No Haiti, comunidades inteiras continuam vivendo sob o impacto de grupos armados, em uma crise que tem atingido inclusive pessoas que procuram refúgio em locais de culto. Uma das ocorrências mais graves foi registrada na noite de 23 de agosto, na comuna de Kenscoff, nos arredores de Porto Príncipe.
Pelo menos 47 pessoas morreram durante a incursão de uma gangue, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Entre as vítimas, 22 estavam em uma igreja onde haviam procurado abrigo. O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou o ataque e pediu que os responsáveis sejam identificados e levados à Justiça.
A ofensiva também foi marcada por incêndios e sequestros. Mais de 50 pessoas foram levadas pelos criminosos, segundo informações divulgadas pelas Nações Unidas e por veículos internacionais. O episódio é considerado um dos maiores sequestros em massa registrados no Haiti nos últimos anos.
As suspeitas recaem sobre grupos ligados à coalizão criminosa Viv Ansanm, que ampliou sua atuação em áreas próximas à capital. A violência tem se espalhado para regiões antes consideradas relativamente mais seguras, dificultando o funcionamento das instituições públicas e aumentando o número de pessoas obrigadas a abandonar suas casas.
Violência atinge milhares de haitianos
Os números divulgados pela ONU dimensionam a gravidade da crise. Somente entre janeiro e março de 2026, pelo menos 1.642 pessoas foram mortas e outras 745 ficaram feridas em episódios relacionados à violência. No segundo trimestre, foram registrados mais 1.408 mortos e 656 feridos.
A violência também provocou um deslocamento em massa da população. Cerca de 1,47 milhão de haitianos permanecem longe de suas casas, enquanto milhões enfrentam insegurança alimentar e dificuldades para acessar serviços básicos.
O sistema de saúde também sofre as consequências. Hospitais e organizações humanitárias enfrentam restrições para atuar em determinadas áreas devido aos riscos provocados por confrontos, sequestros e ataques. A instabilidade atinge ainda escolas, transporte e outras estruturas essenciais para a população.
Crise política agrava instabilidade
A insegurança ocorre em meio a uma prolongada crise institucional. O assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, aprofundou a instabilidade política e deixou o país sem eleições nacionais regulares durante anos. O Haiti se prepara para realizar eleições ainda em 2026, mas o avanço das gangues coloca em dúvida as condições necessárias para que o processo ocorra com segurança. A previsão atual é de votação em dezembro.
A comunidade internacional tenta reforçar a capacidade das forças de segurança haitianas. Uma nova força internacional apoiada pela ONU está prevista para ampliar o combate às organizações criminosas, mas a dimensão territorial da crise e a capacidade das gangues continuam sendo grandes obstáculos.
Em meio a esse cenário, igrejas e outros espaços comunitários permanecem entre os locais procurados por pessoas que fogem da violência. O ataque em Kenscoff evidencia, porém, a dimensão da crise: até mesmo quem busca abrigo em um lugar de culto pode se tornar alvo da violência.
Para os cristãos, a realidade haitiana também reforça o chamado bíblico à defesa da vida, à oração pelos que sofrem e ao cuidado com os vulneráveis. Diante de uma população submetida ao medo, a solidariedade e a proteção dos mais fragilizados permanecem desafios urgentes para a sociedade e para a Igreja.
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