A Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA) realizou um importante teste de navegação espacial ao conduzir a sonda Hayabusa2 em um sobrevoo extremamente próximo do asteroide Torifune. A operação integra os esforços para desenvolver tecnologias que, futuramente, poderão ser utilizadas em missões de defesa planetária caso algum asteroide represente risco de colisão com a Terra.
Segundo informações divulgadas pelo Olhar Digital, a missão não tinha como objetivo atingir o corpo celeste, mas sim demonstrar que a espaçonave é capaz de executar trajetórias com um nível de precisão considerado essencial para futuras operações de desvio de asteroides.
Um teste de precisão extrema
Durante a operação, a Hayabusa2 passou próxima ao asteroide Torifune viajando a mais de 18 mil quilômetros por hora.
Antes da manobra, a expectativa da JAXA era que a sonda, que possui dimensões semelhantes às de uma geladeira, cruzasse a região a aproximadamente 800 metros do asteroide.
Segundo uma porta-voz da agência, às 18h35 no horário do Japão (6h35 no horário de Brasília), o sobrevoo havia sido realizado com sucesso e a espaçonave continuava funcionando normalmente.
Imagens divulgadas pela JAXA mostraram cientistas comemorando a conclusão da operação na sala de controle, enquanto um integrante da equipe admitiu que acompanhou toda a manobra com apreensão até a confirmação de que tudo havia ocorrido conforme o planejado.
Caso a distância prevista seja confirmada, a operação estará entre os sobrevoos mais próximos já realizados de um asteroide localizado nas proximidades da Terra.
Desafio comparado a acertar uma moeda
Antes da missão, Yuya Mimasu, integrante da JAXA, explicou o grau de dificuldade da operação utilizando uma comparação bastante ilustrativa.
Segundo ele, conduzir a Hayabusa2 até o ponto planejado seria equivalente a fazer um disparo atravessar uma moeda de um iene posicionada a uma distância semelhante à que separa Okinawa e Hokkaido, extremos sul e norte do Japão.
De acordo com a comparação apresentada pela agência, essa distância é semelhante ao trajeto entre São Paulo e Recife, evidenciando o nível de precisão exigido para a navegação espacial.
Dados importantes para futuras missões
Além de validar os sistemas de navegação, a missão também permitiu registrar novas informações sobre a superfície do asteroide Torifune.
As câmeras da Hayabusa2 coletaram dados relacionados à geografia, à textura e à temperatura do corpo celeste.
Segundo Patrick Michel, cientista do projeto na Agência Espacial Europeia (ESA), essas informações são fundamentais para futuras estratégias de defesa planetária.
Isso porque o comportamento de um asteroide diante de um eventual impacto depende diretamente de sua composição. Apenas imagens obtidas por uma espaçonave permitem identificar se sua superfície é formada por rochas expostas, grandes blocos ou materiais mais semelhantes à areia.
O pesquisador destacou que um objeto com estrutura mais “esponjosa” responderia de maneira diferente ao impacto de uma nave quando comparado a um asteroide extremamente sólido.
Apesar dos testes, a atual missão não está relacionada a nenhuma ameaça real de colisão contra a Terra.
Um histórico de descobertas
Lançada em 2014, a Hayabusa2 já havia se destacado em uma das missões mais importantes da exploração espacial recente.
A sonda pousou no asteroide Ryugu, localizado a cerca de 300 milhões de quilômetros da Terra, onde coletou amostras de material da superfície.
Seis anos depois, essas amostras retornaram ao planeta, permitindo que cientistas estudassem materiais capazes de fornecer pistas sobre a formação do Sistema Solar, ocorrida há aproximadamente 4,6 bilhões de anos.
Após o sobrevoo de Torifune, a próxima grande missão da Hayabusa2 está prevista para 2031, quando a espaçonave deverá realizar um rendezvous com o asteroide 1998 KY26. Nesse tipo de operação, a sonda acompanha o objeto de perto ou realiza um pouso para coletar informações detalhadas.
O novo teste também amplia os conhecimentos obtidos após a missão DART, da NASA, que em 2022 conseguiu alterar com sucesso a órbita do asteroide Dimorphos ao colidir deliberadamente contra ele. Para os pesquisadores, experiências como essas continuam sendo essenciais, já que cada asteroide apresenta características próprias de tamanho, formato e composição, fatores que influenciam diretamente qualquer futura estratégia de proteção do planeta.
*Sob supervisão de Éric Moreira
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