BAD prevê crescimento moderado para economias lusófonas africanas

O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) prevê um crescimento económico moderado para os países africanos de língua portuguesa em 2026 e 2027, num cenário internacional marcado por tensões geopolíticas, inflação persistente, volatilidade nos preços da energia e desaceleração da economia mundial.

As previsões constam do relatório “Perspectivas Económicas de África 2026: Mobilizar o Financiamento do Desenvolvimento de África em Grande Escala num Mundo Fragmentado”, apresentado na Quarta-feira, 27, durante as reuniões anuais do BAD, que decorrem em Brazzaville.

Segundo a instituição financeira continental, embora as economias lusófonas africanas continuem a demonstrar capacidade de resistência, permanecem vulneráveis a choques externos, dependência de matérias-primas, pressões inflacionistas e dificuldades estruturais ligadas ao financiamento do desenvolvimento.

O relatório destaca ainda que o agravamento das tensões no Médio Oriente poderá aumentar os custos energéticos, pressionar as cadeias globais de abastecimento e reduzir o espaço orçamental dos países africanos.

Angola: petróleo continua central, mas diversificação ganha peso estratégico

Para Angola, o BAD prevê um crescimento económico de 2,9% em 2026 e de 3,3% em 2027, abaixo dos 5% registados em 2024 e dos 3,1% observados em 2025.

O banco considera que o crescimento angolano continuará fortemente sustentado pelo aumento dos preços do petróleo, mas identifica sinais de diversificação económica ligados ao agronegócio, logística e mineração.

Entre os principais motores apontados está o Corredor do Lobito, considerado uma infra-estrutura estratégica para a integração regional e para o escoamento de minerais críticos provenientes da África Austral.

O BAD refere igualmente que Angola deverá beneficiar de cerca de 2 mil milhões de dólares em investimentos associados à mineração não diamantífera e exploração de terras raras, sectores considerados prioritários na actual corrida global por minerais estratégicos ligados à transição energética.

Ainda assim, a instituição alerta que a dependência petrolífera continua a representar um risco estrutural para a economia angolana, sobretudo num contexto de volatilidade dos preços internacionais do crude.

O relatório admite que o Banco Nacional de Angola (BNA) poderá voltar a endurecer a política monetária para conter pressões inflacionistas associadas ao aumento dos preços globais da energia.

Apesar disso, a instituição prevê alguma melhoria das contas públicas angolanas, estimando que o défice orçamental fique abaixo dos 3% do PIB entre 2026 e 2027, beneficiando do reforço das receitas petrolíferas.

A dívida pública deverá manter-se relativamente estável em torno de 48,2% do PIB, apoiada por excedentes primários e maior disciplina fiscal.

No plano externo, o excedente da conta corrente poderá aumentar para 3,4% do PIB em 2026, impulsionado pelas exportações petrolíferas.

O BAD insiste, porém, que Angola precisa acelerar reformas ligadas à transparência fiscal, gestão da dívida e mobilização de capital privado.

A instituição defende ainda o reforço de parcerias público-privadas, emissão de obrigações verdes e azuis e melhor aproveitamento das remessas da diáspora como instrumentos para financiar infra-estruturas resilientes e desenvolvimento sustentável.

Moçambique: gás natural e investimento sustentam recuperação

Para Moçambique, o BAD prevê um crescimento de 2,1% em 2026 e de 3,5% em 2027, sustentado sobretudo pela recuperação do sector extractivo e pela retoma gradual do investimento.

De acordo com a instituição, a expansão da produção de gás natural liquefeito deverá continuar a transformar a estrutura económica moçambicana, impulsionando exportações e atraindo novos investimentos internacionais.

O banco refere igualmente que o crescimento será apoiado pelo consumo privado, favorecido pelo aumento dos rendimentos e pela gradual recuperação da actividade económica.

No entanto, o relatório alerta para riscos significativos relacionados com a instabilidade política, os impactos das alterações climáticas e o conflito armado em Cabo Delgado, província onde se concentram os principais projectos de gás.

A inflação deverá moderar para cerca de 5,7% entre 2026 e 2027, em linha com o objectivo do Banco de Moçambique de manter a inflação em níveis de um dígito.

Já o défice orçamental poderá agravar-se para 6,4% do PIB em 2026 e 7% em 2027, pressionado pelo aumento dos pagamentos de juros e pela redução dos donativos externos.

O BAD prevê também um agravamento do défice da conta corrente, impulsionado pelo crescimento das importações ligadas aos projectos de gás natural e mineração.

São Tomé e Príncipe: turismo e reformas sustentam perspectivas positivas

No caso de São Tomé e Príncipe, o BAD prevê um crescimento de 2,4% este ano e de 3,2% em 2027, sustentado pela recuperação do turismo, construção civil e investimentos em energias renováveis.

A instituição considera que os projectos energéticos poderão ajudar o país a reduzir algumas das actuais limitações estruturais relacionadas com o abastecimento eléctrico.

O relatório refere ainda que a Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2026–2040 poderá melhorar gradualmente o ambiente de investimento e aumentar os fluxos de investimento directo estrangeiro.

Contudo, o BAD alerta para vulnerabilidades associadas à dependência das importações, à redução da ajuda externa e à exposição aos preços internacionais do cacau e dos combustíveis.

O calendário eleitoral deste ano – com eleições presidenciais, legislativas, autárquicas e regionais – poderá igualmente aumentar pressões sobre as finanças públicas e atrasar reformas estruturais.

Cabo Verde: turismo mantém crescimento acima da média regional

Para Cabo Verde, o BAD antecipa um crescimento de 4,7% em 2026 e de 5% em 2027, apesar do abrandamento face aos anos anteriores.

O desempenho deverá continuar fortemente sustentado pelo turismo e pelo investimento em infra-estruturas públicas e privadas.

Segundo a instituição, a inflação deverá permanecer relativamente baixa, situando-se em 2,6% em 2026 e 2,3% no ano seguinte.

O banco central cabo-verdiano deverá adoptar uma política monetária mais prudente após as intervenções realizadas em 2025.

O BAD alerta, contudo, para os riscos associados ao enfraquecimento do comércio mundial e à desaceleração das economias internacionais das quais Cabo Verde depende fortemente, sobretudo no sector turístico.

Guiné-Bissau: agricultura e construção lideram expansão

Já a Guiné-Bissau deverá continuar entre as economias lusófonas africanas com maior crescimento, com expansões previstas de 4,9% em 2026 e 5,1% em 2027.

O BAD considera que o crescimento será impulsionado principalmente pelos sectores primário e secundário, com destaque para agricultura, construção e actividades industriais.

O aumento do investimento público, das exportações e do consumo interno deverá igualmente apoiar a actividade económica.

A inflação deverá manter-se controlada, situando-se abaixo dos 3% nos próximos dois anos.

Ainda assim, o banco alerta para riscos significativos ligados à instabilidade política, fragilidade institucional e elevada dependência do sector do caju, principal produto de exportação do país.

A exposição a choques climáticos e ao aumento dos preços do petróleo poderá igualmente afectar o desempenho económico bissau-guineense.

África enfrenta um contexto global cada vez mais fragmentado

No plano continental, o Banco Africano de Desenvolvimento prevê que o crescimento económico africano abrande para 4,2% em 2026, podendo cair para 4% caso as tensões no Médio Oriente se prolonguem.

O banco considera que África continua a demonstrar resiliência económica, mas alerta para a necessidade urgente de diversificação produtiva, fortalecimento institucional e mobilização de financiamento interno.

As reuniões anuais do BAD decorrem até Sexta-feira em Brazzaville e reúnem mais de três mil participantes, entre chefes de Estado, ministros, governadores de bancos centrais, investidores e representantes de organizações multilaterais.

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