Cabo Verde é um coração limpo, esta FIFA é uma vergonha

Uma seleção sem dinheiro nem estrelas, de um país sem poder nem influência, jogando limpo e aberto, sem cinismo nem calculismo, sem medo de perder nem medo de ganhar, Cabo Verde é a equipa que reduz Gianni Infantino a breve líder de longas corrupções em que a FIFA descaradamente se tornou. A anulação de decisões de árbitros a pedido de Trump é tão grave que o vermelho saiu do cartão para corar as faces de vergonha

Cabo Verde nunca na vida ganhará com a vergonha que é esta FIFA. Nem Cabo Verde nem nenhum país que não envolva millhões de dólares.

A FIFA é um órgão que se diz sem fins lucrativos e a quem faltam princípios desportivos, que abre os braços ao poder e as pernas ao dinheiro, dobrando-se em ridentes autogolos. A FIFA capta redes mas não tem balizas, precisaria de um Vozinha a guarda-lhe a decência ou de uma vozinha na consciência que perdeu algures. A suspensão do castigo ao avançado Folarin Balogun a pedido (a mando?) de Donald Trump é uma destruição em campo aberto. Como a de Ronaldo, mais discreta, também foi. Com esta FIFA vinga o quero, pago e mando. E nada nem ninguém põe cobro à perfídia deste infante sem tino, nobre sucessor do desonrado Sepp Blatter, rico sucessor do subornado João Havelange.

A história de escândalos de corrupção, fraudes e subornos na FIFA é tão vasta quanto as suspeitas de fuga aos impostos após lucros astronómicos, que se concentram nas organizações dos Mundiais.

Uma empresa comprada pela FIFA que tinha os direitos de transmissão dos Mundiais de 2002 e 2006 foi acusada de fraude, falsificação de documentos e pagamentos ilegais a responsáveis da FIFA: o ex-presidente da FIFA João Havelange terá recebido subornos de milhões de dólares. Em 2015, sete gestores da FIFA foram acusados de corrupção e de receberem subornos de 150 milhões ao longo de décadas. Em causa estiveram também as decisões duvidosas da atribuição do Mundial de 2018 à Rússia e do Mundial de 2022 ao Catar. Um dos países perdedores da disputa acusou a FIFA de ter sido comprada pelo Catar: foram os Estados Unidos, que organizam o Mundial de 2026, escolha que o Le Monde há dias insinuava ser uma compensação pela exclusão de 2022.

Foi assim que o Mundial foi crescendo, de 16 para 24 equipas em 1982, para 32 em 1998, para 48 em 2026. Só há uma razão: dinheiro, mais dinheiro, muito dinheiro, patrocínios, direitos de transmissão, bilheteira, publicidade, merchandising, etc.

Mas a cupidez e a falta transparência não explicam tudo. A retirada do castigo disciplinar ao norte-americano Folarin Balogun, depois de terem sido noticiadas pressões de Donald Trump, é uma vergonha sem tamanho. É o fim da neutralidade política da FIFA e da independência da arbitragem. Noutros tempos, os árbitros entrariam hoje em greve. Mas quem recusa os elevados pagamentos que (também) os árbitros recebem? 

O caso de Cristiano Ronaldo, que em novembro viu reduzida a suspensão de três para um jogo depois de um cartão vermelho contra a República da Irlanda, também é grave, mas por outra razão. Não foi o “poder político”, foram os milhões que um astro movimenta. 

Esta FIFA lambuza-se em dinheiro e o dinheiro está à volta das grandes estrelas e das grandes equipas, são elas que enchem estádios a preços caríssmos. E é por isso que Gianni Infantino mal disfarçava a felicidade com o apuramento da Argentina no jogo contra Cabo Verde. Cabo Verde é um país pequeno, sem estrelas, sem poder, sem influência, sem riqueza, a única utilidade que Cabo Verde tem para a FIFA é que, paradoxalmente, vai servir-lhe para justificar o alargamento do Mundial.

Nesta gigante negociata a que antes chamávamos futebol, o descrédito abate-se sobre o desporto. É isso que os croatas dizem que Portugal foi beneficiado no golo anulado por um cabelo para que Ronaldo continuasse no Mundial. A FIFA precisa de Ronaldo a jogar, de Messi a golear, de Haaland a despontar, de Mbappé a acumlar, de Kane a marcar, são eles que mais lucro geram.

E não, não foi sempre assim. No Mundial de 1982 houve um acontecimento extraordinário: o Kuwait estava a levar um baile da França e, ao quarto golo sofrido, o sheikh Fahad Al-Ahmand Al-Sabah, irmão do emir do Kuwait, desatou a protestar, desceu ao relvado rodeado de militares, ameaçando mandar a equipa do Kuwait embora e exigindo a anulação do golo por fora de jogo. Uma loucura. O golo acabou por ser anulado logo ali pelo árbitro, que terá temido pela vida. No dia seguinte, o árbitro foi suspenso, não devia ter anulado o golo. 

Podemos imaginar Donald Trump a perder a cabeça num estádio se os Estados Unidos estivessem a perder por muitos. A diferença é que não precisaria de descer ao relvado rodeado de militares, talvez bastasse olhar para Gianni Infantino.

É aqui que entra Cabo Verde. É a seleção que brilha como equipa, não como indíviduos mais ou menos astrais, É a seleção anti-FIFA, não serve para nada a esta máquina de fazer dinheiro de Infantino mas serve a todos os que amam futebol – e todos os que amam a alegria e a vida. Que lição e inspiração deram a todo o mundo.

Espero que os Estados Unidos percam o jogo contra a Bélgica. Não por vingança, mas para que os golpes não compensem. Este desejo não tem nada de desportivo, só de político. Eles começaram primeiro: Trump e Infantino transformaram este Mundial num espetáculo de vícios de bastidores. E quando o futebol se confronta com a política, a política tem de perder.

Ou como canta Manu Chao (e cantou ao próprio – ver vídeo em baixo): “Si yo fuera Maradona saldría en Mondovision Pa’ gritarles a la FIFA que ellos son el gran ladrón”

 

Crédito: Link de origem

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