Brasil ‘Tem Tudo para Ser Potência’, Mas Precisa Vencer Desafio Fiscal, Diz Mansueto Almeida

Para o economista-chefe do BTG Pactual e ex-Secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, o Brasil “tem tudo para ser potência”, mas precisa criar um senso de prioridade sobre as questões fiscais.

A avaliação é de que somente controlando as despesas o Brasil deve criar um ambiente para que os juros voltem a um patamar baixo.

Repetir a estratégia de aumentar a carga tributária, por outro lado, não deve se mostrar uma diretriz eficiente.

“O desafio do Brasil não é simplesmente aumentar o resultado primário, aumentando carga tributária. Isso não vai funcionar. O desafio do Brasil é controlar o crescimento do gasto. E, ao controlar o crescimento do gasto, nós poderemos ter taxas de juros razoáveis, como nós tínhamos há poucos anos atrás. E, com esses juros baixos, de valorização das empresas, uma valorização das cotas do setor imobiliário em um cenário muito mais positivo”, disse.

O economista falou em painel do TRX Day, evento da TRX Real Estate, que faz a gestão do TRXF11.

Mansueto ainda adicionou que interlocuções recentes com o Governo Federal reforçam essa visão.

“Temos conversado muito com diversos representantes da área econômica do governo e a notícia que a gente tem, o que a gente escuta deles, é realmente uma preocupação com o fiscal. Eles sabem que daqui para frente não dá simplesmente para fazer o que foi feito nos últimos quatro anos”, disse.

“É preciso falar, ‘olha, programas sociais cresceram muito no Brasil, foi positivo, mas o desafio agora é outro’. O desafio é criar um ambiente de juros baixos para ter recuperação do investimento e um crescimento consistente, porque esse crescimento consistente vai depender, por exemplo, de produtividade”, completou o economista-chefe do BTG Pactual.

O tamanho do problema fiscal brasileiro, em números

As falas vêm em um momento que, em meio à corrida eleitoral, a política fiscal e eventuais mudanças da regra fiscal ainda são deixadas de lado — visto que é um tema ruim para angariar capital político e espinhoso de forma geral.

No entanto, os primeiros acenos após o resultado das eleições devem ser importantes para mostrar a tônica do próximo mandatário.

O tema ganha ainda mais relevância à medida que as projeções indicam que a máquina pública pode parar no curto prazo, proporcionando um shutdown nos próximos anos. O cenário pode se concretizar visto que, a partir de 2027, os gastos com precatórios voltam a contar na meta fiscal.

O problema não é falta de recursos, mas falta de espaço para alocá-los.

O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) 2027 prevê R$ 2,49 trilhões em despesas obrigatórias, contra apenas R$ 274,7 bilhões em discricionárias, mostrando mais de 90% do orçamento já comprometido.

Além disso, há mais de vinte semanas o consenso do mercado financeiro é de déficit primário de 0,50% do PIB para este ano e de 0,40% para o próximo ano, evidenciando o ceticismo com a capacidade de gerar superávit neste e no próximo ciclo orçamentário.

O Raio X do Monitoramento Fiscal Bimestral, uma publicação da Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira (Conof) disponível no Portal Orçamento da Câmara, indica que o resultado das contas do governo exibe déficit de R$ 60,3 bilhões neste ano. O número equivale a 0,4% do PIB. O centro da meta de resultado corresponde a R$ 34,3 bilhões. A diferença de valores até o centro da meta soma R$ 30,2 bilhões.

No Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF), o Instituto Fiscal Independente (IFI) frisa que seria necessário gerar um superávit primário de 2,1% do PIB por ano para estabilizar a relação dívida/PIB. Esse seria um esforço fiscal muito acima de qualquer meta hoje em discussão no arcabouço fiscal vigente — que mira déficit zero e não superávit.

Nesse sentido, a instituição conclui que a situação exige um “ajuste estrutural mais profundo e sustentável”, independentemente dos esforços de curto prazo da equipe econômica na gestão do orçamento.

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