixar. A  Amazon dava-me como prazo de entrega 16 de Julho. Nessa data ou estamos em casa ou estamos na final. Olhei para o botão 3 segundos e carreguei. Foi aí que percebi a confiança que tenho nesta seleção. Os livros vão a caminho, e a seleção vai recebê-los no hotel-quartel general, porque a seleção vai mesmo à final do campeonato do mundo.

Estou convicto, estou confiante e, como dizem os americanos, “put your money where your mouth is.” 

 Eu já pus o meu dinheiro onde tenho a minha boca. Falta a seleção pôr os golos onde tem os pés.

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