O problema central das recentes agressões do presidente argentino Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassa em muito os limites da grosseria diplomática. Não se trata apenas da quebra do protocolo internacional nem de um episódio de deselegância entre chefes de Estado. Estamos diante da manifestação de um projeto político que busca enfraquecer décadas de construção da integração sul-americana e reposicionar a Argentina dentro de uma nova arquitetura geopolítica marcada pelo alinhamento automático aos interesses das grandes potências ocidentais.
As reiteradas ofensas de Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva produziram um desdobramento raro na história diplomática contemporânea da América do Sul. O governo brasileiro decidiu rebaixar oficialmente suas relações com a Argentina ao nível de encarregados de negócios, mantendo seu embaixador fora de Buenos Aires até que cessem os ataques e sejam apresentadas explicações consideradas satisfatórias. Trata-se de uma medida excepcional, utilizada apenas quando a confiança política entre os Estados sofre grave deterioração. A decisão brasileira demonstra que a crise deixou de pertencer ao campo da retórica para alcançar o plano institucional das relações internacionais, afetando diretamente o diálogo político entre as duas maiores economias do Mercosul.
Presidentes passam, os povos permanecem. Talvez nenhuma outra afirmação sintetize melhor a história das relações entre Brasil e Argentina. As declarações de Milei durante sua visita ao Brasil para participar do lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro não representam a vontade do povo argentino, representam a opção política de um governo que transformou o conflito permanente em método de ação e que parece compreender a política externa como extensão das disputas ideológicas internas.

Na diplomacia, entretanto, palavras nunca são apenas palavras. Quando um chefe de Estado utiliza o território de outro país para insultar seu presidente, não ofende apenas uma pessoa, ofende a instituição presidencial, desafia a soberania nacional e produz, deliberadamente, uma crise diplomática. O gesto torna-se ainda mais significativo porque rompe uma tradição construída ao longo de mais de um século de aproximação entre as duas maiores nações da América do Sul.
Curiosamente, o episódio não encontra paralelo desde meados do século XIX. A última grande ruptura entre os dois países remonta a 1852, quando o Brasil imperial participou da coalizão que derrotou Juan Manuel de Rosas na Batalha de Caseros. Naquela ocasião, foi mais do que um insulto: Urquiza aliou-se às tropas brasileiras para derrubar Juan Manuel de Rosas. Desde então, mesmo atravessando guerras, crises econômicas, ditaduras militares e profundas divergências ideológicas, Brasil e Argentina aprenderam progressivamente que sua estabilidade dependeria mais da cooperação do que da rivalidade.
A partir daquele episódio, a relação entre os países vizinhos foi sendo reconfigurada até alcançar alguns marcos de aproximação que moldaram o vínculo tanto no plano comercial quanto no cultural e geopolítico. A visita do presidente argentino Julio Argentino Roca ao Brasil, em 1898, seguida da missão de Campos Sales a Buenos Aires, inaugurou uma nova etapa diplomática. Décadas depois, Juan Domingo Perón propôs o chamado Pacto ABC — Argentina, Brasil e Chile — como eixo estratégico de desenvolvimento regional, antecipando debates que somente décadas mais tarde ganhariam força com a teoria da integração latino-americana.
Algumas dessas alianças ocorreram em um contexto do qual não nos orgulhamos, como quando Argentina, Brasil e Uruguai uniram forças para esmagar o país mais independente do continente naquele momento: o Paraguai de Solano López. Quando, também, as ditaduras da América Latina se articularam, sob a direção estratégica do Departamento de Estado dos Estados Unidos e da Escola das Américas, no Panamá, para sequestrar ilegalmente e fazer desaparecer militantes políticos.
Durante grande parte do século XIX, Brasil e Argentina disputavam influência sobre a Bacia do Prata. Ao longo do século XX, porém, essa lógica foi sendo substituída pela percepção de que os dois países possuíam interesses estratégicos comuns.
Essa perspectiva seria aprofundada pelos estudos da CEPAL, sob a liderança de Raúl Prebisch, que demonstrou como a dependência econômica latino-americana resultava da posição periférica ocupada por nossos países na economia mundial. Mais tarde, intelectuais como Helio Jaguaribe, Aldo Ferrer e Celso Amorim defenderiam que apenas a integração regional permitiria ampliar a autonomia política, econômica e tecnológica da América do Sul diante das grandes potências. Foi justamente essa compreensão estratégica que permitiu o nascimento do Mercosul, em 1991.
O bloco jamais foi apenas um acordo comercial, representou um projeto político de construção de confiança mútua entre dois países que, durante décadas, haviam alimentado desconfianças recíprocas. Posteriormente surgiriam a UNASUL e a CELAC, iniciativas que buscavam construir mecanismos próprios de coordenação política, diminuindo a histórica dependência latino-americana das agendas formuladas em Washington. A CELAC reúne 33 países e exclui apenas o Canadá e os Estados Unidos.

Essa trajetória explica por que as declarações de Milei possuem significado muito mais profundo do que aparentam. Elas simbolizam uma ruptura com uma tradição diplomática construída ao longo de décadas. Mais do que isso, representam um questionamento ao próprio projeto de integração regional.
A Guerra das Malvinas, em 1982, revela um aspecto decisivo da relação entre Brasil e Argentina. Embora o Brasil ainda estivesse sob a ditadura militar e os Estados Unidos, de Ronald Reagan, tenham apoiado militarmente o Reino Unido, o Brasil reconheceu a legitimidade da reivindicação argentina, defendeu sua soberania nos organismos internacionais e assumiu a representação diplomática de Buenos Aires em Londres após o rompimento das relações entre os dois países.
A exibição, pelos jogadores da seleção argentina, da bandeira com a inscrição “As Malvinas são argentinas” ultrapassou o universo esportivo, expressou uma reivindicação histórica de soberania que, longe de ser apenas uma causa argentina, poderia constituir uma bandeira comum em defesa da descolonização e da soberania de toda a América Latina.
A rejeição ao colonialismo europeu na América do Sul e a defesa da soberania regional foi fundamental no episódio da Guerra das Malvinas demonstrando que a cooperação entre Brasil e Argentina sempre esteve ancorada em interesses estratégicos permanentes, e não nas afinidades ideológicas de governos.
É justamente essa tradição que parece ser abandonada pela atual política externa argentina. Ao transformar o Brasil em adversário preferencial, Milei rompe não apenas com uma prática diplomática, rompe com um projeto histórico de construção da autonomia sul-americana. Essa mudança torna-se ainda mais evidente quando observamos suas primeiras decisões internacionais.
O abandono da entrada da Argentina nos BRICS, o esvaziamento político do Mercosul, a aproximação incondicional com os Estados Unidos e Israel e o discurso sistematicamente hostil aos mecanismos de integração latino-americana revelam que não estamos diante de ações isoladas. Estamos diante de um reposicionamento geopolítico. Por isso, interpretar as agressões contra Lula apenas como destempero pessoal significa ignorar a dimensão estrutural do problema.
A extrema direita contemporânea opera internacionalmente em rede. Compartilha estratégias de comunicação, formas de mobilização digital, financiamento político, discursos ultranacionalistas e agendas econômicas semelhantes. Donald Trump, Javier Milei, Jair Bolsonaro, Santiago Abascal, Giorgia Meloni e Viktor Orbán pertencem, cada qual com suas especificidades nacionais, a uma constelação política que procura reorganizar as relações internacionais em torno de um novo conservadorismo global.
Nesse cenário, a América do Sul volta a ocupar posição estratégica. Enfraquecer Mercosul, UNASUL e CELAC significa reduzir a capacidade de negociação internacional da região, ampliar sua dependência econômica e fragmentar projetos comuns de desenvolvimento. Enquanto isso, a Argentina atravessa uma profunda crise econômica e social. Inflação elevada, retração do consumo, desemprego, aumento da pobreza e deterioração das condições de vida desafiam diariamente milhões de argentinos.
É legítimo perguntar por que um governo dedica tanta energia ao conflito diplomático quando sua população aguarda respostas para problemas muito mais urgentes. Mas seria um erro permitir que as barbaridades de Milei contaminassem nossa visão sobre a Argentina. Os argentinos não se confundem com seu presidente.
Da mesma forma, o Brasil jamais poderá ser reduzido aos governos circunstanciais que o administram. Milhares de estudantes brasileiros vivem hoje na Argentina, pesquisadores trabalham conjuntamente em universidades dos dois países, empresas compartilham cadeias produtivas, artistas, cientistas, intelectuais e movimentos sociais continuam produzindo uma integração cotidiana que nenhum governante consegue interromper.
Essa talvez seja a maior demonstração de que existe algo mais profundo do que os conflitos eleitorais. Existe uma identidade latino-americana em permanente construção. José Martí chamou-a de Nuestra América, Darcy Ribeiro imaginou-a como uma civilização nova, Perón via nela a condição para a independência continental, Celso Furtado compreendia que somente a integração permitiria romper o círculo histórico da dependência.
Para Enrique Dussel, o relacionamento entre os países da América do Sul não deve ser compreendido apenas como uma aliança econômica ou geopolítica. Trata-se de um projeto ético, político e civilizatório de libertação, baseado na solidariedade entre os povos latino-americanos, na superação da dependência colonial e na construção de uma integração fundada na autonomia e na justiça social. Essa continua sendo a grande escolha colocada diante de nossos países.
O que temos na contemporaneidade é a disputa entre dois projetos históricos. De um lado, uma América do Sul fragmentada, subordinada aos interesses das grandes potências e incapaz de formular seu próprio destino. De outro, uma América do Sul integrada, soberana, democrática e capaz de construir seu desenvolvimento a partir da cooperação entre seus povos.
Foi esse segundo projeto que levou o Brasil a apoiar diplomaticamente a Argentina, foi ele que inspirou a criação do Mercosul, foi ele que deu origem à UNASUL e à CELAC e será ele que sobreviverá às provocações de governantes ocasionais.
Brasil e Argentina, porém, continuarão compartilhando a mesma geografia, a mesma história e o mesmo desafio: construir uma América do Sul suficientemente integrada para que seu futuro seja decidido por seus próprios povos, e não pelos interesses das potências que, há mais de dois séculos, disputam influência sobre nosso continente. Sigamos!
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